A Dança das Flores, os 50 da Tia Agda e a Espera do Retiro
Izaias Resplandes
Hoje, 09 de fevereiro, a Casa do Lago decidiu ser palco de um monólogo da natureza: o dia da chuva.
Pela manhã, o céu fez carranca, armou o cenário e anunciou o dilúvio, mas segurou as águas. Foi só à tarde que a cortina se abriu de vez. E aí, meu amigo, choveu a tarde toda.
A chuva teve seus humores. Em alguns momentos, era uma "chuva brava", chuva de pesadelo, batendo no telhado com raiva, lavando a alma do mundo à força. Mas, na maior parte do tempo, Deus mandou a chuva mansa. Calma. Serena. Daquelas que convidam o corpo ao descanso e a mente à viagem.
De barriga cheia, aceitei o convite. Fui para a rede na varanda. O balanço suave e o barulho da água eram a canção de ninar perfeita para uma siesta. Mas, enquanto o sono não vinha, a janela digital do celular se abriu para uma festa que a chuva não apagou.
Vi as imagens de Barra do Garças. Tia Agda Martins completou seu meio século! As fotos mostravam uma alegria contagiante. E lá estava o Tio Carlinhos, irmão dela, com o coração na boca e a poesia na língua. O discurso dele foi animado e terminou com rima de cordel:
"Tia Agda, mulher de fibra, mãe de família, mulher de muito amor, é a caçulinha de Tunico Sousa, que agora cinquentou".
Ri sozinho na rede. Cinquentar com essa fibra é privilégio. Ela avisou que está indo para Goiânia e de lá manda mais notícias da "cinquentação".
Falando em Goiânia, o telefone tocou. Era meu irmão Alcir.
A voz dele estava boa, firme. Disse que está bem, graças a Deus. A preocupação dele era prática:
— E aí, Izaias? Já consertou a S-10?
Infelizmente, tive que dar a notícia da espera.
— Ainda não, Alcir. A oficina não deu sinal das peças. Mas agora, só depois do Carnaval.
Expliquei a ele nossa prioridade sagrada: estamos às vésperas do XLIV Retiro de Famílias aqui no Rio dos Crentes. O carro pode esperar; as almas, não. A S-10 amassada vai ficar na garagem, enquanto nós cuidamos do acampamento do Senhor.
O boletim meteorológico familiar continuou. Meu irmão Antônio postou de Primavera do Leste: chuva sem parar por lá também. O Mato Grosso inteiro parece estar debaixo d'água.
Mas o grande final do dia não veio pelo celular. Veio pelo quintal.
Olhei para fora e vi um espetáculo que me tirou da rede. As flores da Casa do Lago não estavam apenas recebendo a chuva; elas estavam dançando.
Era um balé sincronizado. A água batia nas pétalas, o vento sacudia os caules, e elas respondiam com um movimento de gratidão e resistência. Cores vivas explodindo no cinza da tempestade.
Não resisti. Peguei o celular e saí. Tive que me molhar, sim. A chuva mansa molhou minha camisa, escorreu pelo rosto, mas eu precisava registrar aquilo. Nunca havia visto nada igual. As flores pareciam aplaudir o Criador.
Voltei para a varanda encharcado, mas com a alma lavada. Valeu a pena viver para ver isso.
A noite cai agora. A chuva continua, a Tia Agda celebra, o Alcir se recupera, o Antônio se molha em Primavera e eu, aqui, seco o corpo e guardo no coração a imagem das flores dançarinas.
Casa do Lago, 09/02/2026

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