sábado, dezembro 23, 2006

Os melhores anos da vida

Izaias Resplandes


À luz da eternidade, a vida de uma pessoa é constituída de breves momentos. Mesmo para quem alcança aquelas idades fabulosas, acima dos cem anos, isso ainda é apenas um sopro à vista da vida que dura para sempre. Isso, mal comparando, vez que a única relação entre o finito e o infinito é que um acaba e o outro não. Diz a Bíblia que “para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia” (2 Pe 3:8; Sl 90:4). Mesmo assim, com toda essa brevidade, os anos terrenos de um homem poderão ser os melhores de sua existência eterna, em vista de que, durante eles, este tem a oportunidade de viver o presente da melhor forma que desejar além de poder escolher o futuro que lhe julgar mais conveniente. A vida terrena é uma escola preparatória para a eternidade. É um tempo onde se faz um estágio de vida, onde se anda pelos caminhos que satisfazem ao coração e que agradam aos olhos, onde se goza do bom e do melhor que pode ser encontrado. É um tempo de aprender a fazer as coisas certas e não existe nada melhor do que isso. Todas as pessoas normais desejam agir assim, corretamente. Isso é realmente muito bom (Ec 6:6; 11:9; Js 24:15; Pv 15:24; Jo 1:12).
Há quem pense que a vida terrena tenha que ser pobre e miserável, que o homem não deve desfrutar de nada, abrindo abrir mão de todo prazer referente a esta vida, pensando somente na eternidade. Isso não está certo por completo. Não é o que a Bíblia ensina. Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Todas as coisas são lícitas. Tudo o que existe foi deixado por Deus para o aprazimento do homem. Deve-se pensar na vida eterna, mas também se deve pensar nesta vida. O homem vive em dois mundos. E, em qualquer deles, tem o direito de realmente viver. (Rm 8:28; 1 Co 10:23; 1 Tm 6:17).
Deus não criou todas as coisas terrenas para que o homem simplesmente tivesse que contemplá-las sem poder tirar proveito delas para o seu deleite. O homem foi criado para ser feliz e para ter uma vida prazerosa e agradável. No jardim do Éden, ele podia comer do fruto de todas as árvores que desejasse, tanto é que comeu. Deus pensou no prazer da companhia de uma esposa, dos filhos, de uma família, enfim e providenciou-lhe esse desfrute. Afinal, se o prazer é um deleite divino, por que também não seria humano? Não foi o homem criado à semelhança de Deus? (Gn 2:18; 5:1; 18:12; 1 Sm 15:22; Sl 1:2; Sl 68:6).
É costume das pessoas adultas perguntarem se isso ou aquilo é proibido na igreja ou se isso ou aquilo outro é permitido. Elas agem como crianças sem discernimento, que ainda não sabem o que é bom e o que não presta. Perdem a oportunidade de desfrutar da liberdade para julgar o que o Criador lhes concedeu. É de destacar que Deus somente quer o nosso coração se este lhe for dado de boa vontade, com alegria e não por constrangimento (Cl 2:20-22; 1 Ts 5:21; 2 Co 9:7).
Isso é o livre arbítrio, o qual consiste no poder de decidir o que realmente se quer. Todas as coisas são postas diante do homem, todos os destinos, todas as opções. Cada um é livre para fazer suas escolhas e, evidentemente, arcar com todas as conseqüências, conforme a natureza. O que compra deve pagar; o que paga deve receber; o que recebe deve agradecer. Essa é a chamada lei da causa e efeito teorizada por Newton, segundo a qual, “a toda ação corresponde uma reação”. Esse raciocínio conduz o homem à idéia de liberdade responsável e é isso o que Deus espera de cada um. É esse o comportamento que será premiado por ele no Grande Dia. O destino final, bem como as recompensas e o galardão de cada um, haverá de ser diretamente proporcional às escolhas que foram feitas na vida terrena.
É de saber que o homem foi criado para ser a glória de Deus, para estar em harmonia com Ele. Isso asseguraria a sua felicidade para sempre. Ao tomar suas decisões, o homem deveria levar em conta os dois lados envolvidos, pensando em agradar a si mesmo, mas também em agradar ao Criador. Essa é a lei da boa convivência, seja com Deus, seja com familiares, sejam com os amigos. Se os dois lados estão satisfeitos, então todos serão felizes.
É esse o sentido em que se entende ser os anos terrenos os melhores da vida, visto que neles se têm a grande oportunidade de decidir sobre o futuro. E o que poderia ser melhor para uma pessoa do que ter a liberdade de escolher o seu futuro?
Afinal de contas, ser feliz ou não aqui e na eternidade é uma questão que somente depende de cada um. O homem pode decidir viver feliz apenas para si durante os setenta ou cem anos que Deus lhe der e ser infeliz o restante da eternidade, ou pode decidir desde agora e para sempre, viver para si e para Deus, cumprindo o propósito de sua criação, demonstrando que realmente aprendeu a tirar o proveito esperado dos melhores anos de sua vida. Tudo é questão de como cada um vier a escolher. “Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14:12).
Que a vida de todos seja composta de boas escolhas! Que Deus nos abençoe!

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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

A conquista do mundo de Deus

Izaias Resplandes*


Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? (Rm 11:33-34). Mesmo os mais sábios deste mundo têm fracassado, admitindo que a plenitude do saber é praticamente inacessível. Willian Shakespeare, famoso escritor inglês atribuiu a Hamlet, um de seus personagens, uma frase que eternizou esse reconhecimento. Disse ele: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.
Isso, todavia, não significa que tal saber não deva ser perseguido pelo homem. Paulo de Tarso, escrevendo aos filipenses declarou: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3:12).
É de destacar, ainda, a tristeza de Paulo em relação à falta de progresso no conhecimento por parte dos coríntios. Lamenta que eles ainda sejam crianças incapazes de digerirem um alimento mais sólido, um conhecimento mais profundo (1 Co 3:1-2). O mesmo se dá em relação aos hebreus. Segundo o autor, em face do tempo decorrido eles já deviam ser mestres. No entanto, ainda careciam de alguém para ensinar-lhes os princípios elementares dos oráculos de Deus (Hb 5:12).
Uma das condições para o crescimento é o domínio das regras do processo. É cediço que a aquisição de quase tudo nesta vida se dá de forma gradativa. Assim também ocorre em relação ao conhecimento. O saber mais, ou menos, tem uma relação direta com a aplicação que fazemos daquilo que temos aprendido (Dt 29:29; Fp 3:16; Tg 2:22). Deus não lança suas pérolas aos porcos, vez que nos orienta para agir dessa forma em sua Palavra (Mt 7:6). Ele não permitiria que soubéssemos mais do que aquilo que pudéssemos suportar, visto que daquele que mais recebe, muito mais será cobrado (Lc 12:48b). Tal permissão entraria em choque com a leveza do fardo divino, anunciada por Jesus (Mt 11:30). Ele também não permitiria que adquiríssemos o conhecimento de seus mistérios mais profundos para que apenas tivéssemos o gozo do saber ou para que deles fizéssemos uma utilização inadequada. É por isso que muitos daqueles que pensam saber, na verdade não sabem de nada. Nesse sentido estava certo Sócrates, o sábio grego, ao declarar enfaticamente: “tudo o que sei é que nada sei”. O conhecimento, como o próprio Deus, está tão perto de todos, mas ao mesmo tempo tão longe. Por isso é preciso saber a maneira certa de encontrar a um e ao outro (At 17:27).
A caminhada se dá com um passo de cada vez. A metodologia do crescimento é a utilizada pelo escriba e sacerdote Esdras: aprender, praticar e ensinar aos demais. Deus espera que sejamos multiplicadores de boas práticas e não de meras teorias (Ec 9:7; Ef 2:10; 2 Tm 3:17). O saber dissociado da prática não vale nada. “A fé sem obras é morta” (Tg 2:26). Todavia, sempre avançando, Deus espera que esquadrinhemos suas verdades e que o saber do homem se multiplique (Dn 12:4); espera que sejamos sábios e aptos para responder de forma adequada a todo aquele que O afronta (Pv 27:11; Mt 22:29; 2 Tm 2:15; 2 Pe 3:18).
É de saber que o Todo Poderoso não criou o mundo para que permanecesse incógnito, desconhecido. Pelo contrário, Ele deixou chaves para que os homens descobrissem, ao seu tempo, todos os mistérios envolvidos em sua criação e se utilizassem desse conhecimento em seu próprio benefício (Dt 29:29). Destaque-se que os primeiros verbos que Deus usa na sua comunicação com o homem são flexionados no modo imperativo. São ordens para fecundar, multiplicar, encher e sujeitar a terra, dominando sobre todos os animais que nela vivem (Gn 1:29). Está claramente evidenciado que o mundo de Adão não se limitava aos simples atos de cultivar e guardar o jardim edênico (Gn 2:15). Deus determinou claramente que o homem, palmo a palmo, conquistasse os segredos do mundo, tendo o Éden como ponto de partida. Uma descoberta levaria a outra, através de um efeito dominó, até que, de modo sempre crescente o homem completasse sua medida de saber (Gl 3:24; Fp 3:13-15; 2 Tm 4:7; 1 Jo 3:2).
Além disso, é de destacar que o conhecimento é sempre renovado. As palavras divinas são as mesmas, mas a aplicação vai se adequando aos novos tempos. Muitas das coisas que nossos pais aprenderam, hoje nós não precisamos mais. Não há um limite a ser esgotado, de forma que não se tenha mais o que aprender. Ninguém se forma completamente em conhecimento cristão. Estaremos sempre em formação. A conquista do mundo de Deus é algo processual que tem a duração de uma vida inteira. E esse mundo se renova de vida para vida (Sl 104:30), sendo o mundo de cada um diferente do mundo dos demais. Observe-se que, passados tantos séculos desde o início memorável, ainda não temos uma clara noção da amplitude dos conhecimentos guardados pelo Criador em favor do homem. Quanto mais se descobre, mais se verifica que há por descobrir. Além disso, é de ver que muitos dos segredos divinos não estão presentes no planeta Terra. Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos (Sl 19:1). O firmamento é o espaço sideral. A conquista da terra implica a conquista do espaço. O nosso planeta nada mais é do que uma das escalas do avanço humano no cumprimento do imperativo divino. É provável que tenhamos muitas outras escalas, pois é certo que Ele deseja para nós muito mais do que imaginamos. A Terra não é o nosso mundo – embora para alguns seja e talvez por isso se apeguem a ela com tanto ardor. Ela apenas faz parte dele. O nosso mundo, ainda a ser plenamente conquistado, é o mundo de Deus, os céus, se assim desejarmos chamar (Jo 17:16; Fp 3:20). A conquista do mundo de Deus é a conquista dos céus.
Todavia, tudo começa no Éden. Há quem pense que os primeiros pais eram néscios e não sabiam de nada. Isso não é verdade. Eles eram puros, o que é bem diferente de ser ignorante. É possível que apenas não soubessem discernir entre o bem e o mal, principalmente porque não havia parâmetros para comparação. Tudo o que existia era muito bom (Gn 1:31; 2:17). Se o mundo fosse monocromático, se todas as cores fossem verdes, amarelas, azuis ou vermelhas, onde estaria o arco-íris? Somente é possível a comparação na multiplicidade, na policromia das cores e significados.
A árvore do conhecimento do bem e do mal não tem nada a ver com o conhecimento geral. Diz respeito apenas ao conhecimento específico referente ao discernimento entre o bem e o mal (Gn 2:17). Havia uma reserva divina em relação a esse nível do conhecimento. O homem, embora muito bom (em termos de criação), não foi feito para ser Deus, mas para ser homem e, por conseguinte, não estava apto para a administração desse saber. Aliás, na hierarquia da criação, o homem está abaixo do Cristo (o filho do homem), o qual, por um pouco, foi feito menor que os anjos (Hb 2:7, 9). Existe uma gradação de autoridade. Paulo, escrevendo a respeito do assunto, diz: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1 Co 11:3). Quando Asafe escreve que os homens eram “deuses”, ele não queria dizer que cada um fosse Deus, mas que, sendo filhos de Deus, certamente seríamos deuses (Sl 82:6). É algo bem parecido com a história do “filho de peixe, peixe é”.
Por outro lado, é de destacar que certos saberes são exclusivos para o Pai (Mc 13:32; At 1:7). O conhecimento que possibilitaria o discernimento entre o bem e o mal era parte integrante dessa reserva exclusivamente divina. A falta de competência para administrar tal saber, com certeza levaria o homem à morte. Por isso o “certamente morrerás” dito por Deus. Infelizmente, o homem não acreditou nele. Pagou para ver. Desobedeceu a ordem do Criador, ultrapassou os limites e até hoje sofre as conseqüências daquele ato precipitado. Como já foi dito, o saber traz responsabilidades. Quanto mais se tem, mais se deve. Contrário senso, a ignorância é tolerada por Deus. Ele não leva em conta as coisas erradas que fazíamos pensando que estavam certas. (At 3:17; 17:30; 1 Tm 1:13; 1 Pe 1:14). Cada coisa tem o seu tempo certo (Ec 3:1). Devemos seguir o curso normal delas e ter a paciência de esperar a hora propícia para cada uma. Então, sim, devemos agir para que não sejamos considerados levianos e relaxados com a obra de Deus (Jr 48:10). É provável que até mesmo o mencionado discernimento viesse a se tornar acessível ao homem com o passar dos anos, quando adquirisse maturidade espiritual. Como se sabe, haverá um dia em que, de fato, seremos semelhantes a ele. Então, provavelmente, teremos esse domínio (1 Jo 3:2).
Enquanto isso, a Bíblia nos orienta para buscarmos crescer sempre (2 Pe 3:18). Nesse sentido, é possível que um dia todos possam se tornar mestres na Palavra e serem utilizados como tais, se Deus assim o desejar. Todavia, não passemos o carro adiante dos bois. O Senhor mesmo é o que escolhe e potencializa aquele que um dia será um mestre na Palavra (Ef 4:11). Contudo, o tornar-se efetivamente um mestre é algo que somente se dá com o tempo, através de estudos e experiências vividas. É de observar que, nos dias da criação, Adão era como um cristão novo convertido. Estava cheio de vontades. Tinha um enorme potencial para crescer. Mas, segundo a Bíblia, ele era apenas uma criança espiritual em condições de iniciar a conquista do mundo para o qual nasceu. Como tal, era ainda muito puro e inocente em relação às profundidades do conhecimento. Para crescer, necessitava de nutrimento condizente à sua condição. Veja-se que ele, sequer havia aprendido a se vestir. Faltava-lhe autonomia mesmo para pequenas necessidades como essa. Ao se descobrir nu, sentiu-se envergonhado para estar diante de Deus em tal estado, mas não soube como agir, sendo necessário que o próprio Criador lhe providenciasse as vestimentas (Gn 3:21).
Quantas vezes não estivemos nós em situação semelhante, defrontando-nos com problemas aparentemente tão simples, aos quais não sabíamos dar as respostas? Quantas vezes não nos socorremos dos achismos? Quantas vezes envergonhamos o nosso Senhor ao nos passar por donos de um mundo que ainda não conquistamos? Muitas e muitas vezes! Isso, porém, é algo normal, que soe acontecer com todos os crentes no início da carreira, quando se prefere achar tudo ao invés de assumir a condição de criança espiritual que ainda não sabe quase nada. O que é anormal e muito triste é a existência dessa situação depois de anos e anos de “carreira” sem ter saído do lugar. Infelizmente, sabemos que uma pessoa nessa condição não receberá o bem-vindo de Jesus quando chegar o dia da vitória, em face de haver enterrado o seu talento potencial para a conquista de novas fronteiras para o Seu domínio (Mt 25:24-25). Segundo a Bíblia, esse alegre brado estará reservado apenas para aqueles que não medirem esforços, que não encruzarem os braços e perseverarem conquistadores, trabalhando arduamente até o fim (Pv 24:33; Mt 24:13; Gl 5:7; Ap 2:4-5).
É começo de ano. Desejamos que este 2007 seja realmente ímpar para todos nós. Que saibamos seguir as regras que os verdadeiros heróis da fé nos legaram como exemplos de como o mundo de Deus pode ser conquistado por cada um de nós. E assim, que possamos amar e lutar de forma ilimitada pela expansão das fronteiras de nosso mundo espiritual. Conte conosco. “Para vós outros, [queridos irmãos], abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. Não tendes limites em nós” (2 Co 6:11-12).
Vitória!

