Domingo de Fernandinho
Izaías Resplandes
Mais uma semana se desfez no tempo. O domingo chegou, trazendo consigo o peso e a leveza que cada um lhe atribui. Para uns, é o portal de entrada da semana; para a maioria que labutou, é o descanso merecido, o fim da jornada. Para um aposentado como eu, poderia ser apenas mais um dia normal no calendário. Mas não é. Hoje é o único dia da semana que meu filho, o Fernandinho, fica em casa. Nos outros dias, a rotina o arranca cedo e só o devolve à noite. Portanto, hoje, sem contestação, é o "Domingo de Fernandinho".
Ontem, minha cunhada Dalvani tentou quebrar essa rotina sagrada. Convidou a Lourdes para ir à sua chácara, num município vizinho. Lourdes, com a firmeza de quem conhece suas prioridades, recusou: "Hoje é o dia do Fernandinho". Dalvani insistiu, propondo um rodízio de churrasco, alegando ser barato, uns cinquenta reais. Lourdes, porém, manteve-se irredutível: "Não estou podendo gastar". O compromisso com o filho e com o orçamento doméstico falou mais alto.
Fernandinho acaba de se levantar. O aroma do café forte, que Lourdes preparou cedo, já preenche o ar. Fernandinho aproveita para tomar uns "cinquencentavo" da bebida, gole por gole, com prazer. Lourdes, por sua vez, hoje limitou-se a uma única volta na pista de caminhada. Queixou-se de cansaço e de dores nos membros superiores. O corpo também cobra seu descanso no domingo.
Fernandinho me encontrou aqui, ao lado da piscina. Há pouco, a bomba do filtro ligou automaticamente, e a água começou a borbulhar em dois cantos. Eu gosto dessas bolhas. Meto o rosto no meio delas e fico sentindo as cócegas, uma carícia líquida e divertida. Daqui a pouco, vou dar meu mergulho matinal, um ritual que cumpro religiosamente.
Outro dia, convidei meu primo Arnaldo para um banho nessas horas. A resposta dele foi emblemática: "Não amanheci sujo". Ri internamente. Eu também não estou sujo, mas a refrescância da água pela manhã é deliciosa. Ou talvez, pensando bem, eu nunca tenha estado realmente limpo. Vivemos submersos num mundo de sujeira, física e moral. O "sujo" está por toda parte, infiltrado nas entrelinhas da existência. Alguém escapa?
Há quem diga que existem almas boas e puras. Mas até quando dura a pureza de um "puro"? Provoquei o Fernandinho com essa questão. Ele, com sua mente perspicaz, me devolveu outra pergunta: "Do ponto de vista filosófico ou do ponto de vista prático?".
Acho que a pureza e a sujeira seguem exatamente essa tendência. A filosófica, a gente estampa, exibe como um troféu de moralidade. A prática, a gente mascara, esconde sob camadas de conveniências. No fundo, todo mundo gosta de varrer um pouco de sujeira para debaixo do tapete. A hipocrisia, afinal, é a rainha incontestável deste mundo. Todo mundo carrega seus "cinquencentavo" dessa riqueza cultural.
Fernandinho comentou que um lugar com zero hipocrisia seria um mundo "sei lá", um mundo de fingimento desmascarado. Respondi-lhe que esse lugar é o céu. Mas será que o céu é esse lugar "sei lá"? Não creio. Acho que o céu deve ser a própria essência da verdade, onde não precisaremos de máscaras.
No entanto, há certas coisas que é melhor não ficarmos falando. Será que essa negação, esse silêncio estratégico, já não é um pouco de hipocrisia? Seria a mascaração da realidade do pensamento para não chocar, para não escandalizar? Eu nem sei. Ou melhor, eu tenho uma ideia, até acho que sei, mas talvez seja melhor, por uma questão de convivência e bom exemplo para o Fernandinho e para os meus netos, ser um pouco "hipócrita" e dizer que não sei.
Eu gosto muito do mundo do "faz de conta". Escrevo tanta coisa sobre ele. É um vasto território, muito maior e mais rico que o mundo real. Ou será que é o mundo do "faz de conta" que é real e o tal "mundo real" não passa de um palco de hipocrisias? Sei lá! Até que sei... mas deixa para lá. É melhor eu parar de filosofar e me jogar nessas bolinhas da piscina!
Jardim Marselha, 29 de março de 2026.

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