sábado, dezembro 23, 2006

Os melhores anos da vida

Izaias Resplandes


À luz da eternidade, a vida de uma pessoa é constituída de breves momentos. Mesmo para quem alcança aquelas idades fabulosas, acima dos cem anos, isso ainda é apenas um sopro à vista da vida que dura para sempre. Isso, mal comparando, vez que a única relação entre o finito e o infinito é que um acaba e o outro não. Diz a Bíblia que “para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia” (2 Pe 3:8; Sl 90:4). Mesmo assim, com toda essa brevidade, os anos terrenos de um homem poderão ser os melhores de sua existência eterna, em vista de que, durante eles, este tem a oportunidade de viver o presente da melhor forma que desejar além de poder escolher o futuro que lhe julgar mais conveniente. A vida terrena é uma escola preparatória para a eternidade. É um tempo onde se faz um estágio de vida, onde se anda pelos caminhos que satisfazem ao coração e que agradam aos olhos, onde se goza do bom e do melhor que pode ser encontrado. É um tempo de aprender a fazer as coisas certas e não existe nada melhor do que isso. Todas as pessoas normais desejam agir assim, corretamente. Isso é realmente muito bom (Ec 6:6; 11:9; Js 24:15; Pv 15:24; Jo 1:12).
Há quem pense que a vida terrena tenha que ser pobre e miserável, que o homem não deve desfrutar de nada, abrindo abrir mão de todo prazer referente a esta vida, pensando somente na eternidade. Isso não está certo por completo. Não é o que a Bíblia ensina. Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Todas as coisas são lícitas. Tudo o que existe foi deixado por Deus para o aprazimento do homem. Deve-se pensar na vida eterna, mas também se deve pensar nesta vida. O homem vive em dois mundos. E, em qualquer deles, tem o direito de realmente viver. (Rm 8:28; 1 Co 10:23; 1 Tm 6:17).
Deus não criou todas as coisas terrenas para que o homem simplesmente tivesse que contemplá-las sem poder tirar proveito delas para o seu deleite. O homem foi criado para ser feliz e para ter uma vida prazerosa e agradável. No jardim do Éden, ele podia comer do fruto de todas as árvores que desejasse, tanto é que comeu. Deus pensou no prazer da companhia de uma esposa, dos filhos, de uma família, enfim e providenciou-lhe esse desfrute. Afinal, se o prazer é um deleite divino, por que também não seria humano? Não foi o homem criado à semelhança de Deus? (Gn 2:18; 5:1; 18:12; 1 Sm 15:22; Sl 1:2; Sl 68:6).
É costume das pessoas adultas perguntarem se isso ou aquilo é proibido na igreja ou se isso ou aquilo outro é permitido. Elas agem como crianças sem discernimento, que ainda não sabem o que é bom e o que não presta. Perdem a oportunidade de desfrutar da liberdade para julgar o que o Criador lhes concedeu. É de destacar que Deus somente quer o nosso coração se este lhe for dado de boa vontade, com alegria e não por constrangimento (Cl 2:20-22; 1 Ts 5:21; 2 Co 9:7).
Isso é o livre arbítrio, o qual consiste no poder de decidir o que realmente se quer. Todas as coisas são postas diante do homem, todos os destinos, todas as opções. Cada um é livre para fazer suas escolhas e, evidentemente, arcar com todas as conseqüências, conforme a natureza. O que compra deve pagar; o que paga deve receber; o que recebe deve agradecer. Essa é a chamada lei da causa e efeito teorizada por Newton, segundo a qual, “a toda ação corresponde uma reação”. Esse raciocínio conduz o homem à idéia de liberdade responsável e é isso o que Deus espera de cada um. É esse o comportamento que será premiado por ele no Grande Dia. O destino final, bem como as recompensas e o galardão de cada um, haverá de ser diretamente proporcional às escolhas que foram feitas na vida terrena.
É de saber que o homem foi criado para ser a glória de Deus, para estar em harmonia com Ele. Isso asseguraria a sua felicidade para sempre. Ao tomar suas decisões, o homem deveria levar em conta os dois lados envolvidos, pensando em agradar a si mesmo, mas também em agradar ao Criador. Essa é a lei da boa convivência, seja com Deus, seja com familiares, sejam com os amigos. Se os dois lados estão satisfeitos, então todos serão felizes.
É esse o sentido em que se entende ser os anos terrenos os melhores da vida, visto que neles se têm a grande oportunidade de decidir sobre o futuro. E o que poderia ser melhor para uma pessoa do que ter a liberdade de escolher o seu futuro?
Afinal de contas, ser feliz ou não aqui e na eternidade é uma questão que somente depende de cada um. O homem pode decidir viver feliz apenas para si durante os setenta ou cem anos que Deus lhe der e ser infeliz o restante da eternidade, ou pode decidir desde agora e para sempre, viver para si e para Deus, cumprindo o propósito de sua criação, demonstrando que realmente aprendeu a tirar o proveito esperado dos melhores anos de sua vida. Tudo é questão de como cada um vier a escolher. “Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (Rm 14:12).
Que a vida de todos seja composta de boas escolhas! Que Deus nos abençoe!