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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

sábado, dezembro 16, 2006

O descanso do crente

Izaias Resplandes


O crente é uma pessoa normal, não é um super-homem, não é auto-suficiente. Dentre suas necessidades fundamentais, destaca-se a alimentação. Para obtê-la, requer que despenda energias, que trabalhe. Gn 3:19, 23; Sl 128:2; Ef 4:28; 1 Ts 4:10b-11; 2 Ts 3:10.
Por outro lado, Jesus foi criticado no seu tempo porque estava trabalhando em um dia de sábado, consagrado pela tradição judaica como dia de descanso. Será que existe um dia certo para trabalhar e para descansar? Jesus justificou sua atividade dizendo que seguia o exemplo de Deus Pai que trabalhava e isso lhe bastava. De outra feita, declarou que ele era o caminho, ou seja, o exemplo a ser seguido. Jo 5:17; 14:6.
Trabalhar e descansar. Esse é o tema dessa reflexão.
Em primeiro lugar é de observar as palavras de Jesus em Mc 2:27. “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”. Jesus evoca o momento da criação. Deus trabalhara seis dias e descansou no sétimo. Deus não se cansa, não é como o homem. O que se tem aqui é um princípio. Após o trabalho, o homem tem necessidade de um descanso. O sábado foi criado para atender essa necessidade. Os homens havia trocado a função pela forma, passando a idolatrar o dia do descanso, estabelecendo um rol de regras referentes à sua guarda.
Hoje não estamos mais baixo os rigores da lei judaica, embora também guardemos mandamentos. Todavia, como igreja neotestamentária, nós somente seguimos o Velho Testamento naquilo que se repete no novo, o que não acontece com o mandamento da guarda do sábado. Não estamos mais sob a lei. Estamos sob a graça. Rm 6:14; Cl 2:16; Gl 4:8-10.
Isso quer dizer que não precisamos de descanso ou que não temos direito ao descanso? Absolutamente. Não é porque estamos sob a graça que nos tornamos super-homens. Continuamos tendo necessidade de descansar após o trabalho. Não nos esqueçamos dos exemplos deixados por Jesus. Mt 6:31.
Nesse caso, qual seria o nosso dia de descanso? O sábado ou o domingo?
É aqui que está a questão. Não é o dia o mais importante, mas a necessidade. Podemos descansar qualquer dia, desde que trabalhemos. O que não dá é seguir o ditado nordestino: “oh, como é bom não fazer nada e depois descansar!”. O crente deve trabalhar. Pv 6:6-11. Assim ensinam as Escrituras. Todavia, trabalhando, tem direito ao descanso, seja no sábado, seja no domingo, seja na segunda-feira, seja em qualquer outro dia da semana.
Mas o domingo não é o dia do Senhor? Se seguirmos analogicamente o que Jesus disse a respeito do sábado, se o domingo é o dia dele, então, seguindo o seu exemplo, não há nada demais em se trabalhar nesse dia. Mc 2:28.
Em relação ao domingo, temos a considerar os exemplos da igreja neotestamentária, quando se reuniam para participar da ceia do Senhor, ofertar a Deus e ter comunhão com os irmãos. At 20:7; 1 Co 16:2.
Por outro lado, isso não é uma camisa de força. Devemos entender a Bíblia seguindo a ótica de Jesus, olhando antes de tudo para a finalidade. Cada coisa tem o seu fim determinado. É isso que deve ser observado. Rm 3:1-2 (a circuncisão); 1 Tm 1:8 (a lei); 2 Tm 3:16 (a Escritura); Tt 3:9 (a discussão); Hb 13:7 (a vida).
Por último, é de destacar que a reflexão aplica-se tanto ao trabalho material, quanto ao trabalho espiritual. Ambos são importantes e necessários. Nenhum dos dois deve ser feito além dos limites e contra a natureza. Todos os que trabalham têm direito ao descanso. O fato de uns se dedicarem apenas ao material enquanto outros se dedicam apenas ao espiritual não mudam as coisas. A natureza do trabalho de cada um é questão para outra reflexão. Há tempo para tudo. Ec 3:1.

sábado, dezembro 09, 2006

Meu fardo é leve

Izaias Resplandes


A vida cristã deve ser caracterizada pelo equilíbrio. Nem tanto céu, nem tanto terra. Devemos observar os limites de tolerância em relação a nós mesmos para que possamos nos manter firmes, satisfeitos e felizes com a nova vida que temos recebido de Cristo. A moderação é a virtude que consiste em evitar qualquer excesso. Rm 12:3; Fp 4:5; 2 Tm 1:7.
É verdade que o cristão tem um fardo para carregar. Jesus disse que o seu fardo era leve, mas não que não haveria um fardo para o crente carregar; disse que seu jugo seria suave, mas não que não houvesse um jugo (uma carga). Ele não disse que não teríamos obrigações ou responsabilidades ao nos tornarmos seus discípulos. Pelo contrário, disse que o cristão deveria empregar esforço para entrar no reino dos céus. Mt 11:29-30, 12; Lc 13:24.
Por outro lado, as exigências devem ser proporcionais à capacidade de cada um, a fim de que não seja motivo para o desânimo e a tristeza. As atividades cristãs devem ser prazerosas e não estressantes. Somente se deve aumentar a carga sobre um irmão se isso não vier dar causa à sua derrocada. Os que lideram, devem fazê-lo com diligência, observando essas peculiaridades da Palavra de Deus, para que tenhamos crentes felizes com sua missão, ao invés de pessoas fatigadas desmaiando ante o peso da cruz. 1 Co 10:13; Hb 12:3.
Se um irmão caminha bem e pode suportar mais, certamente não é vedado exigir dele um pouco mais. Todavia, sempre com a devida moderação. O exército precisa estar animado e pronto para responder aos comandos. Isso não acontecerá se tivermos soldados cansados e sobrecarregados. Aliás, a idéia da sobrecarga é contrária às idéias pregadas pelo Senhor. Afinal, o que Ele defende é o alívio, diferentemente dos líderes tipo Roboão que prometem não apenas açoites sobre o povo, mas também o castigo com escorpiões. II Cr 10:12-14; Mt 11:28.
É de observar que uma das conseqüências decorrentes do ato de receber algo é o ato de dar ou de restituir. Essa é uma lição que já está incorporada em nossa consciência ética. Isso é patente: daquele que mais receber mais se requererá. Lc 12:48, Mt 6:12; Lc 7:41-43; Mt 18:32-33.
Nesse sentido, é de ver se o irmão que vai ser sobrecarregado é capaz de suportar o novo fardo com naturalidade, respondendo à altura pelas responsabilidades decorrentes. Veja-se a crítica que Jesus fazia aos fariseus a respeito desse assunto. Eles não tinham esses cuidados e iam colocando fardos e mais fardos sobre os irmãos, sem levar em conta a capacidade de cada um para carregá-los. E pouco se incomodavam com isso. Mt 23:2-4.
É evidente que todo crente é chamado para trabalhar na obra de Deus. E, para tanto cada um é qualificado pelo próprio Senhor Jesus. Por outro lado, o trabalho do cristão em prol do reino de Deus deve ser resultado de um esforço coletivo. É um mister para quatro mãos, onde cada uma deve dar a sua contribuição. Não é tarefa isolada. O fardo é sempre um fardo, ou seja, é pesado por natureza. O que o torna leve é a parceria, é a divisão de atribuições e responsabilidades. Gl 6:2; Rm 12:4-5.
É de recordar que a vida cristã é liberdade e não constrangimento. Se não houver prazer verdadeiro em nosso agir, em oposição ao prazer hipócrita e fingido, não estaremos atuando no Espírito de Cristo. Esse é um agir carnal, que segue as aparências; não é espiritual, pois contraria a natureza da pregação bíblica, Devemos trabalhar, sim, mas dentro de nossos limites. Não temos que aceitar mais um encargo só porque somos crentes responsáveis. Rm 8:8-9.
O fim não justifica os meios. O crente responsável com a obra é aquele que, antes de tudo, é responsável para consigo mesmo. A medida do amor aos irmãos deve ser a medida do amor a si mesmo. Lc 10:27b. Os outros podem até supor os nossos limites; nós temos o dever de conhecê-los, nos adequando a eles. Devemos trabalhar enquanto é dia, enquanto temos condições. E quando for necessário, devemos nos retirar para um lugar solitário, separado dos irmãos, da labuta e de tudo para descansar e reparar as nossos energias. O descanso é uma criação de Deus para nós. Mc 6:31-32; Mc 2:27.
“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim [...], porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Mt 11:29-30.
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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Evangélica Neotestamentária de Poxoréu, MT.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Papai do Céu

