segunda-feira, novembro 27, 2006

Papai do Céu

Izaias Resplandes


O homem foi criado por Deus para dominar e sujeitar a criação (Gn 1:28), governando, inclusive, a sua mulher (Gn 3:16) e os seus filhos (1 Tm 3:4, 12). A ele cabe o planejamento, a administração e a responsabilidade pelo cuidado e manutenção de sua casa, bem como o dever de conduzir os seus até os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo (At 16:31; Ef 5:25-27). Para uma missão tão complexa, o Criador não o deixou sozinho. Em primeiro, providenciou-lhe uma auxiliadora (Gn 2:18), deu-lhe uma família (Sl 68:6). Em segundo, sempre esteve ao seu lado, mesmo em momentos de grande decadência espiritual (Gn 3:9-21; 4:13-15; Jo 3:16;). Ele não criou o homem e o deixou abandonado à própria sorte, senão que tem tomado todas as providências para que ele seja feliz e tenha longa vida sobre a terra (Ef 6:2-3). Deus tem sido um verdadeiro Papai do Céu para todos nós (Sl 11:4, Mt 5:34).
Começando por Adão, todos os homens pecaram. Cada um se desviou pelo seu próprio caminho (Is 53:6). Todavia, isso não foi motivo para que Deus se voltasse contra aquele que criara. Pelo contrário, a insuficiência do homem fez com que Ele fosse ainda maior em seu amor (Rm 5:8). Ele idealizou e executou um plano para a salvação do homem perdido (Ef 1:4-5). Naqueles momentos de total incapacidade para resolver a situação (Rm 3:11-12), Ele foi nosso Pai mais do que nunca. Ele nos deu as condições para receber a sua misericórdia. “Enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho que clama: Aba, Pai” (Gl 4:6). Porque a grande verdade é que nem pedir o que precisamos nós sabemos (Rm 8:26).
Destarte, graças à Sua intervenção, fomos capazes de reconhecer o chamado de Jesus (Jo 10:3, 27), o seu “vinde a mim” (Mt 11:28), o que nos levou a recebê-lo como nosso Senhor e Salvador (Jo 1:11-12). E então, ele nos deu o maior presente de nossas vidas. Ele nos deu o poder de sermos feitos seus filhos. A criatura adquiriu o status de filho. Doravante, tornamo-nos, por esse processo adotivo, filhos e herdeiros de Deus, juntamente com Jesus (Gl 4:7). E de fato, nos tornamos irmãos de Jesus, haja vista que Ele nunca nos tratou como servos. Antes, pelo contrário, ensinou-nos a fazer as coisas conforme Deus aprecia, deixando claro que somente dessa maneira poderíamos ser realmente seus irmãos (Mc 3:33, 35).
Com Jesus aprendemos a orar a Deus, chamando-o de “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6:9). Jesus nos deixou claro que Deus é o nosso Papai do Céu. A expressão “aba, Pai” é papai. É pai duas vezes. E Deus é nosso pai de criação e nosso pai por adoção. Portanto, é nosso papai. A Ele devemos recorrer nas nossas necessidades.
A Bíblia registra que Jesus questionava aos seus discípulos pelo fato deles não terem pedido nada ao Pai. A elevação à condição de filho traz consigo a prerrogativa de poder pedir, usando como argumento e justificativa apenas o fato de que o clamor é feito em nome de Jesus. “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Mt 7:7). Ele quer abençoar-nos de tal maneira, para que todos os povos saibam que somos seu povo, sua família, sua gente e também queiram ser abençoados como nós somos. Deus quer que todos cheguem ao arrependimento e sejam salvos (2 Pe 3:9).
Só existe um limite para a atuação do poder de Deus em nossas vidas. É o seu zelo. Em questões espirituais, Ele não admite concorrência, requerendo de nós uma fidelidade absoluta. Se formos fiéis, Ele será fiel e cumprirá todas as suas promessas. Portanto, “a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23:9). Somente Ele deverá ser considerado o nosso Pai Espiritual, ninguém mais. Nossos pais carnais não serão nossos pais nos céus. A missão deles encerra aqui na terra. Ali, todos seremos irmãos e Deus será o Pai de todos. Que todos possam ver essa grande verdade.
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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

