sábado, agosto 12, 2017

Nos braços de meu pai

Nos braços de meu pai!

IZAIAS RESPLANDES DE SOUSA

Não esquecerei de meu pai! Vou manter as lembranças que tenho dele guardadas dentro de mim. Elas ficarão no lugar onde conservo tudo aquilo que vale a pena ser lembrado. Ainda que elas pareçam diminuir em quantidade, na medida em que o tempo vai passando, aquelas que ficam aumentam de intensidade, mantendo em alta o nível de minhas lembranças.

Ando preocupado com minhas lembranças de meu pai. Ainda que eu procure me lembrar de momentos de carinho, de colo, de cafuné... Eu quase não consigo me lembrar desses momentos. O que eu mais recordo são as surras e os conselhos que vinham depois. Lembro-me de várias sessões dessa natureza.


Lourdes, minha esposa, me disse que isso é pelo fato de que os sermões e as surras valeram a pena, porque me conservei uma pessoa de bem. Assim, os sermões e as surras foram gestos de amor, para me manter uma pessoa direita e de bem.



Agora à noite me recordei de um dia que o meu pai me carregou nos braços. Eu estava doente. Muito atacado de reumatismo. Naquele dia eu amanhecera com as pernas muito inchadas e fui parar no Hospital. Lembro-me que fui numa ambulância da Polícia Militar de Goiás, que o Tio Divino, da Dona Castorina arrumou para me levar até o Hospital do Rassi, ali perto do Lago das Rosas, em Goiânia, Goiás. O INPS funcionava lá.



Naquele dia eu fui atendido no Pronto Socorro do Rassi e encaminhado para a Policlínica de Goiânia que ficava na Av. Tocantins, no centro da cidade. Então o meu pai me pegou nos braços e me carregou até o ponto de ônibus. Entramos no ônibus. Não lembro se alguém ofereceu um lugar para nós. Devem ter oferecido, mas não me lembro.


Na Policlínica tinha muita gente para ser atendida. Se não me engano, o meu médico se chamava Dr. Udirse. Será que ele ainda é vivo? Pesquisei na internet. Meu Deus! Encontrei um Dr. Udirse Rodrigues Do Nascimento, Reumatologista - CRM 711, Goiânia - GO. Deve ser ele mesmo. Fiquei com vontade de reencontrá-lo, ainda que não me lembre de suas feições. Mas ele fez um bom tratamento em mim e, durante muitos anos, eu não tive mais problemas com reumatismo. Acho que pagaria uma consulta só para conversar um pouco com ele. Faz tanto tempo!


Lá na Policlínica nós nos sentamos em um banco de cimento que ficava na beira de uma parede, se não me engano. Estava lá a Dona Dayse, Diretora do Colégio Estadual Dom Abel, onde eu estudava. Meu pai estava comigo no colo e ela perguntou-lhe porque ele estava comigo no colo. E meu pai explicou. Mas ela duvidou que eu estivesse tão mal, mesmo.


Dona Dayse pediu ao meu pai que me deixasse no meio da sala de espera e então ele veria que eu conseguiria andar e voltar ao banco para me sentar. Não sei por que, mas meu pai fez o que ela mandou. Acho que ele não queria discutir com a Diretora, que era uma autoridade diante da simplicidade de meu pai, recém-chegado de Torixoréu, MT, onde vivíamos em um pequeno sítio. Então ele me deixou no meio da sala. E aí a professora me chamou para me sentar. Lembro-me que somente dei uma olhada para ela e desmaiei. Quando acordei estava no consultório do Dr. Udirse, em uma maca.


Dr. Udirse decidiu que eu deveria ser internado. Fui encaminhado para o Hospital São Jorge, que ficava próximo da antiga Rodoviária e do Lago das Rosas. E novamente meu pai me pegou nos braços e saiu do consultório me carregando. Dona Dayse ainda estava na sala de espera. E ao nos ver ela se aproximou de meu pai e conversou com ele. Ela deu o dinheiro do táxi para que o meu pai me levasse para o Hospital São Jorge. E assim nós fomos para lá.


Era o ano de 1972 e eu estava com 14 anos de idade. Hoje estou com 59 anos. Já se passaram 45 anos.


Essa foi uma boa lembrança que tive de meu pai, de um dia em que ele me carregou nos braços e me pôs no colo. Ainda que as boas lembranças pareçam tão poucas, vou torná-las grandes, sempre me relembrando delas. E assim, não te esquecerei, meu pai! Não te esquecerei!
Saudades!

Poxoréu, MT, 13 de agosto de 2017.


Izaias Resplandes de Sousa