Izaias Resplandes


O homem foi criado por Deus para dominar e sujeitar a criação (Gn 1:28), governando, inclusive, a sua mulher (Gn 3:16) e os seus filhos (1 Tm 3:4, 12). A ele cabe o planejamento, a administração e a responsabilidade pelo cuidado e manutenção de sua casa, bem como o dever de conduzir os seus até os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo (At 16:31; Ef 5:25-27). Para uma missão tão complexa, o Criador não o deixou sozinho. Em primeiro, providenciou-lhe uma auxiliadora (Gn 2:18), deu-lhe uma família (Sl 68:6). Em segundo, sempre esteve ao seu lado, mesmo em momentos de grande decadência espiritual (Gn 3:9-21; 4:13-15; Jo 3:16;). Ele não criou o homem e o deixou abandonado à própria sorte, senão que tem tomado todas as providências para que ele seja feliz e tenha longa vida sobre a terra (Ef 6:2-3). Deus tem sido um verdadeiro Papai do Céu para todos nós (Sl 11:4, Mt 5:34).
Começando por Adão, todos os homens pecaram. Cada um se desviou pelo seu próprio caminho (Is 53:6). Todavia, isso não foi motivo para que Deus se voltasse contra aquele que criara. Pelo contrário, a insuficiência do homem fez com que Ele fosse ainda maior em seu amor (Rm 5:8). Ele idealizou e executou um plano para a salvação do homem perdido (Ef 1:4-5). Naqueles momentos de total incapacidade para resolver a situação (Rm 3:11-12), Ele foi nosso Pai mais do que nunca. Ele nos deu as condições para receber a sua misericórdia. “Enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho que clama: Aba, Pai” (Gl 4:6). Porque a grande verdade é que nem pedir o que precisamos nós sabemos (Rm 8:26).
Destarte, graças à Sua intervenção, fomos capazes de reconhecer o chamado de Jesus (Jo 10:3, 27), o seu “vinde a mim” (Mt 11:28), o que nos levou a recebê-lo como nosso Senhor e Salvador (Jo 1:11-12). E então, ele nos deu o maior presente de nossas vidas. Ele nos deu o poder de sermos feitos seus filhos. A criatura adquiriu o status de filho. Doravante, tornamo-nos, por esse processo adotivo, filhos e herdeiros de Deus, juntamente com Jesus (Gl 4:7). E de fato, nos tornamos irmãos de Jesus, haja vista que Ele nunca nos tratou como servos. Antes, pelo contrário, ensinou-nos a fazer as coisas conforme Deus aprecia, deixando claro que somente dessa maneira poderíamos ser realmente seus irmãos (Mc 3:33, 35).
Com Jesus aprendemos a orar a Deus, chamando-o de “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6:9). Jesus nos deixou claro que Deus é o nosso Papai do Céu. A expressão “aba, Pai” é papai. É pai duas vezes. E Deus é nosso pai de criação e nosso pai por adoção. Portanto, é nosso papai. A Ele devemos recorrer nas nossas necessidades.
A Bíblia registra que Jesus questionava aos seus discípulos pelo fato deles não terem pedido nada ao Pai. A elevação à condição de filho traz consigo a prerrogativa de poder pedir, usando como argumento e justificativa apenas o fato de que o clamor é feito em nome de Jesus. “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Mt 7:7). Ele quer abençoar-nos de tal maneira, para que todos os povos saibam que somos seu povo, sua família, sua gente e também queiram ser abençoados como nós somos. Deus quer que todos cheguem ao arrependimento e sejam salvos (2 Pe 3:9).
Só existe um limite para a atuação do poder de Deus em nossas vidas. É o seu zelo. Em questões espirituais, Ele não admite concorrência, requerendo de nós uma fidelidade absoluta. Se formos fiéis, Ele será fiel e cumprirá todas as suas promessas. Portanto, “a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23:9). Somente Ele deverá ser considerado o nosso Pai Espiritual, ninguém mais. Nossos pais carnais não serão nossos pais nos céus. A missão deles encerra aqui na terra. Ali, todos seremos irmãos e Deus será o Pai de todos. Que todos possam ver essa grande verdade.
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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

domingo, novembro 26, 2006

Papai Noel

Izaias Resplandes*


Mais uma vez é dezembro. Repetir-se-ão as cerimônias da irracionalidade e da falta de conhecimento espiritual como um todo. O culto racional é aquele que se encontra de acordo com os fundamentos estabelecidos na Palavra de Deus (Rm 12:1-2). Há muitos grupos cristãos cujas práticas são estranhas àquilo que a Bíblia ensina. Em alguns deles, Cristo está do lado de fora (Cf. Ap 3:20; Rm 12:1). Devemos ser prudentes para que não sejamos contados entre eles. É preciso estudar a Bíblia com o propósito de oferecer um culto cada vez mais agradável ao Senhor (Fp 3:12-16) A falta desse estudo nos leva à prática de um culto qualquer, falando-se a respeito de um Cristo estranho ao da Bíblia. É de destacar que somente a Palavra de Deus pode dar-nos as informações confiáveis a respeito do Senhor Jesus. Por isso ele mesmo diz: “Examinais as Escrituras [...], porque são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5:39). E complementa àqueles que assim não procedem: “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mt 22:29).
Não tenho dúvidas que Papai Noel, como de costume, será o tema central dos festejos natalinos, em lugar daquele cujo nascimento terreno se pretende comemorar. O mito tomará o lugar do verdadeiro. Que triste paradoxo! Papai Noel, aquele que nunca existiu de verdade, tem se tornado o sonho e a esperança de grandes multidões, mesmo se sabendo que ele não passa de uma ilusão e de uma fantasia. Jesus é deixado de lado.
Há quem pense que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Que os crentes não estão cultuando Papai Noel, mas o Senhor Jesus. Não olvido disso. Todavia, é de se destacar que é com esse raciocínio que se têm dado lugar para muitas das práticas heréticas dos cristãos modernos. Em relação ao Natal, ao dia 25 de dezembro, ao Papai Noel e ao nascimento de Jesus, por exemplo, existem as seguintes relações:
1) A data de 25 de dezembro era considerada na cultura dos Bálcãs, o dia do nascimento de Fírgias, o deus-sol, o qual era então festejado por eles.
2) Na mesma ocasião, dava-se o solstício de inverno no hemisfério norte, marcando, em tese, o fim do inverno e o começo da Primavera. Os dias já não seriam tão frios e haveria a possibilidade de sair de casa, preparar a terra, plantar e colher. Em função disso, os romanos celebravam um festival em homenagem a Saturno (deus da Agricultura), caracterizado pela alegria e por uma troca de presentes que o momento propiciava.
3) A igreja cristã não permitia que seus adeptos participassem da saturnália até o século quarto da nossa era. A partir de então, com a oficialização da Igreja Cristã, como a Igreja do Império, fez-se a adequação, passando-se a comemorar a Festa da Natividade também em 25 de dezembro. Enquanto os gregos celebravam Fírdias, os romanos não-cristãos celebravam a saturnália, os cristãos celebravam o nascimento de Jesus. Aproveitava-se a mesma data, mas com propósitos diferentes.
4) Já o Papai Noel, também conhecido como Santa Claus, Pai Natal, entre outros nomes, foi uma criação inspirada em Nicolau Taumaturgo, Arcebispo de Mira (Turquia), o qual teria nascido em 280 d.C. Conta-se que era um homem de bom coração, que costumava ajudar as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximas às chaminés das casas. Em virtude de vários milagres a ele atribuídos, foi transformado pela Igreja em “São Nicolau”. Em francês, Noel significa Natal. O Papai Noel seria o Papai Natal.
Do ponto de vista bíblico, não existe nenhuma fundamentação para a criação desse personagem. A respeito do Pai, nosso livro sagrado nos diz: “a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23:9). Nosso entendimento é que os cristãos verdadeiros não devem misturar as coisas. É verdade que Jesus veio ao mundo para salvar a todos. Mas também é verdade que esse nascimento somente tem um efeito positivo para aqueles que o recebem como seu Senhor e Salvador. Para esses tais, o nascimento dele tem um significado muito forte e justificaria a comemoração, a qual poderia ser feita durante todos ou em quaisquer dos dias do ano. Não haveria a necessidade de misturar as coisas, principalmente porque não existe comunhão entre pagãos e cristãos, entre a luz e as trevas (2 Co 6:14). O Sol da Justiça brilha sobre todos, mas nem todos se aproveitam dessa luz da forma mais adequada. (Ml 4:2; M5 5:45).
No caso particular do Papai Noel, entendemos que a sua inclusão na vida do crente está vedada pela Palavra de Deus. Em Ex 20:2-6 está registrada a proibição: “Eu sou o Senhor teu Deus [...]. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso [...] e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos”. E o Novo Testamento confirma que amar ao Senhor de todo o coração é o grande mandamento (Mt 22:37). Em outras palavras. Não temos a necessidade de um Papai Noel para intermediar a nossa bondade para com o nosso próximo. “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 5:1).
É verdade que “todas as coisas são lícitas para o crente”, mas também é verdade que “nem todas convêm” e que ele não deve se deixar “dominar por nenhuma delas” (1 Co 6:12). Alguns crentes de pouca instrução podem dizer que “não há nenhum mal em celebrar o Natal ou em cultuar o Papai Noel, cantando suas canções, colocando sua imagem em suas casas, etc.. Mas a verdade é que existe um mal, sim. Fazer a imagem e usá-la é proibição de Deus; é seu mandamento confirmado à igreja. Ele entende que isso é uma forma de desviar o nosso amor DELE e, por isso, veda expressamente.
Por outro lado, é de destacar que a CEIA DE NATAL preparada especialmente para esse dia, está vedada expressamente em At 15:29, onde se orienta os gentios para que se “abstenham das coisas sacrificadas a ídolos”. Podemos comer de tudo, mas devemos observar em que espírito se come (Cf. 1 Co 10:23-31). Se o comer é para celebrar esse Natal originado da Saturnália dos romanos, das homenagens ao deus-sol Fírgias ou ao bispo Nicolau, então temos que ser mais prudentes, pois esse é um fundamento idólatra (Is 52:13; Ef 1:8).
Em suma, o grande problema de toda essa história do Natal e de Papai Noel é a origem de tudo isso. Tratam-se de criações humanas. É evidente que todo aquele que é nascido de Deus, que tem Jesus como seu Senhor e Salvador e que tem o Espírito Santo habitando em seu ser, jamais trocará essa esperança verdadeira que conduz à felicidade e à vida eterna pelas ilusões dessa “Noite Feliz” e desse “Feliz Dia de Natal”. Nós não temos que ser semelhante às nações. Não precisamos de um dia especial para comemorar o nascimento do nosso Salvador, mesmo porque esse nascimento tem um significado particular e não coletivo. Jesus nasce para o indivíduo e não para a humanidade. Aqui está presente uma tentativa melosa do maligno de tentar confundir a verdade das Escrituras e nós não devemos cair na armadilha.Com toda certeza, podemos deixar a nossa comemoração para outro dia, até mesmo porque o nosso “Deus não é de confusão e sim de paz” (1 Co 14:33).
A gargalhada de Papai Noel não deve ecoar nos lares cristãos. Em seu lugar devemos cantar “Glória, glória, aleluia, o Cristo voltará!” Ao invés de nos ocuparmos com essas histórias heréticas produzidas pela idolatria humana, que ocupemos o nosso pensamento com “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama”, mas que seja realmente virtutuoso, ou seja, que esteja fundamentado na Palavra de Deus, conforme a orientação paulina de Fp 4:8.
Essa é a esperança que alimenta a nossa vida. Que Deus nos abençoe!
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*Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igeja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Consciência Negra, uma questão a resgatar