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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

A conquista do mundo de Deus

Izaias Resplandes*


Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? (Rm 11:33-34). Mesmo os mais sábios deste mundo têm fracassado, admitindo que a plenitude do saber é praticamente inacessível. Willian Shakespeare, famoso escritor inglês atribuiu a Hamlet, um de seus personagens, uma frase que eternizou esse reconhecimento. Disse ele: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.
Isso, todavia, não significa que tal saber não deva ser perseguido pelo homem. Paulo de Tarso, escrevendo aos filipenses declarou: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3:12).
É de destacar, ainda, a tristeza de Paulo em relação à falta de progresso no conhecimento por parte dos coríntios. Lamenta que eles ainda sejam crianças incapazes de digerirem um alimento mais sólido, um conhecimento mais profundo (1 Co 3:1-2). O mesmo se dá em relação aos hebreus. Segundo o autor, em face do tempo decorrido eles já deviam ser mestres. No entanto, ainda careciam de alguém para ensinar-lhes os princípios elementares dos oráculos de Deus (Hb 5:12).
Uma das condições para o crescimento é o domínio das regras do processo. É cediço que a aquisição de quase tudo nesta vida se dá de forma gradativa. Assim também ocorre em relação ao conhecimento. O saber mais, ou menos, tem uma relação direta com a aplicação que fazemos daquilo que temos aprendido (Dt 29:29; Fp 3:16; Tg 2:22). Deus não lança suas pérolas aos porcos, vez que nos orienta para agir dessa forma em sua Palavra (Mt 7:6). Ele não permitiria que soubéssemos mais do que aquilo que pudéssemos suportar, visto que daquele que mais recebe, muito mais será cobrado (Lc 12:48b). Tal permissão entraria em choque com a leveza do fardo divino, anunciada por Jesus (Mt 11:30). Ele também não permitiria que adquiríssemos o conhecimento de seus mistérios mais profundos para que apenas tivéssemos o gozo do saber ou para que deles fizéssemos uma utilização inadequada. É por isso que muitos daqueles que pensam saber, na verdade não sabem de nada. Nesse sentido estava certo Sócrates, o sábio grego, ao declarar enfaticamente: “tudo o que sei é que nada sei”. O conhecimento, como o próprio Deus, está tão perto de todos, mas ao mesmo tempo tão longe. Por isso é preciso saber a maneira certa de encontrar a um e ao outro (At 17:27).
A caminhada se dá com um passo de cada vez. A metodologia do crescimento é a utilizada pelo escriba e sacerdote Esdras: aprender, praticar e ensinar aos demais. Deus espera que sejamos multiplicadores de boas práticas e não de meras teorias (Ec 9:7; Ef 2:10; 2 Tm 3:17). O saber dissociado da prática não vale nada. “A fé sem obras é morta” (Tg 2:26). Todavia, sempre avançando, Deus espera que esquadrinhemos suas verdades e que o saber do homem se multiplique (Dn 12:4); espera que sejamos sábios e aptos para responder de forma adequada a todo aquele que O afronta (Pv 27:11; Mt 22:29; 2 Tm 2:15; 2 Pe 3:18).
É de saber que o Todo Poderoso não criou o mundo para que permanecesse incógnito, desconhecido. Pelo contrário, Ele deixou chaves para que os homens descobrissem, ao seu tempo, todos os mistérios envolvidos em sua criação e se utilizassem desse conhecimento em seu próprio benefício (Dt 29:29). Destaque-se que os primeiros verbos que Deus usa na sua comunicação com o homem são flexionados no modo imperativo. São ordens para fecundar, multiplicar, encher e sujeitar a terra, dominando sobre todos os animais que nela vivem (Gn 1:29). Está claramente evidenciado que o mundo de Adão não se limitava aos simples atos de cultivar e guardar o jardim edênico (Gn 2:15). Deus determinou claramente que o homem, palmo a palmo, conquistasse os segredos do mundo, tendo o Éden como ponto de partida. Uma descoberta levaria a outra, através de um efeito dominó, até que, de modo sempre crescente o homem completasse sua medida de saber (Gl 3:24; Fp 3:13-15; 2 Tm 4:7; 1 Jo 3:2).