domingo, novembro 26, 2006

Papai Noel

Izaias Resplandes*


Mais uma vez é dezembro. Repetir-se-ão as cerimônias da irracionalidade e da falta de conhecimento espiritual como um todo. O culto racional é aquele que se encontra de acordo com os fundamentos estabelecidos na Palavra de Deus (Rm 12:1-2). Há muitos grupos cristãos cujas práticas são estranhas àquilo que a Bíblia ensina. Em alguns deles, Cristo está do lado de fora (Cf. Ap 3:20; Rm 12:1). Devemos ser prudentes para que não sejamos contados entre eles. É preciso estudar a Bíblia com o propósito de oferecer um culto cada vez mais agradável ao Senhor (Fp 3:12-16) A falta desse estudo nos leva à prática de um culto qualquer, falando-se a respeito de um Cristo estranho ao da Bíblia. É de destacar que somente a Palavra de Deus pode dar-nos as informações confiáveis a respeito do Senhor Jesus. Por isso ele mesmo diz: “Examinais as Escrituras [...], porque são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5:39). E complementa àqueles que assim não procedem: “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mt 22:29).
Não tenho dúvidas que Papai Noel, como de costume, será o tema central dos festejos natalinos, em lugar daquele cujo nascimento terreno se pretende comemorar. O mito tomará o lugar do verdadeiro. Que triste paradoxo! Papai Noel, aquele que nunca existiu de verdade, tem se tornado o sonho e a esperança de grandes multidões, mesmo se sabendo que ele não passa de uma ilusão e de uma fantasia. Jesus é deixado de lado.
Há quem pense que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Que os crentes não estão cultuando Papai Noel, mas o Senhor Jesus. Não olvido disso. Todavia, é de se destacar que é com esse raciocínio que se têm dado lugar para muitas das práticas heréticas dos cristãos modernos. Em relação ao Natal, ao dia 25 de dezembro, ao Papai Noel e ao nascimento de Jesus, por exemplo, existem as seguintes relações:
1) A data de 25 de dezembro era considerada na cultura dos Bálcãs, o dia do nascimento de Fírgias, o deus-sol, o qual era então festejado por eles.
2) Na mesma ocasião, dava-se o solstício de inverno no hemisfério norte, marcando, em tese, o fim do inverno e o começo da Primavera. Os dias já não seriam tão frios e haveria a possibilidade de sair de casa, preparar a terra, plantar e colher. Em função disso, os romanos celebravam um festival em homenagem a Saturno (deus da Agricultura), caracterizado pela alegria e por uma troca de presentes que o momento propiciava.
3) A igreja cristã não permitia que seus adeptos participassem da saturnália até o século quarto da nossa era. A partir de então, com a oficialização da Igreja Cristã, como a Igreja do Império, fez-se a adequação, passando-se a comemorar a Festa da Natividade também em 25 de dezembro. Enquanto os gregos celebravam Fírdias, os romanos não-cristãos celebravam a saturnália, os cristãos celebravam o nascimento de Jesus. Aproveitava-se a mesma data, mas com propósitos diferentes.
4) Já o Papai Noel, também conhecido como Santa Claus, Pai Natal, entre outros nomes, foi uma criação inspirada em Nicolau Taumaturgo, Arcebispo de Mira (Turquia), o qual teria nascido em 280 d.C. Conta-se que era um homem de bom coração, que costumava ajudar as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximas às chaminés das casas. Em virtude de vários milagres a ele atribuídos, foi transformado pela Igreja em “São Nicolau”. Em francês, Noel significa Natal. O Papai Noel seria o Papai Natal.