Prof. José Carlos Iglesias

Feriados os há em grande profusão em nosso calendário anual, alguns são de cunho religioso, sedimentados em nossas inegáveis raízes cristão-católicas, práticas e fenômenos que foram sendo incorporados na nossa cultura, que já não dizem mais respeito a uma prática religiosa, mas que são ainda mais que isto, passou a ser um produto social institucionalizado de indiscutível valor. Por conta de nossa formação positivista, os feriados ligados ao nacionalismo e patriotismo vêem sendo talvez os mais exaltados e solenes. Tais datas comemorativas estão sendo repetidas reiteradas vezes que acabam por serem até banalizadas, perdendo até seu sentido inicial, transformados em meros 'dias de lazer', justamente porque são conquistas já consolidadas, sem nenhum sabor ou necessidade de 'lutar' para ampliar seus horizontes ou consolidar conquistas ameaçadas por segmentos ultra-tradicionalistas. Já no que diz respeito à questão do Negro, não apenas no nosso caso, mas por todos os continentes onde eles foram explorados em sua vulnerabilidade e rebaixados às condições a mais torpe e oprobrioso de nossa putrefata cultura ocidental. Esta sim é uma luta ainda por ser consolidada, pois parece muito pouca coisa ter mudada do último decênio do século dezenove até nossos dias. Quando vemos uma triste realidade que vai da exclusão social, educacional, econômica, desembocando em resquícios de uma 'segregação cordial', onde convivemos com piadinhas sutis, mas que escondem no transfundo suas raízes muito profundas de intolerância e arrogância pela supremacia das pessoas de pele branca. No caso brasileiro tivemos um fenômeno transculturante de cunho europeizante onde já nascemos sobre os auspícios de valores excludentes da Idade Média, eis que nosso território foi dividido de início em Capitanias Hereditárias, os quais donatários as receberam da coroa com objeto a desenvolver e povoar as terras recém descobertas. Tal modelo, por sua própria essência nasce sobre a égide do privilégio, pois a hereditariedade é o ordenamento legal de posse e uso das terras alijando aos despossuídos. A este sistema fundiário tivemos sua substituição pelo regime das Sesmarias, as quais deram continuidade ao processo de privilégio das elites de então. Como os proprietários das terras não possuíam meios para desenvolverem seus imensos quinhões de terra, lançaram mão do que havia de mais próximo, que foi a tentativa frustrada da escravização de nossos indígenas. Valendo-se para isto, de artifícios os mais sujos possíveis, que terminou em vergonhoso genocídio. Pela índole indolente (o que é um valor, considerando as condições em que viviam) do nosso indígena, tal processo exploratório sucumbiu. Neste momento é que entra o processo de utilização do negro em nossa história, quando os fazendeiros passaram a adotar uma prática já largamente utilizada por outras culturas. Para atender a necessidade de mão-de-obra os senhores brancos, exploradores das atividades agrícolas passaram a comprar negros aos mercadores. Aos leitores desconhecedores das condições utilizadas para as 'importações' de escravos, remeto-os ao filme 'Amistad', de onde poderão formar opinião a respeito ao que foram submetidos milhares de pessoas negras (as quais não eram consideradas pessoas, mas coisas, passíveis de serem objeto de propriedade) para satisfazerem necessidades vergonhosas de outras pessoas de pele branca ávidas de lucro e bem estar, que tinham como regra ética que 'os fins justificam os meios'. Em 1850 tivemos a famosa 'Lei de Terras', preparada para alijar os negros da posse de terras, bem como os reservando como um 'banco de mão-de-obra' barata e a disposição. Pois já se sabia inevitável a libertação dos negros que ocorreu quatro décadas depois. Depois disto tivemos um processo de formação de favelas nas periferias das grandes cidades, selando até nossos dias o destino destes eternos desafortunados que pagam até hoje o pecado de possuírem a pele negra. Olhando para minha pele hispano/hebraica confesso sentir um imenso remorso, não de agora, mas muito velho, uma herança ancestral, uma necessidade de 'purgar a mora' por aqueles que não tiveram a devida consciência de reconhecê-los como nossos pares. Talvez por isto, 'não saber o que fazer', procurar agir sem hipocrisia ou pieguismo, buscar uma relação emancipatória, co-irmã, uma relação de simetria real e honesta, uma mútua troca de anfitriãnidade, ou sei lá como ou o que, talvez um poeta se saísse melhor, não um mero colunista que emite suas opiniões, muitas vezes infundadas. Sei lá, neste desabafo, meio envergonhado, uma vergonha histórica, impregnada em cada célula do corpo, meio sem-jeito, talvez o melhor remédio seja a atitude mui digna do Papa antecessor do atual, o João Paulo IIº que foi conhecido como o Papa do Perdão. Para muitos pode ser descabido pedir perdão pelos ancestrais, mas quando o peso chega até nós, creio não haver melhor remédio curativo de uma dívida atávica, para tanto, em nome daqueles que não se sentem bem com esta consciência pedimos nosso perdão ancestral aos nossos irmãos negros.
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José Carlos Iglésias é docente nas Faculdades UNICEN em Primavera do Leste, no curso de Direito. O artigo acima foi publicado no Jornal O Diário de Primavera do Leste, de 20/11/2006.

domingo, novembro 19, 2006

Aprender a aprender

Izaias Resplandes*


“Ser ou não ser: eis a questão”. Apesar de sua idade centenária, a enunciação shakesperiana continua atualíssima, em face da constatação fática de que a posse do mundo se dá numa ordem inversamente proporcional ao crescimento do conhecimento que se tem dele. Se por um lado ele se amplia, em virtude dos avanços científicos, por outro, ele possui a cada dia menos donos, em decorrência da inércia e do comodismo da maioria dos homens de hoje. A verdade é que, enquanto o conhecimento se multiplica em progressão geométrica, a sua apropriação coletiva caminha a cavaleiro, em progressão aritmética. Aquela sede de saber tudo que tinha o homem do passado, hoje se esvaece diante das dimensões do conhecimento. Substitui-a o mais vil senso comum: eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Triste realidade egocêntrica. A constatação de um que não tem condições de saber tudo, leva-o a não querer saber de nada. Típica atitude da raposa de La Fontaine. Não conseguindo alcançar os lindos cachos de uvas que pendiam do parreiral, exclama a raposa: “também, quem quer uvas verdes!”.
Destarte, a descoberta de um ou mais paradigmas, que possam tornar possível à apropriação do verdadeiro conhecimento que hoje se produz no mundo, é o grande desafio que afronta a genialidade do homem deste século. Se não é possível tudo, então devemos selecionar e nos apropriarmos apenas do melhor. A nossa missão será encontrar as agulhas perdidas no palheiro cósmico do conhecimento. Para tanto, devemos ser capazes de separar o joio do trigo, o conhecimento aparente do verdadeiro, o que presta do que não tem valor. Isso irá requerer de nós uma formação diferenciada e que seja adequada a essa realidade.
Preocupada com isso, a UNESCO deu a Jacques Delors a missão de chefiar uma equipe que pesquisasse as possibilidades para uma educação efetiva no século vinte e um. Do trabalho resultou o documento intitulado “Os quatro pilares da educação”, publicado como parte do livro “Educação: um tesouro a descobrir”, da Editora Cortez, São Paulo, 1999, pp. 89-102.
Os quatro pilares envolvem o aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Uma coisa leva à outra. Mas, aqui focalizo apenas o aprender a aprender, o qual é a base para as demais estruturas. Não conseguindo isso, não faremos, não conviveremos e não seremos ninguém além de mais um na multidão de quase sete bilhões de seres que hoje enche o planeta.
Nessa linha, é de destacar que, entre tanto conhecimento e ante a impossibilidade de se apreender tudo, faz-se necessário que cada um saiba encontrar na vastidão o que realmente interessa. Não há mais aquela necessidade de decorar o fragmento que lhe caía nas mãos. Naquele tempo de poucos livros, ficava-se muito feliz caso se encontrasse uma bula de remédio para ler. Não importava o que significavam aquelas estranhas palavras, tais como dilametilamenofenildimetilpirazolona. O importante é que se tinha algo para se ler e decorar. Recordo-me de ter que dar a lição para o mestre, de cor, vírgula por vírgula, ponto por ponto. Então, ficava orgulhoso por demais, quando conseguia passar para a lição seguinte. Hoje, os tempos são outros e me entristeço de ter perdido tanto tempo de minha vida decorando aquelas coisas que foi sem sentido e sem utilidade para minha vida e das quais tenho poucas recordações.
Hoje o conhecimento é produzido e reproduzido por mil formas e em grande quantidade. Com o avanço das comunicações, é possível acessá-lo, a qualquer hora e em qualquer lugar. O conhecer não é mais uma questão de internalização da informação. O conhecimento é volátil, muda a toda hora. Terá sua posse aquele que tiver a técnica para adquiri-lo com rapidez, antes que se torne defasado. Nesse sentido, à educação não compete mais a transmissão do conhecimento. Aliás, isso nunca competiu de verdade. Tinha-se a ilusão de que alguém ensinava e de que alguém aprendia. Mas tudo não passava de um mundo de faz-de-conta. E o pior é que, ainda hoje tem muita gente que pensa dessa forma. Todavia, já está provado que ninguém educa ninguém. O homem é sujeito de sua própria aprendizagem. Segundo Amaral Fontoura, “aprende-se o que interessa. O resto decora-se para passar nos exames e se esquece no dia seguinte”. Daí, a pergunta que não quer calar: Então, qual a finalidade de se decorar algo que hoje tem apenas um valor relativo e amanhã, não vale mais nada? Nenhuma! Essa é a resposta. O professor da decoreba comete um verdadeiro atentado contra os novos tempos, quando prende seus alunos em pequenos fragmentos do saber, ao invés de prepará-los para adquirir o domínio de tudo o que vierem a necessitar durante sua vida e que tem realmente valor para ele.
A orientação dos sábios da UNESCO é que o professor deve ensinar a aprender e não a decorar. Aquele que se formou na escola da decoreba precisa voltar urgentemente aos bancos escolares. Seus paradigmas de ensino/aprendizagem não correspondem mais aos tempos atuais. Já estão superados. Sabe-se hoje que a educação é processual e que, uma vez iniciada, só termina com a morte. É algo para a vida toda. Aquele que se prende ao trabalho da decoreba, ainda não entendeu que o mundo é dinâmico e que não se repete. Aliás, de acordo com a velha lição de mestre Heráclito de Éfeso, um homem não banha duas vezes no mesmo rio, porque as águas de hoje, já não são as mesma de ontem. Aquelas já estão no mar.
Conclui-se. Estamos no tempo de aprender a aprender. Aquele que souber isso estará verdadeiramente preparado para viver. Do contrário, vai morrer de decorar e não vai sair do lugar.

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*Izaias Resplandes de Sousa é pedagogo, professor de Matemática e acadêmico de Direito da UNICEN em Primavera do Leste, MT.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Encontro de Cooperadores Neotestamentários

RELATÓRIO DO XXXII ENCONTRO DE COOPERADORES DAS IGREJAS NEOTESTAMENTÁRIAS


Data: 02 a 05 de novembro de 2006.
Local: Campo Grande (MS)

PARTICIPANTES:
1. Genaro Moreno – Bolívia – Missionário
2. Eliezer Medina – Paraguai – Missionário
3. José Maria Iturriaga – Argentina – Missionário
4. Isaías da Silva Almeida e Rosângela – Campo Grande (MS), Brasil - Missionários
6. Ademar Soares de -Lima e Elisabete – Tangará da Serra (MT), Brasil - Missionários
8. Paulo César Moraes – Jaciara (MT), Brasil – Missionário
9. Tereza Lafuente – Curitiba (PR), Brasil – Missionária
10. Itamar Soares de Lima – Nova Olímpia (MT) – Presbítero
11. Sebastião dos Santos – Rondonópolis (MT) – Presbítero
12. Altivo Melo e Matilde – Rondonópolis (MT) – Diácono
14. Antônio Júlio Pinto – Cuiabá (MT) – Presbítero
15. Émerson e Isaías da Silva Pinto – Cuiabá (MT) – Cooperadores
17. Paulo Castro – Corumbá (MS) – Presbítero
18. Ari de Carvalho – Corumbá (MS) – Presbítero
19. Mascos Castro – Corumbá (MS) – Cooperador
20. Wilson da Silva Gonçalves – Corumbá (MS) – Cooperador
21. Edson Ferreira – Corumbá (MS) – Presbítero
22. Davi Almeida – Corumbá (MS) – Diácono
23. Arnaldo Guedes – Corumbá (MS) – Cooperador
24. André e Fernanda Campos – Corumbá (MS) – Cooperadores
26. Edimir Cordeiro – Corumbá (MS) – Presbítero
27. Mildre Pelizer – Sinop (MT) – Cooperadora
28. Arízio de Almeida Branco – Sorriso (MT) – Cooperador
29. Gilson e Márcia Jorge – Sorriso (MT) – Cooperadores
31. Izaias e Lourdes Resplandes – Poxoréu (MT) – Cooperadores
33. Altamiro e Sarah Luz – Primavera do Leste (MT) – Cooperadores
35. Maria de Freitas – Nova Brasilândia (MT) – Cooperadora
36. Nanao e Reny Yamamoto – Campo Grande (MS) – Presbítero
38. Júlio Alt Viveiros – Campo Grande (MS) – Presbítero
39. Nilmar Pereira – Campo Grande (MS) – Presbítero
40. Peter e Ester Rees – Campo Grande (MS) – Presbítero
42. Antônio e Gláucia Torrezan – Campo Grande (MS) – Diácono
44. Eduardo e Nilda Nantes – Campo Grande (MS) – Cooperadores
46. Délcio e Roseli Vaseniek – Campo Grande (MS) – Cooperadores
48. Francisco e Marlene – Campo Grande (MS) – Cooperadores.
50. Cilso Lourenço e Fátima – Campo Grande (MS) – Diácono.






