domingo, fevereiro 22, 2026

Páginas de Revista

 


*Páginas de Revista* 

Izaías Resplandes 

A vida, essa dançarina apressada, não pede licença para girar. Mal nos damos conta e a Terra já completou sua volta em torno do próprio eixo, enquanto nós, passageiros muitas vezes distraídos, tentamos equilibrar o café e a existência. Alguns dizem que o mundo gira; outros, mais céticos, ainda duvidam. Mas, como dizia o velho mestre na escola, o conhecimento exige prontidão. E quem não está pronto, acaba perdendo o espetáculo da translação.

Sentado aqui na Casa do Lago, observo as nove edições da revista do IHG de Poxoréu. São mais que revistas; são troféus de papel e tinta. Outro dia, meu neto Arthur, com aquela sabedoria que só a infância permite, deu o veredito sobre as peraltices que a avó tentava corrigir. Olhou para ela e, com a seriedade de um acadêmico, sentenciou:

— Vovó, não estou fazendo apenas arte. Estou fazendo uma "obra de arte".

Ri sozinho. E não é que o pequeno tem razão? Quando escrevemos, quando registramos a história de nossa gente nessas 106 páginas coloridas, estamos moldando telas que resistem ao tempo. A realidade lá fora corre em alta velocidade, mas aqui, entre um parágrafo e outro, a cena se desenvolve em câmera lenta. As palavras são pacientes: elas esperam pelo leitor, aguardam o olhar que lhes dará vida nova.

Mas para quem escrevo? Se você me lê, já sabe a resposta. Se não me lê, de que adiantaria eu explicar? É o paradoxo do escritor. Lembrei-me de Sócrates, aquele sábio que, por ironia do destino, não deixou uma linha escrita. Ele achava que o texto era estático, uma memória preguiçosa que não sabia se defender. Preferia o olho no olho, o diálogo vivo. Machado de Assis, em suas crônicas, certamente teria uma tirada irônica sobre isso, talvez dizendo que Sócrates nos poupou de seus rascunhos, mas nos condenou a interpretar o que os outros disseram que ele disse.

Eu, porém, escolhi o caminho oposto. Aprendi o valor do registro com meu primeiro professor, meu pai Marcelino Argemiro. Diferente do mestre grego, eu escrevo. Escrevo para que a saudade tenha onde morar. Como na última edição, onde falei de mamãe, Maria Resplandes. No dia 18 de outubro de 2025, o Rio dos Crentes testemunhou uma despedida que Poxoréu não esquecerá. Se eu não tivesse escrito, o tempo, esse devorador de instantes, levaria o brilho daquela emoção.

— Mas Izaias, por que gastar tanto tempo com revisões e releituras? — alguém poderia perguntar.

— Para ver se escrevi certo — responderia eu. — Porque não escrevo para mim. Escrevo para você, com todo o amor que cabe num tintero.

Como diz Leci, com sua suavidade característica: "ensina a quem pensa que sabe de tudo". Missão hercúlea! Melhor é ser como o eterno aprendiz, que folheia a revista do IHG e descobre que cada foto, cada crônica, é um convite para reviver o que a pressa do mundo tentou apagar.

A vida passa depressa demais, é verdade. Mas nas letras, a gente faz o tempo parar só para tomar um fôlego e dizer: "Que coisa linda é a nossa história!".

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Izaias Resplandes é

Advogado, Professor, Escritor, membro do IHG de Poxoréu e da UPE - União Poxorense de Escritores.

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