Além disso, é de destacar que o conhecimento é sempre renovado. As palavras divinas são as mesmas, mas a aplicação vai se adequando aos novos tempos. Muitas das coisas que nossos pais aprenderam, hoje nós não precisamos mais. Não há um limite a ser esgotado, de forma que não se tenha mais o que aprender. Ninguém se forma completamente em conhecimento cristão. Estaremos sempre em formação. A conquista do mundo de Deus é algo processual que tem a duração de uma vida inteira. E esse mundo se renova de vida para vida (Sl 104:30), sendo o mundo de cada um diferente do mundo dos demais. Observe-se que, passados tantos séculos desde o início memorável, ainda não temos uma clara noção da amplitude dos conhecimentos guardados pelo Criador em favor do homem. Quanto mais se descobre, mais se verifica que há por descobrir. Além disso, é de ver que muitos dos segredos divinos não estão presentes no planeta Terra. Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos (Sl 19:1). O firmamento é o espaço sideral. A conquista da terra implica a conquista do espaço. O nosso planeta nada mais é do que uma das escalas do avanço humano no cumprimento do imperativo divino. É provável que tenhamos muitas outras escalas, pois é certo que Ele deseja para nós muito mais do que imaginamos. A Terra não é o nosso mundo – embora para alguns seja e talvez por isso se apeguem a ela com tanto ardor. Ela apenas faz parte dele. O nosso mundo, ainda a ser plenamente conquistado, é o mundo de Deus, os céus, se assim desejarmos chamar (Jo 17:16; Fp 3:20). A conquista do mundo de Deus é a conquista dos céus.
Todavia, tudo começa no Éden. Há quem pense que os primeiros pais eram néscios e não sabiam de nada. Isso não é verdade. Eles eram puros, o que é bem diferente de ser ignorante. É possível que apenas não soubessem discernir entre o bem e o mal, principalmente porque não havia parâmetros para comparação. Tudo o que existia era muito bom (Gn 1:31; 2:17). Se o mundo fosse monocromático, se todas as cores fossem verdes, amarelas, azuis ou vermelhas, onde estaria o arco-íris? Somente é possível a comparação na multiplicidade, na policromia das cores e significados.
A árvore do conhecimento do bem e do mal não tem nada a ver com o conhecimento geral. Diz respeito apenas ao conhecimento específico referente ao discernimento entre o bem e o mal (Gn 2:17). Havia uma reserva divina em relação a esse nível do conhecimento. O homem, embora muito bom (em termos de criação), não foi feito para ser Deus, mas para ser homem e, por conseguinte, não estava apto para a administração desse saber. Aliás, na hierarquia da criação, o homem está abaixo do Cristo (o filho do homem), o qual, por um pouco, foi feito menor que os anjos (Hb 2:7, 9). Existe uma gradação de autoridade. Paulo, escrevendo a respeito do assunto, diz: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1 Co 11:3). Quando Asafe escreve que os homens eram “deuses”, ele não queria dizer que cada um fosse Deus, mas que, sendo filhos de Deus, certamente seríamos deuses (Sl 82:6). É algo bem parecido com a história do “filho de peixe, peixe é”.
