sexta-feira, fevereiro 24, 2006

De pai para filho

Izaias Resplandes
Meu filho, por favor, me escute, para que possamos viver em paz!
Tenho procurado falar-lhe de muitas maneiras e parece que não tenho encontrado bons resultados. Espero que esta não seja apenas mais uma alternativa malfadada. Eu lamento as vezes que gritei e falei alto com você. Mas eu fico irritado porque você parece não dar bola para as coisas que eu falo. Eu quero que você me escute, me dê atenção, ouvidos e ponha em prática aquilo que te falo. Isso não é difícil de fazer, se você quiser. Por isso e me ouça, faça essa prática para que possamos viver em paz.
Não deixe que minha instrução entre por um de seus ouvidos e saia pelo outro. Não quero que você seja como eu, que viva a minha vida. O que quero é que você não cometa os mesmos erros que eu cometi. E tenho certeza que se você praticar o que eu te ensino como pai, não somente viveremos em paz, mas você será um vencedor. Você não precisará esconder nada, nem de mim, nem de ninguém; não precisará ter medo de represálias ou de castigos porque a sua vida será uma vida de verdades, estribada e fundamentada na verdade; duras verdades, às vezes, mas verdades. É por isso que sempre te digo para não mentir. Dizem que a mentira tem pernas curtas, mas eu te digo que nem pernas ela tem. A mentira é uma deformação da verdade.
Com certeza nós saberemos compreender os seus erros, por mais feios que eles possam ser pintados; entenderemos que ninguém está livre da fatalidade e buscaremos juntos uma saída honrosa e digna para que você possa retornar ao caminho do bem, o qual embora nem sempre achamos que é o melhor, é o caminho aceito e aprovado pela sociedade. E para que nós possamos viver em paz e harmonia com essa sociedade na qual estamos inseridos, nós temos que segui-lo. Essa é uma excelente perspectiva de futuro. Por isso, não minta, fale e pratique a verdade e assim todos viveremos em paz!
Além da verdade conceitual, quero te dizer que hoje eu vivo e trabalho para você. E uma das coisas que te peço é que dê valor ao que faço por você. Pode parecer meio esquisito, mas esse é o meu jeito de amar: vivendo, trabalhando e me preocupando com tudo o que te diz respeito. Sua mãe e eu já estamos velhos. Praticamente já fizemos quase tudo o que poderíamos ter feito para nós mesmos. Agora, tudo o que fazemos é para você, com quem continuaremos existindo depois que partirmos dessa vida. Então, meu filho, dê valor ao que é nosso. Não jogue nossas pérolas aos porcos. Conserve-as para os dias maus e difíceis que virão.
Seja um bom administrador. O futuro vai cobrar isso de você. Sua mãe e eu lutamos sozinhos para sermos vencedores nessa vida. Recebemos muito pouco; quase nada. Tivemos que construir tudo com muito trabalho, esforço e sacrifício. E o que construímos, queremos deixar para que você tenha uma base para começar, para que não comece do zero como nós começamos. Então, meu filho, seja responsável na administração do nosso patrimônio. Use-o com sabedoria para que ele sirva de alguma coisa para você e para que você, amanhã, também tenha alguma coisa para deixar a nossos netos, seus filhos.
Espalhar, destruir e acabar é muito fácil. Construir, ajuntar e possuir é uma luta que dura uma ou muitas vidas. Meu desejo é que você seja melhor do que eu fui, viva melhor do que eu vivi e tenha muito mais chances e oportunidades do que eu tive, apesar de que o seu mundo e a sua realidade serão muito mais severos com você do que os meus foram comigo. Mas essa é a razão da minha vida como seu pai. Eu luto com todas as armas de que disponho para que você não tenha que passar pelas mesmas dificuldades pelas quais eu passei para vencer.
Perdoe-me pela dureza das palavras. Mas, porque te amo, eu tinha que ser sincero e dizer as coisas conforme elas brotaram em meu coração. Nunca te esqueças que se digo o que te digo é porque amo você. Não te esqueças e sejas um vencedor!