Do ponto de vista bíblico, não existe nenhuma fundamentação para a criação desse personagem. A respeito do Pai, nosso livro sagrado nos diz: “a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23:9). Nosso entendimento é que os cristãos verdadeiros não devem misturar as coisas. É verdade que Jesus veio ao mundo para salvar a todos. Mas também é verdade que esse nascimento somente tem um efeito positivo para aqueles que o recebem como seu Senhor e Salvador. Para esses tais, o nascimento dele tem um significado muito forte e justificaria a comemoração, a qual poderia ser feita durante todos ou em quaisquer dos dias do ano. Não haveria a necessidade de misturar as coisas, principalmente porque não existe comunhão entre pagãos e cristãos, entre a luz e as trevas (2 Co 6:14). O Sol da Justiça brilha sobre todos, mas nem todos se aproveitam dessa luz da forma mais adequada. (Ml 4:2; M5 5:45).
No caso particular do Papai Noel, entendemos que a sua inclusão na vida do crente está vedada pela Palavra de Deus. Em Ex 20:2-6 está registrada a proibição: “Eu sou o Senhor teu Deus [...]. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso [...] e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos”. E o Novo Testamento confirma que amar ao Senhor de todo o coração é o grande mandamento (Mt 22:37). Em outras palavras. Não temos a necessidade de um Papai Noel para intermediar a nossa bondade para com o nosso próximo. “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 5:1).
É verdade que “todas as coisas são lícitas para o crente”, mas também é verdade que “nem todas convêm” e que ele não deve se deixar “dominar por nenhuma delas” (1 Co 6:12). Alguns crentes de pouca instrução podem dizer que “não há nenhum mal em celebrar o Natal ou em cultuar o Papai Noel, cantando suas canções, colocando sua imagem em suas casas, etc.. Mas a verdade é que existe um mal, sim. Fazer a imagem e usá-la é proibição de Deus; é seu mandamento confirmado à igreja. Ele entende que isso é uma forma de desviar o nosso amor DELE e, por isso, veda expressamente.
Por outro lado, é de destacar que a CEIA DE NATAL preparada especialmente para esse dia, está vedada expressamente em At 15:29, onde se orienta os gentios para que se “abstenham das coisas sacrificadas a ídolos”. Podemos comer de tudo, mas devemos observar em que espírito se come (Cf. 1 Co 10:23-31). Se o comer é para celebrar esse Natal originado da Saturnália dos romanos, das homenagens ao deus-sol Fírgias ou ao bispo Nicolau, então temos que ser mais prudentes, pois esse é um fundamento idólatra (Is 52:13; Ef 1:8).
Em suma, o grande problema de toda essa história do Natal e de Papai Noel é a origem de tudo isso. Tratam-se de criações humanas. É evidente que todo aquele que é nascido de Deus, que tem Jesus como seu Senhor e Salvador e que tem o Espírito Santo habitando em seu ser, jamais trocará essa esperança verdadeira que conduz à felicidade e à vida eterna pelas ilusões dessa “Noite Feliz” e desse “Feliz Dia de Natal”. Nós não temos que ser semelhante às nações. Não precisamos de um dia especial para comemorar o nascimento do nosso Salvador, mesmo porque esse nascimento tem um significado particular e não coletivo. Jesus nasce para o indivíduo e não para a humanidade. Aqui está presente uma tentativa melosa do maligno de tentar confundir a verdade das Escrituras e nós não devemos cair na armadilha.Com toda certeza, podemos deixar a nossa comemoração para outro dia, até mesmo porque o nosso “Deus não é de confusão e sim de paz” (1 Co 14:33).
A gargalhada de Papai Noel não deve ecoar nos lares cristãos. Em seu lugar devemos cantar “Glória, glória, aleluia, o Cristo voltará!” Ao invés de nos ocuparmos com essas histórias heréticas produzidas pela idolatria humana, que ocupemos o nosso pensamento com “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama”, mas que seja realmente virtutuoso, ou seja, que esteja fundamentado na Palavra de Deus, conforme a orientação paulina de Fp 4:8.
Essa é a esperança que alimenta a nossa vida. Que Deus nos abençoe!
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*Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igeja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Consciência Negra, uma questão a resgatar