Por outro lado, é de destacar que certos saberes são exclusivos para o Pai (Mc 13:32; At 1:7). O conhecimento que possibilitaria o discernimento entre o bem e o mal era parte integrante dessa reserva exclusivamente divina. A falta de competência para administrar tal saber, com certeza levaria o homem à morte. Por isso o “certamente morrerás” dito por Deus. Infelizmente, o homem não acreditou nele. Pagou para ver. Desobedeceu a ordem do Criador, ultrapassou os limites e até hoje sofre as conseqüências daquele ato precipitado. Como já foi dito, o saber traz responsabilidades. Quanto mais se tem, mais se deve. Contrário senso, a ignorância é tolerada por Deus. Ele não leva em conta as coisas erradas que fazíamos pensando que estavam certas. (At 3:17; 17:30; 1 Tm 1:13; 1 Pe 1:14). Cada coisa tem o seu tempo certo (Ec 3:1). Devemos seguir o curso normal delas e ter a paciência de esperar a hora propícia para cada uma. Então, sim, devemos agir para que não sejamos considerados levianos e relaxados com a obra de Deus (Jr 48:10). É provável que até mesmo o mencionado discernimento viesse a se tornar acessível ao homem com o passar dos anos, quando adquirisse maturidade espiritual. Como se sabe, haverá um dia em que, de fato, seremos semelhantes a ele. Então, provavelmente, teremos esse domínio (1 Jo 3:2).
Enquanto isso, a Bíblia nos orienta para buscarmos crescer sempre (2 Pe 3:18). Nesse sentido, é possível que um dia todos possam se tornar mestres na Palavra e serem utilizados como tais, se Deus assim o desejar. Todavia, não passemos o carro adiante dos bois. O Senhor mesmo é o que escolhe e potencializa aquele que um dia será um mestre na Palavra (Ef 4:11). Contudo, o tornar-se efetivamente um mestre é algo que somente se dá com o tempo, através de estudos e experiências vividas. É de observar que, nos dias da criação, Adão era como um cristão novo convertido. Estava cheio de vontades. Tinha um enorme potencial para crescer. Mas, segundo a Bíblia, ele era apenas uma criança espiritual em condições de iniciar a conquista do mundo para o qual nasceu. Como tal, era ainda muito puro e inocente em relação às profundidades do conhecimento. Para crescer, necessitava de nutrimento condizente à sua condição. Veja-se que ele, sequer havia aprendido a se vestir. Faltava-lhe autonomia mesmo para pequenas necessidades como essa. Ao se descobrir nu, sentiu-se envergonhado para estar diante de Deus em tal estado, mas não soube como agir, sendo necessário que o próprio Criador lhe providenciasse as vestimentas (Gn 3:21).
Quantas vezes não estivemos nós em situação semelhante, defrontando-nos com problemas aparentemente tão simples, aos quais não sabíamos dar as respostas? Quantas vezes não nos socorremos dos achismos? Quantas vezes envergonhamos o nosso Senhor ao nos passar por donos de um mundo que ainda não conquistamos? Muitas e muitas vezes! Isso, porém, é algo normal, que soe acontecer com todos os crentes no início da carreira, quando se prefere achar tudo ao invés de assumir a condição de criança espiritual que ainda não sabe quase nada. O que é anormal e muito triste é a existência dessa situação depois de anos e anos de “carreira” sem ter saído do lugar. Infelizmente, sabemos que uma pessoa nessa condição não receberá o bem-vindo de Jesus quando chegar o dia da vitória, em face de haver enterrado o seu talento potencial para a conquista de novas fronteiras para o Seu domínio (Mt 25:24-25). Segundo a Bíblia, esse alegre brado estará reservado apenas para aqueles que não medirem esforços, que não encruzarem os braços e perseverarem conquistadores, trabalhando arduamente até o fim (Pv 24:33; Mt 24:13; Gl 5:7; Ap 2:4-5).
É começo de ano. Desejamos que este 2007 seja realmente ímpar para todos nós. Que saibamos seguir as regras que os verdadeiros heróis da fé nos legaram como exemplos de como o mundo de Deus pode ser conquistado por cada um de nós. E assim, que possamos amar e lutar de forma ilimitada pela expansão das fronteiras de nosso mundo espiritual. Conte conosco. “Para vós outros, [queridos irmãos], abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. Não tendes limites em nós” (2 Co 6:11-12).
Vitória!

