sábado, dezembro 16, 2006

O descanso do crente

Izaias Resplandes


O crente é uma pessoa normal, não é um super-homem, não é auto-suficiente. Dentre suas necessidades fundamentais, destaca-se a alimentação. Para obtê-la, requer que despenda energias, que trabalhe. Gn 3:19, 23; Sl 128:2; Ef 4:28; 1 Ts 4:10b-11; 2 Ts 3:10.
Por outro lado, Jesus foi criticado no seu tempo porque estava trabalhando em um dia de sábado, consagrado pela tradição judaica como dia de descanso. Será que existe um dia certo para trabalhar e para descansar? Jesus justificou sua atividade dizendo que seguia o exemplo de Deus Pai que trabalhava e isso lhe bastava. De outra feita, declarou que ele era o caminho, ou seja, o exemplo a ser seguido. Jo 5:17; 14:6.
Trabalhar e descansar. Esse é o tema dessa reflexão.
Em primeiro lugar é de observar as palavras de Jesus em Mc 2:27. “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”. Jesus evoca o momento da criação. Deus trabalhara seis dias e descansou no sétimo. Deus não se cansa, não é como o homem. O que se tem aqui é um princípio. Após o trabalho, o homem tem necessidade de um descanso. O sábado foi criado para atender essa necessidade. Os homens havia trocado a função pela forma, passando a idolatrar o dia do descanso, estabelecendo um rol de regras referentes à sua guarda.
Hoje não estamos mais baixo os rigores da lei judaica, embora também guardemos mandamentos. Todavia, como igreja neotestamentária, nós somente seguimos o Velho Testamento naquilo que se repete no novo, o que não acontece com o mandamento da guarda do sábado. Não estamos mais sob a lei. Estamos sob a graça. Rm 6:14; Cl 2:16; Gl 4:8-10.
Isso quer dizer que não precisamos de descanso ou que não temos direito ao descanso? Absolutamente. Não é porque estamos sob a graça que nos tornamos super-homens. Continuamos tendo necessidade de descansar após o trabalho. Não nos esqueçamos dos exemplos deixados por Jesus. Mt 6:31.
Nesse caso, qual seria o nosso dia de descanso? O sábado ou o domingo?
É aqui que está a questão. Não é o dia o mais importante, mas a necessidade. Podemos descansar qualquer dia, desde que trabalhemos. O que não dá é seguir o ditado nordestino: “oh, como é bom não fazer nada e depois descansar!”. O crente deve trabalhar. Pv 6:6-11. Assim ensinam as Escrituras. Todavia, trabalhando, tem direito ao descanso, seja no sábado, seja no domingo, seja na segunda-feira, seja em qualquer outro dia da semana.
Mas o domingo não é o dia do Senhor? Se seguirmos analogicamente o que Jesus disse a respeito do sábado, se o domingo é o dia dele, então, seguindo o seu exemplo, não há nada demais em se trabalhar nesse dia. Mc 2:28.
Em relação ao domingo, temos a considerar os exemplos da igreja neotestamentária, quando se reuniam para participar da ceia do Senhor, ofertar a Deus e ter comunhão com os irmãos. At 20:7; 1 Co 16:2.
Por outro lado, isso não é uma camisa de força. Devemos entender a Bíblia seguindo a ótica de Jesus, olhando antes de tudo para a finalidade. Cada coisa tem o seu fim determinado. É isso que deve ser observado. Rm 3:1-2 (a circuncisão); 1 Tm 1:8 (a lei); 2 Tm 3:16 (a Escritura); Tt 3:9 (a discussão); Hb 13:7 (a vida).
Por último, é de destacar que a reflexão aplica-se tanto ao trabalho material, quanto ao trabalho espiritual. Ambos são importantes e necessários. Nenhum dos dois deve ser feito além dos limites e contra a natureza. Todos os que trabalham têm direito ao descanso. O fato de uns se dedicarem apenas ao material enquanto outros se dedicam apenas ao espiritual não mudam as coisas. A natureza do trabalho de cada um é questão para outra reflexão. Há tempo para tudo. Ec 3:1.

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