Prof. José Carlos Iglesias

Feriados os há em grande profusão em nosso calendário anual, alguns são de cunho religioso, sedimentados em nossas inegáveis raízes cristão-católicas, práticas e fenômenos que foram sendo incorporados na nossa cultura, que já não dizem mais respeito a uma prática religiosa, mas que são ainda mais que isto, passou a ser um produto social institucionalizado de indiscutível valor. Por conta de nossa formação positivista, os feriados ligados ao nacionalismo e patriotismo vêem sendo talvez os mais exaltados e solenes. Tais datas comemorativas estão sendo repetidas reiteradas vezes que acabam por serem até banalizadas, perdendo até seu sentido inicial, transformados em meros 'dias de lazer', justamente porque são conquistas já consolidadas, sem nenhum sabor ou necessidade de 'lutar' para ampliar seus horizontes ou consolidar conquistas ameaçadas por segmentos ultra-tradicionalistas. Já no que diz respeito à questão do Negro, não apenas no nosso caso, mas por todos os continentes onde eles foram explorados em sua vulnerabilidade e rebaixados às condições a mais torpe e oprobrioso de nossa putrefata cultura ocidental. Esta sim é uma luta ainda por ser consolidada, pois parece muito pouca coisa ter mudada do último decênio do século dezenove até nossos dias. Quando vemos uma triste realidade que vai da exclusão social, educacional, econômica, desembocando em resquícios de uma 'segregação cordial', onde convivemos com piadinhas sutis, mas que escondem no transfundo suas raízes muito profundas de intolerância e arrogância pela supremacia das pessoas de pele branca. No caso brasileiro tivemos um fenômeno transculturante de cunho europeizante onde já nascemos sobre os auspícios de valores excludentes da Idade Média, eis que nosso território foi dividido de início em Capitanias Hereditárias, os quais donatários as receberam da coroa com objeto a desenvolver e povoar as terras recém descobertas. Tal modelo, por sua própria essência nasce sobre a égide do privilégio, pois a hereditariedade é o ordenamento legal de posse e uso das terras alijando aos despossuídos. A este sistema fundiário tivemos sua substituição pelo regime das Sesmarias, as quais deram continuidade ao processo de privilégio das elites de então. Como os proprietários das terras não possuíam meios para desenvolverem seus imensos quinhões de terra, lançaram mão do que havia de mais próximo, que foi a tentativa frustrada da escravização de nossos indígenas. Valendo-se para isto, de artifícios os mais sujos possíveis, que terminou em vergonhoso genocídio. Pela índole indolente (o que é um valor, considerando as condições em que viviam) do nosso indígena, tal processo exploratório sucumbiu. Neste momento é que entra o processo de utilização do negro em nossa história, quando os fazendeiros passaram a adotar uma prática já largamente utilizada por outras culturas. Para atender a necessidade de mão-de-obra os senhores brancos, exploradores das atividades agrícolas passaram a comprar negros aos mercadores. Aos leitores desconhecedores das condições utilizadas para as 'importações' de escravos, remeto-os ao filme 'Amistad', de onde poderão formar opinião a respeito ao que foram submetidos milhares de pessoas negras (as quais não eram consideradas pessoas, mas coisas, passíveis de serem objeto de propriedade) para satisfazerem necessidades vergonhosas de outras pessoas de pele branca ávidas de lucro e bem estar, que tinham como regra ética que 'os fins justificam os meios'. Em 1850 tivemos a famosa 'Lei de Terras', preparada para alijar os negros da posse de terras, bem como os reservando como um 'banco de mão-de-obra' barata e a disposição. Pois já se sabia inevitável a libertação dos negros que ocorreu quatro décadas depois. Depois disto tivemos um processo de formação de favelas nas periferias das grandes cidades, selando até nossos dias o destino destes eternos desafortunados que pagam até hoje o pecado de possuírem a pele negra. Olhando para minha pele hispano/hebraica confesso sentir um imenso remorso, não de agora, mas muito velho, uma herança ancestral, uma necessidade de 'purgar a mora' por aqueles que não tiveram a devida consciência de reconhecê-los como nossos pares. Talvez por isto, 'não saber o que fazer', procurar agir sem hipocrisia ou pieguismo, buscar uma relação emancipatória, co-irmã, uma relação de simetria real e honesta, uma mútua troca de anfitriãnidade, ou sei lá como ou o que, talvez um poeta se saísse melhor, não um mero colunista que emite suas opiniões, muitas vezes infundadas. Sei lá, neste desabafo, meio envergonhado, uma vergonha histórica, impregnada em cada célula do corpo, meio sem-jeito, talvez o melhor remédio seja a atitude mui digna do Papa antecessor do atual, o João Paulo IIº que foi conhecido como o Papa do Perdão. Para muitos pode ser descabido pedir perdão pelos ancestrais, mas quando o peso chega até nós, creio não haver melhor remédio curativo de uma dívida atávica, para tanto, em nome daqueles que não se sentem bem com esta consciência pedimos nosso perdão ancestral aos nossos irmãos negros.
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José Carlos Iglésias é docente nas Faculdades UNICEN em Primavera do Leste, no curso de Direito. O artigo acima foi publicado no Jornal O Diário de Primavera do Leste, de 20/11/2006.