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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Neotestamentária de Poxoréu, MT.

sábado, dezembro 16, 2006

O descanso do crente

Izaias Resplandes


O crente é uma pessoa normal, não é um super-homem, não é auto-suficiente. Dentre suas necessidades fundamentais, destaca-se a alimentação. Para obtê-la, requer que despenda energias, que trabalhe. Gn 3:19, 23; Sl 128:2; Ef 4:28; 1 Ts 4:10b-11; 2 Ts 3:10.
Por outro lado, Jesus foi criticado no seu tempo porque estava trabalhando em um dia de sábado, consagrado pela tradição judaica como dia de descanso. Será que existe um dia certo para trabalhar e para descansar? Jesus justificou sua atividade dizendo que seguia o exemplo de Deus Pai que trabalhava e isso lhe bastava. De outra feita, declarou que ele era o caminho, ou seja, o exemplo a ser seguido. Jo 5:17; 14:6.
Trabalhar e descansar. Esse é o tema dessa reflexão.
Em primeiro lugar é de observar as palavras de Jesus em Mc 2:27. “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”. Jesus evoca o momento da criação. Deus trabalhara seis dias e descansou no sétimo. Deus não se cansa, não é como o homem. O que se tem aqui é um princípio. Após o trabalho, o homem tem necessidade de um descanso. O sábado foi criado para atender essa necessidade. Os homens havia trocado a função pela forma, passando a idolatrar o dia do descanso, estabelecendo um rol de regras referentes à sua guarda.
Hoje não estamos mais baixo os rigores da lei judaica, embora também guardemos mandamentos. Todavia, como igreja neotestamentária, nós somente seguimos o Velho Testamento naquilo que se repete no novo, o que não acontece com o mandamento da guarda do sábado. Não estamos mais sob a lei. Estamos sob a graça. Rm 6:14; Cl 2:16; Gl 4:8-10.
Isso quer dizer que não precisamos de descanso ou que não temos direito ao descanso? Absolutamente. Não é porque estamos sob a graça que nos tornamos super-homens. Continuamos tendo necessidade de descansar após o trabalho. Não nos esqueçamos dos exemplos deixados por Jesus. Mt 6:31.
Nesse caso, qual seria o nosso dia de descanso? O sábado ou o domingo?
É aqui que está a questão. Não é o dia o mais importante, mas a necessidade. Podemos descansar qualquer dia, desde que trabalhemos. O que não dá é seguir o ditado nordestino: “oh, como é bom não fazer nada e depois descansar!”. O crente deve trabalhar. Pv 6:6-11. Assim ensinam as Escrituras. Todavia, trabalhando, tem direito ao descanso, seja no sábado, seja no domingo, seja na segunda-feira, seja em qualquer outro dia da semana.
Mas o domingo não é o dia do Senhor? Se seguirmos analogicamente o que Jesus disse a respeito do sábado, se o domingo é o dia dele, então, seguindo o seu exemplo, não há nada demais em se trabalhar nesse dia. Mc 2:28.
Em relação ao domingo, temos a considerar os exemplos da igreja neotestamentária, quando se reuniam para participar da ceia do Senhor, ofertar a Deus e ter comunhão com os irmãos. At 20:7; 1 Co 16:2.
Por outro lado, isso não é uma camisa de força. Devemos entender a Bíblia seguindo a ótica de Jesus, olhando antes de tudo para a finalidade. Cada coisa tem o seu fim determinado. É isso que deve ser observado. Rm 3:1-2 (a circuncisão); 1 Tm 1:8 (a lei); 2 Tm 3:16 (a Escritura); Tt 3:9 (a discussão); Hb 13:7 (a vida).
Por último, é de destacar que a reflexão aplica-se tanto ao trabalho material, quanto ao trabalho espiritual. Ambos são importantes e necessários. Nenhum dos dois deve ser feito além dos limites e contra a natureza. Todos os que trabalham têm direito ao descanso. O fato de uns se dedicarem apenas ao material enquanto outros se dedicam apenas ao espiritual não mudam as coisas. A natureza do trabalho de cada um é questão para outra reflexão. Há tempo para tudo. Ec 3:1.