Universidade Oba-Oba!

Izaias Resplandes
A máxima do “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” está se tornando realidade na universidade brasileira. Depois de enfrentar uma resistência que não foi tão resistente assim, o Rio de Janeiro saiu na frente, oficializando há poucos dias a tão propalada reserva de vagas nas universidades estaduais daquele Estado, para os alunos provenientes da escola pública. É claro que desse ponto para a generalização em todo o país, inclusive nas universidades federais, será um passo. Vale lembrar que nós do Mato Grosso temos que falar um pouco mais baixo sobre isso, haja vista que na origem oficial desse ba-fa-fá também está o Senador Antero Paes de Barros, um dos candidatos a candidato a Governador de nosso Estado, autor de um Projeto de Lei sobre o assunto, que está tramitando lá pelas bandas do Congresso Nacional. Mas, se pecamos falando, pecamos mais ainda pela omissão silenciosa, pelo que opto por engrossar as fileiras da resistência contra esse oba-oba que se está implantando nas nossas universidades.
Reservar vagas para alguns privilegiados, é abrir as janelas para o ladrão. Quem muito bem dissertou sobre isso foi Jesus Cristo. Segundo ele, “o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador” (João 10:1). Enquanto pai e professor de escola pública, eu questiono e condeno essa educação que se dispõe a iniciar os jovens brasileiros nos caminhos da marginalidade. Fico com a nossa Constituição, pela qual “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (art. 5º). Se os nossos jovens da escola pública não estão ingressando na faculdade, então é porque existe uma deficiência na base preparatória, a qual precisa ser corrigida. Todavia, não se corrige um erro com outro. Isso seria persistir no erro, o que até a cultura popular já consagrou como burrice. A reserva de vagas fere a nossa Lei Maior e não é uma solução inteligente para o problema da dificuldade que os jovens egressos da escola pública têm para ingressar nas universidades públicas em nosso país. Para solucionar a questão é preciso ir até as suas raízes mais profundas, as quais estão umbilicalmente ligadas à realidade em que vivem tais alunos.
Seguindo a orientação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a escola deve preparar o jovem para a vida; para o exercício da cidadania. E essa orientação deve ser seguida tanto pelas escolas públicas quanto pelas privadas. Isso pode parecer positivo, mas é exatamente nesse ponto que encontramos uma das principais barreiras para que o jovem da escola pública ingresse na faculdade. Trata-se de como essa questão da preparação para a vida é vista pelas classes popular e remediada, de onde provém a quase totalidade dos jovens de quem estamos falando.
Para as camadas populares, estar preparado para a vida significa ter pelo menos o ensino médio. A Universidade é uma utopia para essa gente que passa fome, que está desempregada, que madruga para pegar uma ficha para o médico do posto de saúde e que, somente abaixo da linha da miséria é constituída por 80 milhões de brasileiros. É com essa gente tão sofrida e humilhada que a escola pública trabalha. Essa é uma das realidades do problema em exame. Esse é o limite, a meta e o objetivo da escola pública: oferecer a educação básica prevista na nossa LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). Na outra semi-reta dessa história estão os egressos da escola privada, cuja meta final para a devida preparação ao exercício da cidadania, somente será atingida com a conclusão de um curso superior.
Por mais agressiva que seja, a realidade norte-sul em que vivem os pobres e “remediados” jovens do Brasil é um quadro pintado mais ou menos com essas cores. Se quisermos mudanças nesse panorama, se quisermos diminuir as desigualdades que separam esses dois mundos, devemos tomar medidas que aumentem o poder de competitividade dos jovens da escola pública, dentre as quais sugiro uma mudança nas suas finalidades, estabelecendo como meta principal a preparação do jovem para o ingresso na faculdade. Os alunos que têm saído das escolas públicas não estão conseguindo se empregar, porque quem está disputando as vagas nos serviços mais elementares do mercado são profissionais de nível superior.
Chega de iludirmos a nós e aos nossos alunos com uma pretensa preparação para o trabalho, porque da maneira como a lei nos manda “ensinar”, não estamos preparando nem para uma coisa nem para outra, em nossas escolas públicas. Temos que fazer como eles fazem nas escolas privadas, ou seja, preparar nossos garotos para ingressar na faculdade. Nós sabemos quais os conteúdos e cobranças que comumente caem nos vestibulares, mas não trabalhamos tais conteúdos nem preparamos nossos alunos para responder aos tais questionamentos. Então me digam se queremos para eles, algo mais que essa famigerada educação básica do preparo para o desemprego e que também é conhecida como 2º grau e ensino médio. No bla-bla-blá, podemos até dizer, mas não é isso que nossos atos declaram.
Para encerrar, é bom lembrar que a festa do oba-oba não para por aí. Uma das propostas do Brasil na Conferência da ONU, na África é justamente a reserva de vagas para os negros em nossas universidades. Ontem os humilhados foram os pobres. A proposta de hoje também inclui os negros. E amanhã, para que quase todos sejamos iguais, você também poderá ser incluído nesse oba-oba da reserva universitária. Que possamos viver para ver!