domingo, novembro 19, 2006

Aprender a aprender

Izaias Resplandes*


“Ser ou não ser: eis a questão”. Apesar de sua idade centenária, a enunciação shakesperiana continua atualíssima, em face da constatação fática de que a posse do mundo se dá numa ordem inversamente proporcional ao crescimento do conhecimento que se tem dele. Se por um lado ele se amplia, em virtude dos avanços científicos, por outro, ele possui a cada dia menos donos, em decorrência da inércia e do comodismo da maioria dos homens de hoje. A verdade é que, enquanto o conhecimento se multiplica em progressão geométrica, a sua apropriação coletiva caminha a cavaleiro, em progressão aritmética. Aquela sede de saber tudo que tinha o homem do passado, hoje se esvaece diante das dimensões do conhecimento. Substitui-a o mais vil senso comum: eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Triste realidade egocêntrica. A constatação de um que não tem condições de saber tudo, leva-o a não querer saber de nada. Típica atitude da raposa de La Fontaine. Não conseguindo alcançar os lindos cachos de uvas que pendiam do parreiral, exclama a raposa: “também, quem quer uvas verdes!”.
Destarte, a descoberta de um ou mais paradigmas, que possam tornar possível à apropriação do verdadeiro conhecimento que hoje se produz no mundo, é o grande desafio que afronta a genialidade do homem deste século. Se não é possível tudo, então devemos selecionar e nos apropriarmos apenas do melhor. A nossa missão será encontrar as agulhas perdidas no palheiro cósmico do conhecimento. Para tanto, devemos ser capazes de separar o joio do trigo, o conhecimento aparente do verdadeiro, o que presta do que não tem valor. Isso irá requerer de nós uma formação diferenciada e que seja adequada a essa realidade.
Preocupada com isso, a UNESCO deu a Jacques Delors a missão de chefiar uma equipe que pesquisasse as possibilidades para uma educação efetiva no século vinte e um. Do trabalho resultou o documento intitulado “Os quatro pilares da educação”, publicado como parte do livro “Educação: um tesouro a descobrir”, da Editora Cortez, São Paulo, 1999, pp. 89-102.
Os quatro pilares envolvem o aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Uma coisa leva à outra. Mas, aqui focalizo apenas o aprender a aprender, o qual é a base para as demais estruturas. Não conseguindo isso, não faremos, não conviveremos e não seremos ninguém além de mais um na multidão de quase sete bilhões de seres que hoje enche o planeta.
Nessa linha, é de destacar que, entre tanto conhecimento e ante a impossibilidade de se apreender tudo, faz-se necessário que cada um saiba encontrar na vastidão o que realmente interessa. Não há mais aquela necessidade de decorar o fragmento que lhe caía nas mãos. Naquele tempo de poucos livros, ficava-se muito feliz caso se encontrasse uma bula de remédio para ler. Não importava o que significavam aquelas estranhas palavras, tais como dilametilamenofenildimetilpirazolona. O importante é que se tinha algo para se ler e decorar. Recordo-me de ter que dar a lição para o mestre, de cor, vírgula por vírgula, ponto por ponto. Então, ficava orgulhoso por demais, quando conseguia passar para a lição seguinte. Hoje, os tempos são outros e me entristeço de ter perdido tanto tempo de minha vida decorando aquelas coisas que foi sem sentido e sem utilidade para minha vida e das quais tenho poucas recordações.
Hoje o conhecimento é produzido e reproduzido por mil formas e em grande quantidade. Com o avanço das comunicações, é possível acessá-lo, a qualquer hora e em qualquer lugar. O conhecer não é mais uma questão de internalização da informação. O conhecimento é volátil, muda a toda hora. Terá sua posse aquele que tiver a técnica para adquiri-lo com rapidez, antes que se torne defasado. Nesse sentido, à educação não compete mais a transmissão do conhecimento. Aliás, isso nunca competiu de verdade. Tinha-se a ilusão de que alguém ensinava e de que alguém aprendia. Mas tudo não passava de um mundo de faz-de-conta. E o pior é que, ainda hoje tem muita gente que pensa dessa forma. Todavia, já está provado que ninguém educa ninguém. O homem é sujeito de sua própria aprendizagem. Segundo Amaral Fontoura, “aprende-se o que interessa. O resto decora-se para passar nos exames e se esquece no dia seguinte”. Daí, a pergunta que não quer calar: Então, qual a finalidade de se decorar algo que hoje tem apenas um valor relativo e amanhã, não vale mais nada? Nenhuma! Essa é a resposta. O professor da decoreba comete um verdadeiro atentado contra os novos tempos, quando prende seus alunos em pequenos fragmentos do saber, ao invés de prepará-los para adquirir o domínio de tudo o que vierem a necessitar durante sua vida e que tem realmente valor para ele.
A orientação dos sábios da UNESCO é que o professor deve ensinar a aprender e não a decorar. Aquele que se formou na escola da decoreba precisa voltar urgentemente aos bancos escolares. Seus paradigmas de ensino/aprendizagem não correspondem mais aos tempos atuais. Já estão superados. Sabe-se hoje que a educação é processual e que, uma vez iniciada, só termina com a morte. É algo para a vida toda. Aquele que se prende ao trabalho da decoreba, ainda não entendeu que o mundo é dinâmico e que não se repete. Aliás, de acordo com a velha lição de mestre Heráclito de Éfeso, um homem não banha duas vezes no mesmo rio, porque as águas de hoje, já não são as mesma de ontem. Aquelas já estão no mar.
Conclui-se. Estamos no tempo de aprender a aprender. Aquele que souber isso estará verdadeiramente preparado para viver. Do contrário, vai morrer de decorar e não vai sair do lugar.

