quinta-feira, outubro 15, 2015

Viva o Professor!

Viva o  professor!

Prof. Izaias Resplandes


Antes de dizer tudo o que eu vou dizer depois, eu quero dizer uma coisa muito importante, já que muitos vão ler apenas as primeiras linhas dessa redação e não vão chegar até o grande final, onde eu vou repetir o que digo agora: Ainda que muitos pensem o contrário, de professor para professor, eu te digo: vale a pena ser professor. Se tivesse outra vida, eu faria de novo o mesmo percurso, porque eu sou o que sou. Eu sou professor e amo ser professor. E quero te cumprimentar por também ser e amar o que você é: um professor. Parabéns a você, meu colega de caminhada, meu amigo e meu irmão! Feliz dia do professor!


E então é isso. E agora que já disse o mais importante, eu também quero dizer mais umas coisinhas e gostaria que você lesse e também participasse um pouco dos sentimentos e das emoções que estou sentindo agora, vestido e revestido com peles de professor.

Eu sei que muitos de vocês se lembram de que o professor já foi “o cara”! Ele foi uma pessoa de grande importância. Para alguns, era mais que um pai ou uma mãe. Suas palavras eram ouvidas, seus conselhos eram acatados, suas orientações eram seguidas ao pé da letra. Mas, como já disse: o professor já foi o cara!
Prof. Luís Carlos, Prof. Izaias Resplandes, Profª Márcia Nunes,
 Prof. João de Sousa,  Profª Ana Paula Rossini e Profª Rosana Rocha
Hoje, o professor não é mais nada! Nem a própria escola reconhece a importância de seus professores. Outrora, a escola fazia uma festa em homenagem ao professor. Alunos recitavam poesias, liam mensagens. O dia do professor era um dia muito especial. Mas, como disse: o dia do professor era muito especial!

Hoje, o dia do professor não passa de mais um dia. Um dia normal de aulas! Um dia letivo comum. E todo mundo aceita isso com naturalidade. Por que parar? Por que feriar? Já não tem o dia do funcionário público? Então! Vamos feriar no dia do funcionário público e então comemoraremos também o dia do professor.

Na hora de fazer o calendário escolar, a escola tem a prerrogativa de dizer quais os dias que serão letivos, que vão ter aulas e quais os dias que vão ter recesso, que não haverá aulas. No entanto, os próprios professores em função de gestão e de coordenação escolar são os primeiros a puxar o tapete do dia do professor. São os primeiros que alegam que já tem o dia do funcionário público, então porque parar também no dia do professor? Eles esqueceram a resposta. Eles se esqueceram de que se paravam as atividades no dia do professor, porque era o mínimo que a escola podia fazer por ele: dar-lhe um dia de descanso de suas atividades. E é assim que está sendo hoje. Todo mundo esqueceu da importância do professor. Como já disse: o dia do professor não passa de mais um dia!

Profª Alice, Profª Wislene, Profª Saira e Profª Marinalva
E então, o professor já não precisa mais ter o seu dia especial. Se ele for professor funcionário público, comemorará o seu dia junto com os outros funcionários públicos; e se for um empregado comum, que fique do jeito que está. Afinal, o que é que se tem para comemorar? Eu penso que em breve, a escola também vai entender que não há necessidade de se parar no dia do funcionário público também. Para que parar. Já não tem o dia do trabalho, o dia do trabalhador, o dia primeiro de maio! Então! Professor, funcionário público, diretor, secretário, vigia, merendeira e tantos outros profissionais que trabalham na escola são todos trabalhadores. Não precisam de um dia especial para parar de trabalhar. O dia primeiro de maio já basta para todas as comemorações! Como já disse: o professor não precisa de mais um dia!

Profª Adjair Miranda, Diretora da Escola Pe. César Albisetti
Nem todo professor é funcionário público, embora muitos sejam. Mas, o status não é o mesmo, as condições de trabalho não são as mesmas, o stress do dia a dia é muito diferente. O professor é o testa de ferro, é a linha de frente, é a pessoa que resolve, é a face visível da escola. Os outros funcionários públicos da educação, para não generalizar, também têm a sua importância. Eles fazem o trabalho dos bastidores: limpam, guardam, organizam a papelada... Seu trabalho é difícil, mas é um pouco mais tranquilo do que o trabalho do professor. Eles não sofrem a pressão que o professor sofre. Mas, com certeza, eles também merecem ser homenageados. E para isso se pensou no dia do funcionário público, quando todos os funcionários públicos são homenageados. Mas o professor, além dessa homenagem genérica, fazia jus a uma homenagem especial. O professor tinha o seu dia de glória, o seu dia de honra. Mas, como já disse: o professor tinha seu dia de honra!

Profª Marinalva e Profª Wislene
E então! Que mensagem eu vou passar para os meus alunos nesse dia 15 de outubro? Hoje, na véspera do dia, um aluno me disse que amanhã ele não viria à escola em homenagem a nós, seus professores. Já que não tínhamos a coragem de parar no próprio dia, ele não se sentia à vontade de ter que vir à escola cobrar que nós lhe déssemos aulas nessa data. Vários outros alunos me perguntaram se haveria aulas amanhã. E eu, porta-voz da escola, tive de dizer também várias vezes que sim, que haveria aulas, que era um dia letivo normal, que não era feriado, que não tínhamos nada para comemorar e coisas assim. E muitos disseram: mas professor, não é o seu dia! O senhor vai dar aulas no dia do professor? No seu dia? E então, triste e humilhado, sem ter mais o que dizer, eu só pude dizer uma coisa: sim! Como já disse: o dia do professor é um dia normal de aulas!