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O quinto ano

Izaias Resplandes

A ordem natural sob a qual se encontra organizado o universo, diz que nossa vida é um elemento de constante fluidez. A todo instante estamos sofrendo o efeito das mudanças. Ainda que algumas pareçam imperceptíveis, o tempo não nos deixa esquecer. Já não somos mais os jovens de antigamente. Hoje estamos mais velhos do que ontem. A ordem natural que Deus estabeleceu para o homem é nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Reconhecê-la é uma questão de sabedoria. O rei Davi sempre pedia ao seu Deus, por ele e por seu povo: “ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90:12).
Como é notório, estamos terminando o primeiro ciclo do terceiro milênio e iniciando o seu quinto ano. Um ciclo completo equivale a um grau a mais, tanto na evolução, quanto no conhecimento. Pela lógica, após tantas idas e vindas pela vida, devemos estar agora mais sábios do que antes, mais perspicazes, mais aptos para ver as novas possibilidades que se desenham aos nossos olhos. O tempo pode tornar as pessoas mais sábias, enquanto a história cíclica passa e repassa no seu eterno vai e vem. Várias escrituras falam sobre isso.
“Acrescentai ano a ano, deixai as festas que completem o seu ciclo” (Is 29:1). “Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gn 8:22). “Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste” (Sl 74:17).
Compreender que estamos no curso da história, repetindo-o, tal qual nos anos anteriores, é de capital importância para que possamos nos preparar para receber o novo ciclo que se inicia neste quinto ano do milênio. Muitos têm continuado na mesmice, sem progredirem, sem evoluírem. Isso se deu porque não foram capazes de perceber como funciona a ordem universal estabelecida pelo Criador. Quando se tem essa virtude, então tal pessoa pode se preparar para enfrentar o novo, o qual nada mais é do que a volta do velho.
Se eu moro na beira do rio e sei que todos os anos ele pode encher, então eu tomo as providências. Construo uma barreira, mudo a minha casa para mais longe, aumento a altura dos seus alicerces, enfim, faço alguma coisa para que a minha casa não seja inundada no próximo ano. Ou seja, a pessoa que conhece os ciclos universais, se prepara para não ser surpreendida. Certa vez, estando Jesus no território de Magadã, aproximaram-se dele fariseus e saduceus, pedindo-lhe “que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. Ele, porém, lhes respondeu: Chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado; e, pela manhã: Hoje, haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?” (Mt 15:39-16:1-2).
O tempo que chega e que passa é uma aula que se renova a cada período, desde o tempo do microssegundo, até o tempo do macroscópico. A terra gira em torno de seu eixo, no movimento de rotação, gerando os dias e as noites. A cada manhã temos uma nova oportunidade para recomeçar melhor, onde a brisa e a chuva novamente regarão a terra e o sol despontará no horizonte para ajudar a natureza a fazer a síntese da vida. Ao mesmo tempo, como em uma nave espacial, orbitamos anualmente em torno do sol e, num ciclo muito mais longo, a Terra juntamente com todos os astros que compõem o sistema solar, faz o movimento de translação em direção ao ápex, que fica entre as constelações de Hércules e de Libra. Enquanto viajamos pelo espaço sideral, temos a oportunidade de conhecer e sondar as possibilidades de novos mundos e novas galáxias, onde possamos viver e desenvolver. O futuro da humanidade está realmente “escrito nas estrelas”, porque nós vivemos e viajamos pelo universo segundo seu governo.
“Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos. E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez. Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas” (Gn 1:14-16).
A ordem universal é temporal. Se nos aprofundarmos na compreensão dos ciclos dos tempos, haveremos de descobrir a chave que abre a porta das possibilidades. Então poderemos avançar mais um grau na evolução e no conhecimento. Caso contrário, continuaremos como crianças, ao sabor do acaso. E esse não é o propósito divino.
A Bíblia nos orienta “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4:14). O apóstolo Pedro nos alerta sobre a ignorância. Diz ele: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno” (2 Pe 3:17-18). O próprio Jesus chamou a atenção dos seus ouvintes, ao dizer-lhes: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22:29); “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5:39).
Estamos na dispensação do conhecimento dos mistérios de Deus. Devemos aproveitar a oportunidade para nos aprofundarmos naquilo que tem sido insondável. Esse é o desejo divino, a respeito do qual o apóstolo Paulo se manifestara nos primeiros tempos da igreja, dizendo: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Ef 3:8-11).
Assim sendo, que possamos começar o quinto e todos os anos deste milênio com novos olhos e nova mente, para vermos a salvação e a vida que Deus tem preparado para cada um de nós que conseguirmos alcançar a sua luz.