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*Izaias Resplandes de Sousa é pedagogo, professor de Matemática e acadêmico de Direito da UNICEN em Primavera do Leste, MT.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Encontro de Cooperadores Neotestamentários

RELATÓRIO DO XXXII ENCONTRO DE COOPERADORES DAS IGREJAS NEOTESTAMENTÁRIAS


Data: 02 a 05 de novembro de 2006.
Local: Campo Grande (MS)

PARTICIPANTES:
1. Genaro Moreno – Bolívia – Missionário
2. Eliezer Medina – Paraguai – Missionário
3. José Maria Iturriaga – Argentina – Missionário
4. Isaías da Silva Almeida e Rosângela – Campo Grande (MS), Brasil - Missionários
6. Ademar Soares de -Lima e Elisabete – Tangará da Serra (MT), Brasil - Missionários
8. Paulo César Moraes – Jaciara (MT), Brasil – Missionário
9. Tereza Lafuente – Curitiba (PR), Brasil – Missionária
10. Itamar Soares de Lima – Nova Olímpia (MT) – Presbítero
11. Sebastião dos Santos – Rondonópolis (MT) – Presbítero
12. Altivo Melo e Matilde – Rondonópolis (MT) – Diácono
14. Antônio Júlio Pinto – Cuiabá (MT) – Presbítero
15. Émerson e Isaías da Silva Pinto – Cuiabá (MT) – Cooperadores
17. Paulo Castro – Corumbá (MS) – Presbítero
18. Ari de Carvalho – Corumbá (MS) – Presbítero
19. Mascos Castro – Corumbá (MS) – Cooperador
20. Wilson da Silva Gonçalves – Corumbá (MS) – Cooperador
21. Edson Ferreira – Corumbá (MS) – Presbítero
22. Davi Almeida – Corumbá (MS) – Diácono
23. Arnaldo Guedes – Corumbá (MS) – Cooperador
24. André e Fernanda Campos – Corumbá (MS) – Cooperadores
26. Edimir Cordeiro – Corumbá (MS) – Presbítero
27. Mildre Pelizer – Sinop (MT) – Cooperadora
28. Arízio de Almeida Branco – Sorriso (MT) – Cooperador
29. Gilson e Márcia Jorge – Sorriso (MT) – Cooperadores
31. Izaias e Lourdes Resplandes – Poxoréu (MT) – Cooperadores
33. Altamiro e Sarah Luz – Primavera do Leste (MT) – Cooperadores
35. Maria de Freitas – Nova Brasilândia (MT) – Cooperadora
36. Nanao e Reny Yamamoto – Campo Grande (MS) – Presbítero
38. Júlio Alt Viveiros – Campo Grande (MS) – Presbítero
39. Nilmar Pereira – Campo Grande (MS) – Presbítero
40. Peter e Ester Rees – Campo Grande (MS) – Presbítero
42. Antônio e Gláucia Torrezan – Campo Grande (MS) – Diácono
44. Eduardo e Nilda Nantes – Campo Grande (MS) – Cooperadores
46. Délcio e Roseli Vaseniek – Campo Grande (MS) – Cooperadores
48. Francisco e Marlene – Campo Grande (MS) – Cooperadores.
50. Cilso Lourenço e Fátima – Campo Grande (MS) – Diácono.






INTRODUÇÃO

Às dezessete horas do dia 02 de novembro de 2006 teve início o XXXII encontro de Cooperadores das Igrejas Neotestamentárias, em Campo Grande, MS, no local denominado “Estância Aconchego”.
Abrindo o evento, o irmão Júlio Alt Viveiros, presbítero da Igreja Local de Vila Planalto, deu as boas vindas aos irmãos participantes, pedindo a todos que se apresentassem. Em seguida foram escolhidos, após orações, os irmãos Júlio Alt e Izaias Resplandes, para Coordenador e Secretário do Encontro, respectivamente. Então foi lido o Relatório do Encontro anterior, realizado em Poxoréu, MT, feito a escala dos horários e definido o temário.