Profª Leda Lago, Secretária Mun. de Educação
E então é isso. Dia 15 de outubro não é mais nada. Tanto o dia, como o professor também: ambos não passam de um mais nada! Tanto para a sociedade, quanto para a própria escola. Não há respeito, não há glórias, não há valorização, não há reconhecimento, não há parabéns, não há elogios, não há nada, salvo críticas, desprezo, desrespeito e pouco caso. Como já disse: do dia do professor, não há nada para dizer que vá além de tudo o que eu já disse!

No entanto, eu sou eu, homem é homem e rato é um bicho. Não vou ficar de choradeira. Eu nunca fui valorizado mesmo. De que estou reclamando? Durante tantos anos, ganhei uma merreca. Trabalhei em salas de aulas quentes, escrevi em quadros esburacados com gizes duros como pedra. Aguentei as críticas e as humilhações da desvalorização. Eu poderia ter escolhido tantas outras profissões, mas escolhi ser professor. E olhem e escutem bem. Eu não escolhi ser professor porque não tinha outra profissão. Eu tinha. Tornei-me professor, porque alguém me convenceu de que a escola precisava de mim como professor. E fiquei muito feliz com isso.

Prof. José Antônio Vieira e Profª Izabel Vieira
Eu me tornei professor quando ainda nem era professor na verdadeira acepção da palavra. Eu ainda nem tinha concluído o curso de Magistério (em nível de segundo grau, hoje nível médio), quando fui procurado para assumir uma sala de aula como professor regente. Naquele dia, nos anos oitenta do século passado, um diretor me disse que o município de Poxoréu tinha mais de vinte mil habitantes, mas não tinha professores de Matemática. E então, por recomendação de um professor amigo, eu fui convidado para dar aulas. E foi assim que eu me tornei professor. Terminei o Magistério. Fiz concurso público. Ainda me recordo de minha boa classificação naquele concurso. Fiquei feliz demais por ser, então, um professor oficial da rede pública mato-grossense. E vesti a camisa. E somei, diminui, multipliquei, dividi... Quantas e quantas vezes eu me desesperei com a falta de aprendizagem de meus alunos e busquei soluções junto com outros colegas para resolver esse problema.

Prof. Sebastião, Prof. Urano, Profª Débora, Detinha, Profª Emily, Lourdes,
Profª Maria Iva, Prof. Izaias, Prof. Gaudêncio, Prof. Luiz Sérgio, Prof. Antenor,
Profª Lenice, Profª Zeny e Profª Adjair Miranda.
Ser professor não é só comparecer na escola e dar suas aulinhas disso ou daquilo. Isso, qualquer um pode fazer. Ser professor é sofrer com a situação da educação brasileira. Ser professor é descabelar em preocupações para encontrar soluções que melhorem a qualidade de vida das famílias que nos entregam seus filhos, como se nós fôssemos “Sassás Mutemas” salvadores da Pátria! Ser professor é crer que os milagres podem acontecer. Ser professor é ter olhos para ver os avanços e progressos de nossos alunos, que outras pessoas não conseguem ver. Ser professor é acreditar que vale a pena trabalhar, até mesmo no dia do professor, porque não existe Pátria, não existe povo, não existe país, não existe gente, não existe humanidade se não houver antes, durante e junto com cada um desses status, um professor para educar e mostrar os rumos a seguir.

Prof. João de Sousa, Dr. Raniere Farias, Profª Sandra Sol, Profª Márcia Lorenzon,
Prof. Luís Carlos Ferreira, Dr. Volnei Lorenzon, Prof. Gaudêncio Amorim e
Prof. Izaias Resplandes
Para os outros, queridos professores, podemos não ser nada. Mas para nós, não. Nós não somos apenas os missionários, nós também somos a própria missão. E tanto o missionário, quanto a missão são importantes. Um não existe sem o outro. Vamos crer que o milagre possa acontecer, como diz o hino. E vamos sonhar com o dia em que as pessoas possam tirar o chapéu para os seus professores e possam cantar para eles uma canção de agradecimento pelas vitórias que conseguiram. Vamos em frente! Ainda há muito por fazer. Enxugue suas lágrimas, lave o rosto, passe uma brilhantina no cabelo, levante a cabeça, assovie uma canção, sorria, seja o palhaço do dia, abrace e abra o seu coração para amar e ser amado. E, por último, me escute: os homens não sabem o que fazem, mas Deus está acompanhando tudo o que você está fazendo e Ele tem uma coroa de honra e de glória para você. Não desanime! Continue na luta. Continue se esforçando por seus alunos, como se eles fossem seus filhos, suas joias e seus tesouros mais preciosos.

Ainda que muitos pensem o contrário, de professor para professor eu te digo: vale a pena ser professor. Se tivesse outra vida, eu faria de novo o mesmo percurso, porque eu sou o que sou. Eu sou um professor e amo ser um professor. 


Viva o professor! Viva eu, viva você, viva a todos os professores desse país!