INTRODUÇÃO

Às dezessete horas do dia 02 de novembro de 2006 teve início o XXXII encontro de Cooperadores das Igrejas Neotestamentárias, em Campo Grande, MS, no local denominado “Estância Aconchego”.
Abrindo o evento, o irmão Júlio Alt Viveiros, presbítero da Igreja Local de Vila Planalto, deu as boas vindas aos irmãos participantes, pedindo a todos que se apresentassem. Em seguida foram escolhidos, após orações, os irmãos Júlio Alt e Izaias Resplandes, para Coordenador e Secretário do Encontro, respectivamente. Então foi lido o Relatório do Encontro anterior, realizado em Poxoréu, MT, feito a escala dos horários e definido o temário.

TEMÁRIO. Ficou estabelecido os seguintes assuntos:
Confirmação do local de realização do XXXIII Encontro de Cooperadores.
Previsão do XXXIV Encontro de Cooperadores.
Temas pendentes do encontro de Poxoréu, MT.
Ceia do Senhor para enfermos.
Abertura de novos trabalhos.
Heresias nas congregações.
Manutenção dos Retiros de Poxoréu (MT) e Corumbá (MS).
Expansão da obra missionária neotestamentária.
Estudos para as lideranças presentes sobre família e sobre a obra.

DESENVOLVIMENTO DO TEMÁRIO
Ao som do alegre gorjear dos pássaros, o temário foi desenvolvido a partir do segundo dia do encontro. Irmão Júlio destacou os pontos do temário, pedindo a todos que pudessem se expressar, livremente e sem temor os seus pensamentos, lembrando que o Grupo de Cooperadores não é um grupo legislativo. O Encontro é apenas um fórum de discussão para ajudar as igrejas locais na tomada de suas decisões.
Foram feitas as seguintes conclusões:

1. Ficou confirmado que o XXXIII Encontro de Cooperadores será realizado na cidade de Sorriso (MT), no local neotestamentário do Jardim Califórnia, iniciando às 17 horas do dia 15/11/2007 e encerrando-se às 12 horas do dia 18/11/2007 (com o almoço).

2. Foi sugerido a cidade de Corumbá (MS) para a realização do XXXIV Encontro de Cooperadores, em 2008, a ser confirmado pelos irmãos dali, no Encontro de Sorriso (MT).

3. CEIA PARA ENFERMOS. Debateu-se a respeito do costume que se tem de levar a ceia para irmãos que estão enfermos e não têm condições de comparecerem ao local. Vários exemplos foram apresentados. Textos bíblicos como 1 Co 12:13, Ef 2:3, Mt 25:34-36 e 18:20 foram lidos. Concluiu-se, após as exposições individuais o seguinte: a) Os irmãos devem ser ensinados a pedirem o que precisam (sejam orações, sejam unções, sejam essas ceias especiais); b) Não existe uma periodicidade para a celebração especial da ceia para os enfermos (celebra-se quando for pedida); c) Os irmãos não devem ficar constrangidos nem de pedir, nem de realizar esse ato de amor; d) O horário de realização é irrelevante; deve ser o mais adequado; e) Não devem apenas ser levados os elementos; deve ser feita um pequena reunião, na qual participarão todos os presentes em condições, inclusive o enfermo (se possível), entendendo-se por participação não apenas o comer e o beber os elementos, mas na forma de costume; f) Não precisa ser necessariamente um presbítero para celebrar essa ceia especial.

4. MANUTENÇÃO DOS RETIROS DE POXORÉU E CORUMBÁ. Os acampamentos de Poxoréu e Corumbá estão subutilizados, ampliando os custos para suas manutenções. Além disso, nem todas as congregações estão cooperando com a manutenção, gerando déficit para os responsáveis. Estima-se em R$ 8.000,00 (oito mil reais) e R$ 12.000,00 (doze mil reais) a manutenção dos retiros de Poxoréu e Corumbá, respectivamente. Concordou-se sobre a importância e necessidade de um Relatório de Prestação de Contas para que as igrejas responsáveis tomem ciência dos fatos.

5. ABERTURA DE NOVOS TRABALHOS. Em função de que vários trabalhos têm sido iniciados e cada um, de forma bem diversa de outro, com conseqüências também as mais diversas, debateu-se sobre a possibilidade de definição de critérios padronizados para a abertura de novos trabalhos. Foram relatadas as experiências de cada localidade e concluído que cada caso é um caso, devendo apenas manter-se em obediência aos princípios neotestamentários. Devemos permanecer naquilo que temos aprendido, conforme a orientação de Paulo a Timóteo. O trabalho é do Senhor. É nosso dever realizá-lo. Ele nos mostrará o melhor caminho. A experiência acumulada dos irmãos também ajudará.

6. A EXPANSÃO DA OBRA MISSIONÁRIA. Após as manifestações dos participantes, especialmente os relatos dos missionários presentes, concluiu-se o seguinte: a) há a necessidade de maior contribuição financeira para a missão; b) é preciso definir a questão da previdência social dos missionários; c) há necessidade de se visitar os trabalhos de Porto Rico, México e da África para consolidá-los; d) há vários missionários em idade de aposentadoria, mas não existem outros preparados para substituí-los; e) o avanço da obra é lento, mas é real.
À noite de sábado, o missionário Isaías Almeida fez uma palestra sobre a situação da missão, tanto em relação à extensão da obra, como em relação às condições vividas pelos missionários. Hoje existem em 42 missionários neotestamentários, mas apenas 10 estão em condições de se locomoverem, visto os demais estarem em idade avançada. As contribuições financeiras para a missão têm melhorado, mas ainda não são suficientes para assegurar uma vida adequada aos nossos missionários, que muitas vezes precisam executar outras atividades para assegurar a subsistência de suas famílias. Antigamente, os missionários recebiam doações do exterior; hoje, a sua manutenção depende exclusivamente das igrejas locais. A expansão da obra, evidentemente, esbarra também nessa questão financeira que deve ser considerada por cada congregação.

7. CASAMENTOS IRREGULARES. O tema foi suscitado em Poxoréu pela Igreja de Santo Antônio do Leste (MT). Diz respeito aos casais de irmãos que vivem juntos sem estarem casados e também a irmãos em convivência com cônjuge incrédulo. Os irmãos Izaias Resplandes (Poxoréu – MT) e Peter Rees (Campo Grande – MS) expuseram informações bíblicas e jurídicas sobre a questão. Ao final, concluiu-se que, em que pese as alterações na legislação, devemos permanecer fiéis aos nossos princípios morais concernentes à família. Os casais irregulares devem ser estimulados a buscarem o casamento para que possam desfrutar da comunhão.

8. HERESIAS NAS IGREJAS. Os novos tempos têm suscitado o aparecimento de antigas práticas heréticas (contrárias à Palavra de Deus), as quais vêm sendo incorporadas no cotidiano das igrejas, dando oportunidade para que Satanás alargue o seu riso em relação ao povo de Deus. Dentre essas, destacam-se as danças, orações no escuro, imposição de mãos por pessoas não reconhecidas, doutrina do riso, comunicação na língua dos anjos, etc. Essas práticas estranhas, que não passam de “bolotas” de outros grupos não devem interessar-nos. Não são coisas do Espírito. Por outro lado, devemos ser cautelosos e prudentes nas nossas avaliações, para não incorrermos em radicalismos e extremismos desnecessários. Concluiu-se que devemos ter cuidado da doutrina e do testemunho, critérios que devem ser observados não somente no início de um trabalho, mas durante a sua existência. Deus dará sabedoria aos irmãos para tratar dessas questões sem divisões ou outras conseqüências mais graves.

9. ESTUDO SOBRE FAMÍLIA. Na noite de sexta-feira o missionário Ademar Soares de Lima trouxe um estudo abordando como tema a Família: Conversão de pais e filhos, fundamentado nos seguintes textos bíblicos: 2 Co 12:14b, Sl 127:3, 144:12, Is 59:21, Mt 4:6, 1 Sm 10:6, 1:15, Pv 22:6, 2 Cr 30:7-10 e Sl 78:5. Destacou-se a importância da disciplina para os filhos, principalmente até os dez anos de idade. A família é a melhor coisa do mundo. Os filhos são herança do Senhor. Devemos nos perguntar porque os nossos filhos estão deixando o Senhor e também o que podemos fazer para trazê-los de volta. Deus quer que nossa descendência seja salva. Queremos ganhar almas. Devemos atuar nesse sentido. Mas, não podemos perder nossos filhos. Precisamos dedicar tempo para eles e instruí-los, principalmente enquanto pequenos, cuidadosamente. Às vezes nos preocupamos em demasia com os investimentos materiais. Isso é importante, mas os investimentos espirituais são absolutamente necessários. Um filho fora da igreja acarreta graves prejuízos para Deus. Os novos casais devem ser ensinados para não descuidarem desses aspectos, principalmente até os dez anos de idade.


ENCERRAMENTO
O Coordenador fez uma avaliação do Encontro, concluindo que o mesmo foi muito bom e os temas abordados, muito proveitosos. Leu Ef 4:1-6, pedindo que esse texto seja uma realidade na vida de todos.
No mesmo espírito e na mesma harmonia com que iniciou, encerrou-se o encontro. Registrou-se agradecimentos a todos os que, de alguma forma contribuíram para a realização do evento, especialmente ao irmão Nilmar, proprietário do Restaurante “COM QUALIDADE REFEIÇÕES”, que preparou a alimentação para o encontro e ainda proporcionou aos visitantes um passeio pela Capital Morena, à bordo do seu “JOVEM TUR”. Renovou-se o convite para que todos estejam em Sorriso em 2007.
Finalizando, leu-se o presente relatório que será remetido às igrejas para conhecimento, leitura e orientação.

Campo Grande (MS), 05 de novembro de 2006


Izaias Resplandes de Sousa - Secretário
E-mail: respland@uol.com.br



Júlio Alt Viveiros
Coordenador

domingo, outubro 22, 2006

Aniversário de Poxoréu

Izaias Resplandes [i]


É aniversário de Poxoréu mais uma vez. Sua gente está em festa, está feliz. Baile, gincanas, jogos, os recitais de poesias da UPE, shows, feriado... De tudo um pouco, permitindo que cada munícipe faça a comemoração ao seu gosto e arbítrio. Assim é que, enquanto uns se divertem às arrobas, usufruindo de toda a programação, outros, também aos quilos e ao estilo de Judas Iscariotes, atiram criticas para todos os lados. "Como se pode gastar o precioso dinheiro do povo para promover festas, ao invés de se fazer alguma coisa pelos pobres?", ou então: "Ah, a festa é só essa festinha?". A verdade é que as festas são necessárias para diminuir o estresse do corre-corre cotidiano. Nicolau Maquiavel, o sábio pensador italiano, diz em seu livro " O Príncipe", que o governante "deve, nas épocas convenientes do ano, distrair o povo com festas e espetáculos ". Mesmo em tempos difíceis deve haver festas para amenizar o sofrimento do povo. A festa é um bem de primeira necessidade, tanto para ricos, quanto para os pobres.

E, enquanto o povo festeja, vamos recordar a história.

Poxoréu nasceu do garimpo de diamante. Foi involuntariamente plantada em 24 de junho de 1924 pelo garimpeiro João Ayrenas Teixeira (que, infelizmente, ainda não ganhou o monumento a que faz jus nessa cidade). Esse bandeirante fora à região em busca de ouro e pedras preciosas. Era sua segunda expedição. Na primeira, estivera junto com Antônio Cândido de Carvalho, mas nada encontraram. Dessa feita, na data aprazada, eles chegam às margens de um riacho onde "pegam" sete chibius, sete pequenos diamantes de pouco valor. O riacho ficou conhecido como Sete. Mas o fato a ser destacado é que essas pedras do Sete foram encontradas de uma faiscada. Isso animou os exploradores a continuar com as prospecções, as quais resultaram bem sucedidas, atraindo para a região diversas levas de garimpeiros, oriundas de todos os monchões e grupiaras do país, contribuindo para que, em pouco tempo se formasse ali o povoado de São Pedro, em cujos termos chegaram a palpitar três mil corações. Segundo o jornal A Plebe, de Cuiabá, "a notícia da riqueza repercutiu até na Europa". Baxter, em seu Garimpeiros de Poxoréo (1998), registra que em 1933 foram garimpados e taxados 2.313 quilates de diamantes em Poxoréu.