TEMÁRIO. Ficou estabelecido os seguintes assuntos:
Confirmação do local de realização do XXXIII Encontro de Cooperadores.
Previsão do XXXIV Encontro de Cooperadores.
Temas pendentes do encontro de Poxoréu, MT.
Ceia do Senhor para enfermos.
Abertura de novos trabalhos.
Heresias nas congregações.
Manutenção dos Retiros de Poxoréu (MT) e Corumbá (MS).
Expansão da obra missionária neotestamentária.
Estudos para as lideranças presentes sobre família e sobre a obra.

DESENVOLVIMENTO DO TEMÁRIO
Ao som do alegre gorjear dos pássaros, o temário foi desenvolvido a partir do segundo dia do encontro. Irmão Júlio destacou os pontos do temário, pedindo a todos que pudessem se expressar, livremente e sem temor os seus pensamentos, lembrando que o Grupo de Cooperadores não é um grupo legislativo. O Encontro é apenas um fórum de discussão para ajudar as igrejas locais na tomada de suas decisões.
Foram feitas as seguintes conclusões:

1. Ficou confirmado que o XXXIII Encontro de Cooperadores será realizado na cidade de Sorriso (MT), no local neotestamentário do Jardim Califórnia, iniciando às 17 horas do dia 15/11/2007 e encerrando-se às 12 horas do dia 18/11/2007 (com o almoço).

2. Foi sugerido a cidade de Corumbá (MS) para a realização do XXXIV Encontro de Cooperadores, em 2008, a ser confirmado pelos irmãos dali, no Encontro de Sorriso (MT).

3. CEIA PARA ENFERMOS. Debateu-se a respeito do costume que se tem de levar a ceia para irmãos que estão enfermos e não têm condições de comparecerem ao local. Vários exemplos foram apresentados. Textos bíblicos como 1 Co 12:13, Ef 2:3, Mt 25:34-36 e 18:20 foram lidos. Concluiu-se, após as exposições individuais o seguinte: a) Os irmãos devem ser ensinados a pedirem o que precisam (sejam orações, sejam unções, sejam essas ceias especiais); b) Não existe uma periodicidade para a celebração especial da ceia para os enfermos (celebra-se quando for pedida); c) Os irmãos não devem ficar constrangidos nem de pedir, nem de realizar esse ato de amor; d) O horário de realização é irrelevante; deve ser o mais adequado; e) Não devem apenas ser levados os elementos; deve ser feita um pequena reunião, na qual participarão todos os presentes em condições, inclusive o enfermo (se possível), entendendo-se por participação não apenas o comer e o beber os elementos, mas na forma de costume; f) Não precisa ser necessariamente um presbítero para celebrar essa ceia especial.

4. MANUTENÇÃO DOS RETIROS DE POXORÉU E CORUMBÁ. Os acampamentos de Poxoréu e Corumbá estão subutilizados, ampliando os custos para suas manutenções. Além disso, nem todas as congregações estão cooperando com a manutenção, gerando déficit para os responsáveis. Estima-se em R$ 8.000,00 (oito mil reais) e R$ 12.000,00 (doze mil reais) a manutenção dos retiros de Poxoréu e Corumbá, respectivamente. Concordou-se sobre a importância e necessidade de um Relatório de Prestação de Contas para que as igrejas responsáveis tomem ciência dos fatos.

5. ABERTURA DE NOVOS TRABALHOS. Em função de que vários trabalhos têm sido iniciados e cada um, de forma bem diversa de outro, com conseqüências também as mais diversas, debateu-se sobre a possibilidade de definição de critérios padronizados para a abertura de novos trabalhos. Foram relatadas as experiências de cada localidade e concluído que cada caso é um caso, devendo apenas manter-se em obediência aos princípios neotestamentários. Devemos permanecer naquilo que temos aprendido, conforme a orientação de Paulo a Timóteo. O trabalho é do Senhor. É nosso dever realizá-lo. Ele nos mostrará o melhor caminho. A experiência acumulada dos irmãos também ajudará.

6. A EXPANSÃO DA OBRA MISSIONÁRIA. Após as manifestações dos participantes, especialmente os relatos dos missionários presentes, concluiu-se o seguinte: a) há a necessidade de maior contribuição financeira para a missão; b) é preciso definir a questão da previdência social dos missionários; c) há necessidade de se visitar os trabalhos de Porto Rico, México e da África para consolidá-los; d) há vários missionários em idade de aposentadoria, mas não existem outros preparados para substituí-los; e) o avanço da obra é lento, mas é real.
À noite de sábado, o missionário Isaías Almeida fez uma palestra sobre a situação da missão, tanto em relação à extensão da obra, como em relação às condições vividas pelos missionários. Hoje existem em 42 missionários neotestamentários, mas apenas 10 estão em condições de se locomoverem, visto os demais estarem em idade avançada. As contribuições financeiras para a missão têm melhorado, mas ainda não são suficientes para assegurar uma vida adequada aos nossos missionários, que muitas vezes precisam executar outras atividades para assegurar a subsistência de suas famílias. Antigamente, os missionários recebiam doações do exterior; hoje, a sua manutenção depende exclusivamente das igrejas locais. A expansão da obra, evidentemente, esbarra também nessa questão financeira que deve ser considerada por cada congregação.