sábado, dezembro 09, 2006

Meu fardo é leve

Izaias Resplandes


A vida cristã deve ser caracterizada pelo equilíbrio. Nem tanto céu, nem tanto terra. Devemos observar os limites de tolerância em relação a nós mesmos para que possamos nos manter firmes, satisfeitos e felizes com a nova vida que temos recebido de Cristo. A moderação é a virtude que consiste em evitar qualquer excesso. Rm 12:3; Fp 4:5; 2 Tm 1:7.
É verdade que o cristão tem um fardo para carregar. Jesus disse que o seu fardo era leve, mas não que não haveria um fardo para o crente carregar; disse que seu jugo seria suave, mas não que não houvesse um jugo (uma carga). Ele não disse que não teríamos obrigações ou responsabilidades ao nos tornarmos seus discípulos. Pelo contrário, disse que o cristão deveria empregar esforço para entrar no reino dos céus. Mt 11:29-30, 12; Lc 13:24.
Por outro lado, as exigências devem ser proporcionais à capacidade de cada um, a fim de que não seja motivo para o desânimo e a tristeza. As atividades cristãs devem ser prazerosas e não estressantes. Somente se deve aumentar a carga sobre um irmão se isso não vier dar causa à sua derrocada. Os que lideram, devem fazê-lo com diligência, observando essas peculiaridades da Palavra de Deus, para que tenhamos crentes felizes com sua missão, ao invés de pessoas fatigadas desmaiando ante o peso da cruz. 1 Co 10:13; Hb 12:3.
Se um irmão caminha bem e pode suportar mais, certamente não é vedado exigir dele um pouco mais. Todavia, sempre com a devida moderação. O exército precisa estar animado e pronto para responder aos comandos. Isso não acontecerá se tivermos soldados cansados e sobrecarregados. Aliás, a idéia da sobrecarga é contrária às idéias pregadas pelo Senhor. Afinal, o que Ele defende é o alívio, diferentemente dos líderes tipo Roboão que prometem não apenas açoites sobre o povo, mas também o castigo com escorpiões. II Cr 10:12-14; Mt 11:28.
É de observar que uma das conseqüências decorrentes do ato de receber algo é o ato de dar ou de restituir. Essa é uma lição que já está incorporada em nossa consciência ética. Isso é patente: daquele que mais receber mais se requererá. Lc 12:48, Mt 6:12; Lc 7:41-43; Mt 18:32-33.
Nesse sentido, é de ver se o irmão que vai ser sobrecarregado é capaz de suportar o novo fardo com naturalidade, respondendo à altura pelas responsabilidades decorrentes. Veja-se a crítica que Jesus fazia aos fariseus a respeito desse assunto. Eles não tinham esses cuidados e iam colocando fardos e mais fardos sobre os irmãos, sem levar em conta a capacidade de cada um para carregá-los. E pouco se incomodavam com isso. Mt 23:2-4.
É evidente que todo crente é chamado para trabalhar na obra de Deus. E, para tanto cada um é qualificado pelo próprio Senhor Jesus. Por outro lado, o trabalho do cristão em prol do reino de Deus deve ser resultado de um esforço coletivo. É um mister para quatro mãos, onde cada uma deve dar a sua contribuição. Não é tarefa isolada. O fardo é sempre um fardo, ou seja, é pesado por natureza. O que o torna leve é a parceria, é a divisão de atribuições e responsabilidades. Gl 6:2; Rm 12:4-5.
É de recordar que a vida cristã é liberdade e não constrangimento. Se não houver prazer verdadeiro em nosso agir, em oposição ao prazer hipócrita e fingido, não estaremos atuando no Espírito de Cristo. Esse é um agir carnal, que segue as aparências; não é espiritual, pois contraria a natureza da pregação bíblica, Devemos trabalhar, sim, mas dentro de nossos limites. Não temos que aceitar mais um encargo só porque somos crentes responsáveis. Rm 8:8-9.
O fim não justifica os meios. O crente responsável com a obra é aquele que, antes de tudo, é responsável para consigo mesmo. A medida do amor aos irmãos deve ser a medida do amor a si mesmo. Lc 10:27b. Os outros podem até supor os nossos limites; nós temos o dever de conhecê-los, nos adequando a eles. Devemos trabalhar enquanto é dia, enquanto temos condições. E quando for necessário, devemos nos retirar para um lugar solitário, separado dos irmãos, da labuta e de tudo para descansar e reparar as nossos energias. O descanso é uma criação de Deus para nós. Mc 6:31-32; Mc 2:27.
“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim [...], porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Mt 11:29-30.
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Izaias Resplandes de Sousa é membro da Igreja Evangélica Neotestamentária de Poxoréu, MT.