O poeta e a filosofia

Izaias Resplandes

O poeta é um filósofo: vê o que poucos vêem e analisa e discute o que todos não conseguem ver.
A Filosofia Geral é uma das disciplinas obrigatórias na maioria dos cursos superiores, dentre os quais o de Direito. Embora alguns não gostem, ela é uma matéria essencial para a formação dos seus futuros operadores. Por meio dela, se aprende a questionar o mundo que nos parece estar estabelecido à nossa volta e a desafiar a nossa capacidade de se impressionar diante dos acontecimentos do quotidiano, às vezes tão simples mas, às vezes tão brutais.
A sociedade como um todo, acostumou-se a viver neste mundo e a aceitá-lo como normal, de tal sorte que ninguém estranha com nada e, algumas vezes, nem percebe que coisas fantásticas estão acontecendo diante dos seus olhos. Por exemplo, quem ainda não teve aquele ‘insight”, “heureca”, “achei” ou “ah-rá!” diante de uma situação antiga ou corriqueira e que de repetente pareceu tão inusitada? Quase todos já passamos por isso. Muitos já devem ter perguntado a alguém: “onde você estava que eu nunca te vi?”
A poesia, tal qual a Filosofia, nos faz ver o mundo com outros olhos. Lendo e discutindo recentemente “O mundo de Sofia”, na UNICEN, em Primavera do Leste, fizemos uma fantástica aventura, começando pela criação, passando pelos dias atuais e fazendo conjecturas sobre o amanhã da humanidade. Quantas vezes debatemos no “Boulevar Érico Piana”, se nós estamos vivendo no mundo real ou se estamos sonhando e, a qualquer hora, acordaremos e veremos que a realidade é bem diferente? Jostein Gaarder semeia a dúvida em nossa cabeça, porque é bem verdade que quando sonhamos, nem sempre temos consciência de que as imagens do sonho são parte de um sonho; nós costumamos pensar que é tudo verdade e que tudo aquilo está acontecendo mesmo. É praticamente tudo da mesma maneira que acontece agora, quando nós também pensamos que tudo o que está acontecendo é verdade. Mas nós podemos ter certeza de que nossa vida é real e não um sonho? Alguns pensam que podem. Outros não. O René Descartes concluiu que sua vida não era um sonho. Disse ele: cogito, ergo sum (penso, logo existo).
Entrando no mundo das elocubrações, dizia certa feita aos meus colegas do Direito, que alimento e sustento em meu estômago uma grande quantidade de “vermes”, lombrigas e coisas semelhantes e que elas dependem de mim para continuar a viver. Eu sou um deus para elas, embora elas não saberiam dizer quem ou o que eu sou, mesmo que fossem inteligentes. Saberiam apenas que em algum lugar daquele “bucho” universal onde elas vivem ou mesmo em todo ele, existiria alguém ou alguma coisa que garantia a sua existência. Mas saindo do bucho em questão, o que se vê é que o tal “deus” não passa de um mortal comedor de feijão, que um