7. CASAMENTOS IRREGULARES. O tema foi suscitado em Poxoréu pela Igreja de Santo Antônio do Leste (MT). Diz respeito aos casais de irmãos que vivem juntos sem estarem casados e também a irmãos em convivência com cônjuge incrédulo. Os irmãos Izaias Resplandes (Poxoréu – MT) e Peter Rees (Campo Grande – MS) expuseram informações bíblicas e jurídicas sobre a questão. Ao final, concluiu-se que, em que pese as alterações na legislação, devemos permanecer fiéis aos nossos princípios morais concernentes à família. Os casais irregulares devem ser estimulados a buscarem o casamento para que possam desfrutar da comunhão.

8. HERESIAS NAS IGREJAS. Os novos tempos têm suscitado o aparecimento de antigas práticas heréticas (contrárias à Palavra de Deus), as quais vêm sendo incorporadas no cotidiano das igrejas, dando oportunidade para que Satanás alargue o seu riso em relação ao povo de Deus. Dentre essas, destacam-se as danças, orações no escuro, imposição de mãos por pessoas não reconhecidas, doutrina do riso, comunicação na língua dos anjos, etc. Essas práticas estranhas, que não passam de “bolotas” de outros grupos não devem interessar-nos. Não são coisas do Espírito. Por outro lado, devemos ser cautelosos e prudentes nas nossas avaliações, para não incorrermos em radicalismos e extremismos desnecessários. Concluiu-se que devemos ter cuidado da doutrina e do testemunho, critérios que devem ser observados não somente no início de um trabalho, mas durante a sua existência. Deus dará sabedoria aos irmãos para tratar dessas questões sem divisões ou outras conseqüências mais graves.

9. ESTUDO SOBRE FAMÍLIA. Na noite de sexta-feira o missionário Ademar Soares de Lima trouxe um estudo abordando como tema a Família: Conversão de pais e filhos, fundamentado nos seguintes textos bíblicos: 2 Co 12:14b, Sl 127:3, 144:12, Is 59:21, Mt 4:6, 1 Sm 10:6, 1:15, Pv 22:6, 2 Cr 30:7-10 e Sl 78:5. Destacou-se a importância da disciplina para os filhos, principalmente até os dez anos de idade. A família é a melhor coisa do mundo. Os filhos são herança do Senhor. Devemos nos perguntar porque os nossos filhos estão deixando o Senhor e também o que podemos fazer para trazê-los de volta. Deus quer que nossa descendência seja salva. Queremos ganhar almas. Devemos atuar nesse sentido. Mas, não podemos perder nossos filhos. Precisamos dedicar tempo para eles e instruí-los, principalmente enquanto pequenos, cuidadosamente. Às vezes nos preocupamos em demasia com os investimentos materiais. Isso é importante, mas os investimentos espirituais são absolutamente necessários. Um filho fora da igreja acarreta graves prejuízos para Deus. Os novos casais devem ser ensinados para não descuidarem desses aspectos, principalmente até os dez anos de idade.


ENCERRAMENTO
O Coordenador fez uma avaliação do Encontro, concluindo que o mesmo foi muito bom e os temas abordados, muito proveitosos. Leu Ef 4:1-6, pedindo que esse texto seja uma realidade na vida de todos.
No mesmo espírito e na mesma harmonia com que iniciou, encerrou-se o encontro. Registrou-se agradecimentos a todos os que, de alguma forma contribuíram para a realização do evento, especialmente ao irmão Nilmar, proprietário do Restaurante “COM QUALIDADE REFEIÇÕES”, que preparou a alimentação para o encontro e ainda proporcionou aos visitantes um passeio pela Capital Morena, à bordo do seu “JOVEM TUR”. Renovou-se o convite para que todos estejam em Sorriso em 2007.
Finalizando, leu-se o presente relatório que será remetido às igrejas para conhecimento, leitura e orientação.

Campo Grande (MS), 05 de novembro de 2006


Izaias Resplandes de Sousa - Secretário
E-mail: respland@uol.com.br



Júlio Alt Viveiros
Coordenador