O mesmo historiador conta que várias frentes garimpeiras surgiram em torno de São Pedro. Dentre elas, Morro da Mesa (mais tarde Poxoréu). O povoado de São Pedro foi quase totalmente destruído por um incêndio, em outubro de 1927, o que possibilitou a "ascendência de Poxoréu". O povoado virou distrito e finalmente se tornou cidade. Da pena do Interventor Federal de Getúlio Vargas em Mato Grosso, Júlio Müller, saiu em 26 de outubro de 1938, o seu decreto da emancipação, apesar de que somente em 01 de janeiro de 1939 o município foi instalado, tendo Luís Coelho de Campos como seu primeiro prefeito nomeado.

Desde então, são passados 68 anos. Muita água e muito cascalho já passaram pelas peneiras dos garimpeiros de Poxoréu, inspirando poetas, cantores e artistas na produção de seus versos, suas rimas e cantorias. Seu território inicial de 25.509 quilômetros quadrados hoje está reduzido a 6.907,60 quilômetros quadrados. De seu domínio, dentre outros, saíram Rondonópolis, Dom Aquino e Primavera do Leste. Atualmente, Alto Coité também está querendo ganhar o mundo. E, com certeza, quando chegar a hora, também vai se emancipar e vai contribuir mais significativamente para o desenvolvimento da região, como estão fazendo muito bem os seus irmãos mais velhos. Como bom sonhador, vejo uma grande metrópole sendo erguida no entorno do Morro da Mesa (450 metros acima do nível do mar), em cujo sopé está a cidade de Poxoréu, onde estará centralizado o governo metropolitano. Dali fluirá o comando do desenvolvimento para toda a região. Ao que, precipitadamente sorri, eu apenas pergunto: E por que não? A possibilidade somente surge a partir dos sonhos. Feliz é o povo que sonha. E Poxoréu é uma terra de gente que pensa e sonha grande. Exemplos disso são seus filhos que ganharam o mundo. É de destacar, o Prof. Júlio Delamônica Freire (ex-Reitor da UFMT), deputados como Osvaldo Cândido Pereira, Rachid Mamed e até senadores, como Louremberg Nunes Rocha, um ilustre filho que Poxoréu deu a Joaquim Nunes Rocha, o Rochinha, o qual também, depois de ser deputado, chegou a ser suplente de Senador, além de escritores, jornalistas e profissionais liberais de toda ordem.

Desse modo, por tudo o que aconteceu desde 1924 e pelo que ainda acontece nos dias de hoje, é muito justo que Poxoréu faça uma grande festa para comemorar os seus 68 anos de emancipação e os seus 82 anos de história. O seu povo está de parabéns pelo progresso que tem disseminado em toda a região sudeste mato-grossense. Que todos se abracem, cantem, se divirtam e festejem bastante. É o que merecem. E, para que ninguém fique enciumado por conta de meus aplausos e desvarios, cumprimento a todos através do abraço que deixo aos meus filhos poxorenses Ricardo, Fernando (acadêmico de Farmácia e Bioquímica) e Mariza Resplandes (acadêmica de Direito).

E viva Poxoréu! Viva! E viva Poxoréu! Viva! E viva Poxoréu! Viva! E viva João Ayrenas Teixeira, o garimpeiro que acreditou na riqueza desta terá. Viva! Viva! Viva!


[i] Izaias Resplandes de Sousa é escritor mato-grossense, professor em Poxoréu, fundador da União Poxorense de Escritores (UPE) e da ASSEMP (Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público de Poxoréu). Acadêmico de Direito UNICEN (Primavera do Leste). E-mail: respland@terra.com.br.

domingo, outubro 15, 2006

Ao “nosso” professor

Izaias Resplandes


Jean Piaget diz que “ninguém ensina ninguém, que o indivíduo é sujeito de sua própria aprendizagem”. Ele pode estar certo no sentido de que somente aprendemos aquilo que nos interessa ou aquilo que queremos aprender. O resto, pelo magistério do prof. Amaral Fontoura, "decora-se para passar nos exames e se esquece no dia seguinte". Por outro lado, não se pode ignorar que as experiências que realizamos foram selecionadas e orientadas pelos nossos professores. Se estivéssemos sozinhos no processo ensino-aprendizagem, talvez viéssemos a aprender alguma coisa quando atingíssemos cada estádio etário de nossa vida, como pensava Jean-Jacques Rousseau, em seu "Emílio", mas, certamente, a humanidade não teria chegado aonde chegou na escalada do desenvolvimento, se não pudesse ter contado com as parcerias e o empenho daqueles que se dedicaram ao ofício do magistério.
Mal remunerados, culpados pelos fracassos escolares e colocados à margem em relação aos bem sucedidos, o professor é objeto da poesia genérica, como se não tivesse nome, como se não tivesse título, como se não fosse alguém especial. Ele é como o palhaço do circo na área da educação. Aquele tem de fazer sorrir a qualquer preço. Este tem de garantir o sucesso de seu aluno, além de ser sempre gentil, não ter problemas, nem tristezas, nem nada. Isso é um pouquinho da vida do professor.
Mas, para o aluno UNICEN, o professor não é apenas um alguém, alguém. Em uma ou duas palavras, ele é o Iglesias, do ser humano ético e moral acima de tudo; o Thedoro, da dignidade fundamental da pessoa humana; o Derly, condutor da idéia filosófica; o Paulo Henrique, da importância do método; o Reinaldo, das falas fortes do Novo Código Civil; a meiga Ana Cristina, do direito e das questões práticas da vida; a sempre séria e linear Marilei, dos contratos e das questões de família; a Lurdes, amorosa e zelosa com os direitos das crianças e adolescentes; a Adriana, do nosso primeiro contato com o Estado-Juiz, a Fabíola, cortês, simples e sincera no trato conosco; o Fred, dos seminários sobre as questões mais problemáticas dos Estados; o Wagner, da realidade dura e crua e dos problemas concretos enfrentados pelo Juiz; o César, da objetividade no trato da matéria penal; a Eloína, aluna exemplo e sempre vencedora, mostrando que sempre é tempo de aprender; o Jessé, das questões muito importantes do processo penal, que conquistou a nossa alma; a Danira, um exemplo de humanidade; a Keila, de 25 horas no ar e dos mil e um arquivos jurídicos pesquisados, uma verdadeira madrinha na nossa vida diária; o Di Pieri, compenetrado e certinho na orientação do processo, deixando claro que o detalhe faz a diferença; o Rodrigo, de fala mansa e calma que nos fez ver o Direito Penal com outros olhos; a Neusa, da linguagem corretamente necessária; e, a Fabiane, da responsabilidade com as futuras gerações.
É evidente que esses professores são citados apenas para termos alguns exemplos concretos, visto que tantos outros nomes poderão ser incorporados a esse rol não taxativo, mas meramente exemplificativo, pelos alunos dos diversos cursos e turmas.
É de destacar ainda, que essas duas ou três palavras que acabamos de dizer sobre cada um, não passam de pretextos para um princípio de conversa, para que possamos afinal dizer que você, professor, é alguém real para nós, com um nome e personalidade; e ainda, que você é o nosso professor e o seu exemplo tem sido a lição mais importante que incorporamos na nossa vida. Poderemos até não ter aprendido muitas coisas ao término de nossa jornada acadêmica (Sócrates dizia não saber nada de nada), mas, teorias à parte, sempre iremos lembrar de vocês pelos pequenos detalhes como esses, os quais sempre haverão de fazer a diferença em qualquer relação. Mais do que suas palavras, o seu exemplo é que vai ficar gravado para sempre em nossas mentes e corações.
Sabemos que a vida de professor não é das mais compensadoras e que você não ficará mais rico ou mais famoso trilhando os caminhos da docência. Mesmo assim, gostaríamos de dizer, junto com todos os alunos da UNICEN, que nossos filhos e nossos clientes saberão quem foi cada um de vocês como nosso professor e que somos filhos do seu conhecimento do mundo.
Por último, queremos destacar que por onde andarmos, você estará conosco semeando o conhecimento que possibilita uma melhor compreensão da vida.
Parabéns pelo dia dos professores. Parabéns pelo 15 de outubro de 2006.

domingo, outubro 08, 2006

A Chave do Crescimento

Izaias Resplandes[i]


O crescimento no conhecimento segue o princípio da progressão parcial. Somente se passa para o estágio seguinte quando o anterior tiver sido incorporado à prática. Começa-se do pouco, do conhecimento de pequenas coisas, de fundamentos. Paulatinamente, na medida em que o aprendido torna-se uma realidade natural na vida da pessoa sem o requerimento de forças extraordinárias, vai-se então aumentando as doses de conhecimento teórico, sempre seguindo o mesmo principio gradativo.
O ponto de partida do crescimento é o nascimento de uma nova postura da parte do aprendiz. Senso comum e ciência não combinam. Achismo não é conhecimento. O velho que “achava” e ficava por isso mesmo e o novo que descobre e “experiência” são incompatíveis. O velho não suporta o novo. Não se põe remendo novo em pano velho, nem vinho novo em odres velhos. O novo destrói o velho. Os dois extremos são inconciliáveis. Um deve desaparecer para dar lugar ao outro. O homem de ontem era ideal para ontem, não para hoje. O agora requer um novo homem incorporado àquele outro. Como dizia Karl Marx: “o concreto é a síntese das múltiplas determinações” (apud PRETI, Oreste. Pesquisa educacional. Cuiabá, MT: IE/UFMT, 1992, p. 65).
A tendência humana de ajeitar as coisas conforme a conveniência não é cabível também nesse caso. Há quem pense que não é necessário estudar, pesquisar, construir uma base de conhecimentos e que na hora agá, sempre se dará um jeito. Não é assim. Não é com fraudes, colas e falsidades que se cresce. Segundo José Saramago, “não há verdadeiro progresso se não houver progresso moral” (apud NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. 4.ed. São Paulo: RT, 2004, p. 135).
Existe um projeto universal para o desenvolvimento do homem, o qual é perfeito e não admite adequação, jeitinho, discussão, ou seja, não comporta mudança. É algo tão perfeito como perfeito é o seu autor, o Criador do universo. O debate em torno do mesmo deve-se dar no sentido de conhecê-lo para cumpri-lo, não para discutir os seus termos. A insistente tentativa de mudanças poderá acarretar o surgimento de aberrações, de desequilíbrios e o próprio fim da humanidade. Os grandes progressos apresentados pelos mais notáveis cientistas de todos os tempos consistiram apenas em descobrir as estruturas presentes na criação universal e reproduzi-las com sabedoria. Eles não inventaram nada. Descobriram o que já estava inventado. Esse é o fundamento da Lei de Lavoisier, segundo a qual, “nada se cria, tudo se transforma”.
Quanto à passagem para o estágio seguinte, é de destacar que a mesma não é diretamente proporcional ao tempo de escola de cada um. Estudantes de longa data ainda podem estar na fase inicial, enquanto outros, com pouco tempo de estudos, podem apresentar notável crescimento. Igualmente, não é a idade que habilita a pessoa para prosseguir, mas apenas a incorporação à prática daquilo que foi teoricamente apreendido. O prof. João Álvaro Ruiz, em seu livro “Metodologia Científica”, publicado pela Editora Atlas, SP, já dizia que aprender não é simplesmente decodificar ou ler, mas “saber reproduzir com inteligência”.
A teoria e a prática devem estar sempre associadas. O crescimento não se dá apenas em uma dessas vertentes, mas somente no consórcio de ambas. A teoria sem prática é como a fé sem obras; é morta. Os livros contêm as conjecturas, os pensamentos e as teorias dos mais renomados cérebros, cujo conhecimento pode habilitar o homem para a prática de muitas coisas boas para a sua vida. Para isso eles foram escritos. Todavia, seu aprendizado somente se consolida na prática. Quem diz que sabe, mas não pratica é porque na verdade não sabe nada. Não passa de um estúpido enfatuado, de um fanfarrão. Se soubermos, com certeza praticaremos. Ou deixaremos de praticar, aplicando o sentido negativo, haja vista que nem todas as ações descritas nos livros devem ser praticadas. Algumas são mencionadas justamente para que sejam evitadas, para que nos sirvam de exemplos negativos.
Essa é a chave do crescimento. Ela foi seguida por todos aqueles que viram nas teorias mais do que simples elucubrações e acreditaram que eram possibilidades de transformação e de melhoria da qualidade de suas vidas, ou seja, por aqueles que amaram mais ao conhecimento verdadeiro do que a si mesmos e aos seus achismos e vaidades pessoais. Para que serve um conhecimento que não ajuda a pessoa a melhorar de vida?
Aquele que busca conhecer apenas para conhecer, mas não para praticar o conhecido, será como um cego: não será capaz de ver na plenitude, mesmo que seja um mestre, mesmo que seja muito capaz. Pode até tatear no rumo da luz, mas não verá. Destarte, não haverá crescimento se não houver uma transformação nas idéias que fundamentam a aprendizagem. Somente a partir do momento em que se tiver aprendido a aprender é que se estará apto a prosseguir para o estágio seguinte. Não é por acaso que este é um dos quatro pilares da educação (DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: UNESCO/MEC/Cortez, 1999).
Enfim, o crescimento no conhecimento não é teórico, é prático. Não se aprende na escola ou na academia, mas no campo e na vivência experimental das teorias. O conhecimento teórico somente terá sentido para o seu estudioso quando se concretizar em sua vida. Esse é o caminho da sabedoria que está ao alcance de todos os que desejam realmente encontrá-la.