dia, em um fatalismo inevitável, vai para o beleléu com todas as suas lombrigas. Quem garante que não estamos no ventre de alguém? Como podemos ter certeza de que nosso mundo não é semelhante ao mundo de nossas lombrigas? Essa é uma pergunta que a nossa racionalidade não pode explicar. Então recorremos à fé e simplesmente acreditamos dogmaticamente, sem discussão, que somos criaturas de Deus e que nele nos movemos e nele existimos.
Está errado o nosso procedimento? De forma alguma! Como diz o Mestre Prof. José Carlos Iglesias, “nós não podemos abandonar as nossas crenças, se não temos algo melhor para colocar em seu lugar”. Muitos estão perdidos porque não se apegam em nada. E o nada, só pode levar alguém a lugar algum. Temos que nos definir por alguma coisa e justificá-la de alguma forma. O que não podemos é simplesmente “ficar” no mundo, de forma neutra, como se nada tivéssemos com tudo o que acontece ao nosso redor. Ninguém precisa ficar sem resposta. A poesia é composta de muitas possibilidades. Para ela tudo é possível e ninguém discute o que o poeta diz. Ela é uma forma louca para se questionar a realidade, ser considerado normal e ainda ser aplaudido.
Por isso precisamos da poesia e dos poetas. Nós temos que questionar a realidade. A busca da verdade real é o alvo de todos nós. Não podemos ser iludidos por uma indiferença. Da nossa atitude dependerá a vida e a morte dos nossos semelhantes. Como dizia o Aristóteles, embora também seja importante, não dá para simplesmente ficarmos perguntando “de onde viemos”, “como viemos” e “para onde vamos”, mas também é necessário saber o “para que viemos” e qual é a finalidade de nossa existência.
Nós estamos fazendo uma viagem fantástica pelo espaço sideral, em muitas dimensões simultâneas. Diariamente, damos uma volta ao mundo, percorrendo em torno de 40 mil quilômetros, em uma velocidade aproximada de 1670 km/h. Anualmente, fazemos a viagem orbital em torno do sol, em uma velocidade de 28,9 km/s, quase 104 mil km/h. E o fantástico não para por aí. A Terra juntamente com todos os astros que compõem o sistema solar, faz o movimento de translação em direção ao ápex, que fica entre as constelações de Hércules e de Libra, em uma velocidade aproximada de 20 km/s.
Como podemos ficar indiferente a tudo isso? Como podemos viver em busca de anjos e de marcianos, se não somos capazes de ver e de entender porque estamos viajando pelo espaço, em uma espaçonave gigantesca de 1 trilhão de quilômetros cúbicos de volume, na companhia de seis bilhões de passageiros?
A conclusão a que chegamos é que não dá para viver sem a filosofia, a não ser que sejamos simples lombrigas anencefálicas, da mesma forma que não dá para viver sem a poesia, a não ser que estejamos mortos.
Viva a poesia! Salve os poetas e sua filosofia!