[i] Izaias Resplandes de Sousa é pedagogo. Acadêmico de Direito da UNICEN de Primavera do Leste, MT.

Voto Racional

Izaias Resplandes[i]


Estamos vivendo o tempo da alternância no poder político em nosso país, o que requer de cada um de nós, um conhecimento mais aprofundado das regras que norteiam o processo de transição governamental.
Mudar, ou não mudar, eis a questão – diria Shakespeare. O certo é que, seja Lula, seja Alckmin, não se pode continuar/mudar sem que se saiba o que deve continuar ou o que deve mudar. A esse respeito é oportuna a lição do nacionalista Monteiro Lobato, através de seu personagem Américo Pisca-Pisca, o qual resolvera tomar para si o encargo de reformador do mundo (LOBATO, Monteiro. O reformador do mundo. Fábulas. 16.ed., São Paulo: Brasiliense, 1973).
Américo não se conformava com o fato de existirem na natureza muitos dos elementos que ele considerava inúteis, como por exemplo, os sapos e as chuvas. Mas o cúmulo de sua indignação era o fato das jabuticabas (tão pequenas) estarem naquelas imensas jabuticabeiras, enquanto que as grandes abóboras eram frutos das frágeis aboboreiras. Para ele isso teria que ser mudado. Nesse vai-e-vem reflexivo, adormeceu embaixo da frondosa e produtiva jabuticabeira. E então sonhou com o novo mundo totalmente reformado por ele. Era uma terra muito quente, haja vista não haver chuvas para alimentar o ciclo das águas. Também era cheio de mosquitos e maribondos de todos os tamanhos e tipos, dada a inexistência de sapos para comê-los. E assim sonhava Pisca-Pisca, quando “pluft!”, é bruscamente acordado por uma jabuticaba lhe caíra sobre o nariz. Então concluiu seu projeto de reforma achando que seria oportuno tudo ficar do jeito que estava. “Espiga! Se fosse uma abóbora, então ele teria sido a primeira vítima de seu mundo reformado”, concluiu.
O que nós desejamos que continue ou que mude em nosso país? Qual dos candidatos traz as propostas que nós desejamos realizadas pelo próximo presidente? Isso é algo de importância capital e que se precisa estar claro para cada eleitor desse Brasil dividido entre o tucano Geraldo Alckmin e o petista Lula da Silva. E esse é realmente o xis da questão eleitoral deste ano.
Segundo analistas políticos, os programas de governo dos dois candidatos se confundem pelas semelhanças entre eles. Para o jornalista Luís Brasilino, “fica difícil identificar para quem os presidenciáveis pretendem governar: se para os latifundiários ou para os sem-terra e pequenos agricultores, se para as transnacionais ou para os operários, se para os bancos ou para as indústrias, se para a exploração ou para a preservação ambiental, se para os Estados Unidos ou para Cuba etc.”.
Ambos prometem reduzir os juros para combater a dívida (atualmente eles consomem 17% do PIB brasileiro); os dois prometem continuar com o Programa Bolsa Família, reduzir impostos, aumentar o crédito; ambos não estabelecem metas para reforma agrária, mas dizem que não basta dar terra e que é preciso dar crédito e serviços sociais; o ProUni (Programa Universidade para Todos) também será mantido pelos dois candidatos. Em suma, não existem diferenças significativas entre os programas de governo dos dois candidatos. Eles propõem a mesma coisa com palavras diferentes.
Nessa verdadeira confusão de programas de governo, onde não se sabe o que é de Lula ou o que é de Alckmin, quem fica ainda mais confuso é o eleitor. É evidente que não dá para votar em um ou em outro apenas por critérios pessoais, porque um é doutor na ciência o outro é doutor na vida ou coisa que o valha. Não dá para votar só com isso. Isso seria o exercício do voto irracional, sem lógica e sem futuro, o chamado voto emocional.
Devemos votar com a consciência de que estamos votando no melhor para todos os brasileiros e não apenas para alguns segmentos da população. No próximo mandato, o presidente de todos nós, deverá resolver os problemas nacionais que envolvem fazendeiros e sem-terras, operários e industriais, excluídos e incluídos, doutores e analfabetos, saudáveis e doentes. Não se pode conceber que a justificativa para votar em um ou em outro seja porque esse ou aquele segmento está sendo prejudicado ou beneficiado mais do que os demais no atual governo. Isso sempre aconteceu nos governos e deverá acontecer nos futuros.
Somente no Anarquismo, quando não haveria necessidade de autoridade, porque todos fariam o que deveriam fazer sem esperar pelos demais, sem se aproveitar da situação ou sem buscar qualquer privilégio, haveria a possibilidade de igualdade absoluta. Mas isso é coisa para discutirmos no céu e não aqui na terra, onde sempre seremos desiguais. Fazer isso agora seria colocar jabuticabas nas aboboreiras e abóboras nas jabuticabeiras com graves conseqüências para todos nós. E isso não é o que queremos.
Devemos, portanto, mais do que nunca aguçar e usar a nossa inteligência para que não sejamos iludidos com jogos de palavras e conversa mole para boi dormir. Que o nosso voto seja lógico, coerente e racional, tanto para continuar, quanto para alternar. E que haja o devido respeito à nossa inteligência e à soberania da vontade popular.
Ás urnas!

[i] Izaias Resplandes de Sousa, escritor mato-grossense, membro-fundador da UPE (União Poxorense de Escritores) é pedagogo e matemático pela UFMT, Gerente de Cidades pela FAAP/SP e membro do IMGC (Instituto Mato-grossense de Gerentes de Cidade), Especialista em Estatística pela UFLA/MG e Acadêmico de Direito pela UNICEN, de Primavera do Leste, MT.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Perdas e ganhos eleitorais




Izaias Resplandes


Domingo, 01/10/2006, foi um belo dia de eleição. O povo foi às urnas, escolheu e votou democraticamente em seus candidatos. Quanto aos resultados, é evidente que não poderiam agradar a todos. E como sempre ocorre, começaram as avaliações populares e técnicas sobre os resultados. É genérica a discussão sobre quem ganhou e quem perdeu a eleição, mas a grande pergunta é sobre o que vai mudar a partir de 1º de outubro? E isso somente o futuro dirá.

Ganhar e perder é questão de ponto de vista. Ninguém agrada a gregos e troianos. O resultado da eleição presidencial, meio a meio, mostra bem clara essa divisão conceitual. No meu ponto de vista, todo aquele que votou é um ganhador, não importando se o seu candidato foi eleito ou não, principalmente porque aquele que foi eleito também será o meu senador, o meu deputado federal, o meu governador e o meu deputado estadual, como também será o meu presidente o que for eleito no segundo turno, seja Lula, seja Alkmin. Esse é o regime democrático. Se os eleitos representassem apenas o percentual de eleitores que votou nele, eles não teriam a representatividade necessária para dar suporte aos seus projetos administrativos e legislativos. Eu não ganho uma eleição porque o meu candidato foi eleito, mas porque eu participei do processo, exercendo o meu direito ao sufrágio, de decidir sobre as questões importantes do meu país. Se o meu candidato particular foi eleito, ótimo! Isso significa que eu escolhi de acordo com a maioria.

Por outro lado, aquele que não votou, que se absteve (embora também exerceu um direito de não votar), esse perdeu, porque não fez nada para mudar o status quo. Mutatus mutandis, guardadas as devidas proporções, esse que não votou porque não quis votar, porque entendia que de nada adiantaria, esse é um 'Maria vai com as outras" que se conforma com qualquer coisa que se lhe oferece. Batendo ou apanhando está satisfeito. A passividade é uma caracterísitca dos derrotados, dos submissos, dos conformados. Não existe nada pior para um país do que um povo conformado com a situação.

Uma pessoa que não tem nada para contribuir com os demais é um parasita e, sem dúvida alguma, está pronta para morrer. Todos podemos e devemos contribuir com alguma coisa para o progresso e o desenvolvimento da sociedade. Todos somos responsáveis por todos e devemos fazer a nossa parte.

O processo eleitoral ainda não acabou. Ainda temos que definir alguns governadores e também o nosso próximo presidente. É hora de voltar a arregaçar as mangas, formar novas opiniões junto àqueles que ainda não têm e estimular as pessoas de nosso círculo social à participação. Mais do que nunca devemos participar. Não vai adiantar ficar chorando o leite derramado e reclamando que fulano não é "o meu" presidente e sim "o seu" porque não votei nele ou coisa semelhante, quando todos teremos que carregar o fardo que ele nos colocar nas costas. É preciso participar da formação de opinião, dos esclarecimentos e depois votar. Se formos deixar que uma minoria decida as coisas por nós, então que não se reclame depois, se a situação que for implantada não for ao seu gosto, como escutamos muito hoje em dia. Se queremos mudanças, a hora de decidir isso é agora; se queremos que continue do jeito que está, também agora é a hora de decidir isso. A mudança ou a continuação só depende de nós. O que nós queremos?

De um modo geral, até aqui todos ganhamos, porque continuamos tendo o direito ao sufrágio pelo voto direto e secreto. Que as coisas possam continuar assim. As próximas gerações esperam isso de nós. E nós contamos com elas para que todo o nosso esforço não seja em vão.

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Izaias Resplandes é pedagogo e professor de Matemática. É acadêmico de Direito nas Faculdades UNICEN, em Primavera do Leste, MT.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Plantão de Eleição



Izaias Resplandes[1]


É dia de eleição outra vez. Ah, mas isso todo mundo já sabe; não é nenhuma novidade, diria alguém. A esse eu responderia dizendo que, de fato, isso seria, provavelmente, uma verdade relativa. E que, apesar das campanhas educativas realizadas, principalmente pelos meios de comunicação de massa, ainda persiste muita desinformação e confusão em torno da temática eleição, conduzindo os brasileiros, por um lado, ao exercício enviesado da cidadania e, por outro, à prática da infração penal. E se existem dúvidas, ainda é tempo de esclarecer. É esse o diapasão condutor da presente reflexão.
Os brasileiros, principalmente os remanescentes do período discricionário 1964/1984, têm muito orgulho do atual momento democrático. Naquele tempo temia-se expressar as idéias e os sentimentos que latejavam dentro do peito de cada um, reclamando liberdade, democracia e exercício pleno da cidadania. O grito era sufocado na garganta. Aqueles que ousavam soltá-los sofriam perseguições diretas e indiretas, pois não raras vezes também os seus familiares eram alvos da retaliação. Contra aquela situação, fazia-se um trabalho subterrâneo, de sótão e de porão, semeando coragem e esperança nos corações dos brasileiros. A restauração da democracia não caiu do céu, foi resultado de muitas lutas, lágrimas e sacrifícios. Até hoje não se tem claro o número de todos os “desaparecidos” durante o regime de exceção. Aqueles que não viveram os malfadados dias precisam saber dessas coisas, mesmo que seja a minutos do momento em que se exercitará o sufrágio eleitoral por meio do voto direto e secreto.
A campanha partidária está encerrada. Não é mais a hora de ninguém estar batendo na sua porta e no seu ouvido para te entregar “santinhos” e pedir o seu voto para o Fulano ou para o Beltrano de Tal. Mas a aquisição do conhecimento não tem hora para acontecer, como diz o cantor Geraldo Vandré: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Dia de eleição é um dia de ser cidadão por inteiro e não cidadão de meia pataca. Nós temos o costume de ir votar “mais tarde”, depois que os outros votaram, “quando acabar as filas”. Por conta disso, não poucos deixam de votar, seja porque chegam ao local de votação depois da hora, seja porque nem lá conseguem chegar por um ou outro imprevisto.
Dia de eleição é dia levantar cedo, tomar um bom café da manhã e, sem perda de tempo, ir logo à sua seção eleitoral e exercer o seu direito de decidir os rumos do país. Saia de casa sabendo os números certos dos candidatos em que vai votar: do deputado federal, do deputado estadual, do senador, do governador e do presidente. Escreva os números em um papel. Lembre-se de que apenas essa cola é permitida; os santinhos não são.
O brasileiro gosta de fazer boca de urna. Isso é proibido. É crime. O que deveria ter sido feito em prol do candidato A ou B, já foi feito. Agora cada um deve permitir que o outro exerça livremente o seu direito de votar, sem qualquer embaraço. É bom saber também que um voto válido poderá ser suficiente para eleger um candidato, o qual, depois de eleito será o deputado, ou o senador, ou o governador ou o presidente de todos nós. O voto nulo e o branco não são válidos para eleger. O Código Eleitoral e a Constituição Federal dizem claramente que somente os votos válidos serão computados para eleger. A eleição não será anulada se muitas pessoas deixarem de votar. Quem não vota, também ajuda a eleger.
Dia de eleição é um dia de plantão para todos os verdadeiros cidadãos. É dia de honrar a todos aqueles que no passado lutaram para que hoje pudéssemos ter o direito de decidir quem nos representará e quem governará por nós. É dia de mostrar aos olheiros internacionais que aqui no Brasil a democracia funciona e o povo participa de fato e de direito do processo decisório. E por fim, é dia de educar pelo exemplo, aos nossos filhos e às próximas gerações. Palavras são simples palavras, são como escritos na areiam que logo são apagadas pelo vento e esquecidas. Exemplos são eternos, são como escritos feitos na rocha, ficam para sempre.

[1] Izaias Resplandes de Sousa, pedagogo, professor de Matemática e acadêmico de Direito das Faculdades UNICEN, em Primavera do Leste, MT.

domingo, setembro 17, 2006

Primavera sem nepotismo

Izaias Resplandes[i]

Segundo o Prof. Marcus Acquaviva, em seu Dicionário Jurídico Brasileiro Acquaviva, “nepotismo é a forma impura de governo na qual os governantes visam tão somente ao bem particular próprio e dos parentes”. É uma prática muito comum no serviço público brasileiro, onde se caracteriza pela nomeação em comissão ou contratação sem concurso e sem teste seletivo de parentes daqueles que governam o ente federativo: Município, Distrito Federal, Estado e União, incluindo também suas fundações, autarquias, agências reguladoras, empresas públicas e sociedades de economia mista.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 37, caput, veda expressamente essa prática pessoal e imoral, estabelecendo que “a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.
Ufanamos em dizer que derrocamos o Império, que derriçamos as ditaduras e que vivemos uma democracia plena no Brasil. Certamente encontraremos entre as mais de quinhentas definições de democracia, catalogadas pelo sociólogo americano Robert Dahl, a correspondente brasileira. Mas, também é certo que temos cometido os desvios já previstos por Aristóteles, em sua obra A Política, transformando a forma democrática de governo.
Em quase todos os municípios brasileiros predomina o governo das oligarquias, onde poucos governam e quase sempre em benefício e no interesse deles mesmos. São políticos carreiristas que passam toda a sua vida usufruindo das benesses que o suor do povo proporciona. Não abrem espaço para que outros também possam governar. Alegam que não impedem ninguém, que todos podem concorrer. Mas, elaboram leis que favorecem as suas candidaturas em relação aos estreantes, como por exemplo, a norma esculpida no artigo 8º, § 1º, da Lei 9.504/97, a qual preceitua que “aos detentores de mandato de Deputado Federal, Estadual ou Distrital, ou de Vereador, e aos que tenham exercido esses cargos em qualquer período da legislatura que estiver em curso, é assegurado o registro de candidatura para o mesmo cargo pelo partido a que estejam filiados”. Felizmente, por iniciativa da Procuradoria Geral da República e decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a citada norma está com seus efeitos suspensos liminarmente, em decorrência da ADIN Nº 2530-9, apesar da intenção dos veteranos. A interferência é tamanha, que foi necessária a inclusão de dispositivo que assegurasse a participação dos dois sexos no processo eleitoral. Assim diz o art. 10, § 3: “Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de trinta por cento e o máximo de setenta por cento para candidaturas de cada sexo”. Até então, a política era praticamente o império dos homens.
Nesse diapasão, mesmo com os carreiristas, têm ocorrido alguns avanços no sentido de alcançar a verdadeira democracia que tanto orgulha o povo brasileiro.
É digno de nota, v. g., o Projeto de Lei nº 004/06, protocolado em 12/09/2006, de autoria do Presidente da Câmara Municipal de Primavera do Leste, MT, vereador Angelin dos Santos Baraldi, o qual “disciplina o exercício de cargos, empregos e funções por parentes, cônjuges e companheiros de vereadores, prefeito e vice-prefeito, secretários municipais e de servidores investidos em cargos de direção e assessoramento, no âmbito dos Poderes e órgãos do Município de Primavera do Leste – MT”.
O Projeto contém apenas 7 artigos, mas todos contundentes, estribados nos princípios constitucionais do artigo 37 da Carta Magna da República Brasileira. Sendo aprovado, fica “vedada a prática do nepotismo no âmbito dos poderes do Município de Primavera do Leste, sendo nulos os atos assim caracterizados” (art. 1º). Nenhum parente até o quarto grau das autoridades já mencionadas poderá ser nomeado para cargo em comissão, ou contratado sem teste seletivo. Apenas aqueles que lograrem obter aprovação em concurso ou teste seletivo, serão excepcionados e estarão aptos ao serviço público municipal.
O combate ao nepotismo que, oportunamente, chega à Câmara Municipal de Primavera do Leste é o caminho dos políticos sérios que realmente desejam a democracia no Brasil, contrapondo-se àqueles que trilham nos caminhos da oligarquia e que somente pensam em si mesmos. É digno de aplausos.
A propósito do tema, o Ministro Carlos Ayres de Britto, ao analisar a Reclamação nº. 4.512, julgada em 28/08/2006, oriunda do Estado do Maranhão, relembrou que o STF já reconheceu que “a interpretação dos incisos II e V do art. 37 da CF não pode se desapegar dos princípios que se veiculam pelo caput do mesmo art. 37”. Segundo ele, a decisão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) de vedar a prática do nepotismo no Poder Judiciário, fundamentou-se nas “mesmas restrições já impostas pela Constituição de 1988, dedutíveis dos republicanos princípios da impessoalidade, da eficiência e da igualdade, sobretudo”. Continua, dizendo: “O que já era constitucionalmente proibido permanece com essa tipificação, porém, agora, mais expletivamente positivado”. E conclui, esclarecendo que a decisão não discrimina o Poder Judiciário em face dos “outros dois Poderes Orgânicos do Estado, sob a equivocada proposição de que o Poder Executivo e o Poder Legislativo estariam inteiramente libertos de peias jurídicas para prover seus cargos em comissão e funções de confiança, naquelas situações em que os respectivos ocupantes não hajam ingressado na atividade estatal por meio de concurso público."
É de destacar, portanto, que ao mandatário cabe governar na medida da autoridade que lhe foi delegada pelo povo através do voto, zelando pela coisa pública e não simplesmente compartilhando-a com os seus parentes mais chegados. E ao povo, acompanhar e aplaudir as iniciativas bem sucedidas em defesa do interesse comum.

[i] Izaias Resplandes de Sousa, escritor mato-grossense, membro-fundador da UPE é pedagogo e matemático pela UFMT, Gerente de Cidades pela FAAP/SP e membro do IMGC (Instituto Mato-grossense de Gerentes de Cidade), Especialista em Estatística pela UFLA/MG e Acadêmico de Direito pela UNICEN, de Primavera do Leste, MT.

domingo, setembro 03, 2006

Família: decepção e bênção



Izaias Resplandes[1]


Malvada tensão, tristeza e decepção. Essa é a rotina diária da mulher que trabalha fora e que ao chegar a casa verifica que seus queridos, marido e filhos, não se incomodaram com as coisas que precisavam ser feitas, deixando tudo por fazer.
Ao criar o homem, Deus plantou um jardim no Éden, onde o colocou com a responsabilidade de “cultivar e guardar”. No entanto, o Senhor entendeu que não era bom o homem ficar sozinho na administração e realização de todas as tarefas do jardim, pelo que criou também a mulher para que fosse sua “auxiliadora” na condução dessas tarefas (Gn 2: 7, 8, 15, 18).
Posteriormente, veio o pecado e, como conseqüência de sua prática, dentre outras, Deus condenou a mulher a estar sob o governo de seu marido na administração dos negócios da família Gn 3: 1-6, 16).
A partir daí, numa interpretação conveniente, muitos homens iniciaram o seu tempo de mando sobre a mulher, ao ponto de alçarem-se à condição de seus senhores, transformando-as em verdadeiras escravas de sua preguiça e comodismo. Leis também foram feitas para assegurar os privilégios masculinos e os sofrimentos femininos.
No Brasil, até 2002, quando entrou em vigor o atual Código Civil, o ordenamento jurídico mantinha essa situação de “pátrio poder”, ou poder do pai tanto em relação aos filhos, quanto em relação à mulher. Hoje, conforme essa nova legislação, o instituto vigente é o do “poder familiar”. A mulher volta à condição de “auxiliadora” do homem, dividindo com ele o poder familiar.
Isso representou um grande avanço social em nosso país. Nunca fora a intenção divina que o homem dominasse a sua família com tirania. Mas muitos homens não entenderam isso e conseqüentemente tivemos milênios de abusos nessa área.
Já no Decálogo, Moisés registrava a proibição do adultério e a cobiça “à mulher do próximo”. O homem deveria contentar-se e ser feliz com a sua companheira. Também a mulher enquanto mãe deveria ser honrada pelos seus filhos (Ex 20: 14, 17, 12).
Salomão declarou que a esposa era um bem de grande valor e aquele que a encontrasse, teria alcançado a “benevolência do Senhor” (Pv 18:22).
Já nos dias da Igreja, o apóstolo Paulo doutrina sobre as relações familiares. Cada homem deve ter a sua própria esposa e cada esposa o seu próprio marido (1 Co 7:2). Quanto à questão do governo do homem sobre a mulher, a regra estabelecida é que essa submissão seja semelhante àquela devida ao Senhor. O jugo deve ser “leve e suave”, deve ser o jugo do amor (Ef 5:22; Mt 11:29-30). O domínio do homem é exercido pelo exemplo, pelas ações realizadas em favor da família e pela sua dedicação a ela. Nenhuma mulher está obrigada a viver com alguém que não lhe respeita, que não lhe tem consideração (1 Pe 3:7, Mt 19: 8). O domínio a ser exercido é o domínio do amor (Ef. 5:25, 28, 33).
Todavia, é de destacar que a Bíblia não mudou. Os homens é que não eram capazes de entender a mensagem dada pelo Criador, da mesma forma que ainda hoje não entendemos muitas coisas. Todavia, não devemos ignorar o que já está claro. “As coisas reveladas no pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos” (Dt 29:29). Está claro que o amor deve ser o elemento dominante na relação familiar.
Sejamos, portanto, parceiros de nossas esposas e de nossos filhos. Ajuda-los não é vergonha, é honra. Com certeza, exostem tantas coisas que podemos fazer por eles. Isso fortalecerá em muito o relacionamento e aumentará a felicidade de toda a família. Será muito útil não somente para este, como também para outros fins, a fidelidade à regra de ouro dada pelo apóstolo Paulo em Fp 3:16 “Andemos de acordo com o que já alcançamos”. Felicidades!


[1] Izaias Resplandes de Sousa, professor, evangélico, esposo de Lourdes e pai de Fernando, Mariza e Ricardo.