terça-feira, fevereiro 10, 2026

A Dança das Flores, os 50 da Tia Agda e a Espera do Retiro

 

A Dança das Flores, os 50 da Tia Agda e a Espera do Retiro

Izaias Resplandes 

Hoje, 09 de fevereiro, a Casa do Lago decidiu ser palco de um monólogo da natureza: o dia da chuva.

Pela manhã, o céu fez carranca, armou o cenário e anunciou o dilúvio, mas segurou as águas. Foi só à tarde que a cortina se abriu de vez. E aí, meu amigo, choveu a tarde toda.

A chuva teve seus humores. Em alguns momentos, era uma "chuva brava", chuva de pesadelo, batendo no telhado com raiva, lavando a alma do mundo à força. Mas, na maior parte do tempo, Deus mandou a chuva mansa. Calma. Serena. Daquelas que convidam o corpo ao descanso e a mente à viagem.

De barriga cheia, aceitei o convite. Fui para a rede na varanda. O balanço suave e o barulho da água eram a canção de ninar perfeita para uma siesta. Mas, enquanto o sono não vinha, a janela digital do celular se abriu para uma festa que a chuva não apagou.

Vi as imagens de Barra do Garças. Tia Agda Martins completou seu meio século! As fotos mostravam uma alegria contagiante. E lá estava o Tio Carlinhos, irmão dela, com o coração na boca e a poesia na língua. O discurso dele foi animado e terminou com rima de cordel:

"Tia Agda, mulher de fibra, mãe de família, mulher de muito amor, é a caçulinha de Tunico Sousa, que agora cinquentou".

Ri sozinho na rede. Cinquentar com essa fibra é privilégio. Ela avisou que está indo para Goiânia e de lá manda mais notícias da "cinquentação".

Falando em Goiânia, o telefone tocou. Era meu irmão Alcir.

A voz dele estava boa, firme. Disse que está bem, graças a Deus. A preocupação dele era prática:

— E aí, Izaias? Já consertou a S-10?

Infelizmente, tive que dar a notícia da espera.

— Ainda não, Alcir. A oficina não deu sinal das peças. Mas agora, só depois do Carnaval.

Expliquei a ele nossa prioridade sagrada: estamos às vésperas do XLIV Retiro de Famílias aqui no Rio dos Crentes. O carro pode esperar; as almas, não. A S-10 amassada vai ficar na garagem, enquanto nós cuidamos do acampamento do Senhor.

O boletim meteorológico familiar continuou. Meu irmão Antônio postou de Primavera do Leste: chuva sem parar por lá também. O Mato Grosso inteiro parece estar debaixo d'água.

Mas o grande final do dia não veio pelo celular. Veio pelo quintal.

Olhei para fora e vi um espetáculo que me tirou da rede. As flores da Casa do Lago não estavam apenas recebendo a chuva; elas estavam dançando.

Era um balé sincronizado. A água batia nas pétalas, o vento sacudia os caules, e elas respondiam com um movimento de gratidão e resistência. Cores vivas explodindo no cinza da tempestade.

Não resisti. Peguei o celular e saí. Tive que me molhar, sim. A chuva mansa molhou minha camisa, escorreu pelo rosto, mas eu precisava registrar aquilo. Nunca havia visto nada igual. As flores pareciam aplaudir o Criador.

Voltei para a varanda encharcado, mas com a alma lavada. Valeu a pena viver para ver isso.

A noite cai agora. A chuva continua, a Tia Agda celebra, o Alcir se recupera, o Antônio se molha em Primavera e eu, aqui, seco o corpo e guardo no coração a imagem das flores dançarinas.

Casa do Lago, 09/02/2026

O banho das flores

 


O Banho das Flores

Izaias Resplandes 

A noite foi de chuva generosa, daquelas que lavam a alma e renovam os pactos com a terra. Nesta manhã, a poeira deu trégua e o cenário na Casa do Lago é de uma vivacidade absoluta. As plantas acordaram radiantes, mas são as flores que roubam o espetáculo. Gotas de cristal ainda repousam sobre as pétalas mimosas, como joias que a madrugada esqueceu pelo caminho.

Não resisti. Peguei a câmera para registrar esse "book" das minhas princesas vegetais. Enquanto as fotografava, pensava na elegância de quem sabe florescer com o tempo: as flores parecem se enfeitar para a festa de 80 anos da prima Zuraide Sousa de Oliveira, que hoje, neste 10 de fevereiro, completa oito décadas de luz. E, no compasso da renovação, celebram também os 5 aninhos do meu sobrinho-neto Luiz Cândido. A vida é esse ciclo eterno de primaveras.

De Goiânia, recebo as cores da Tia Agda e sua "cinquentaçao", fotos que transbordam uma energia contagiante. Pelo WhatsApp, converso com minha filha Mariza, que de Rondonópolis traz notícias de sua própria jornada. Ela observa, com a sabedoria de quem vê além, que a mãe, Lourdes, e a tia Agda parecem ter bebido da mesma fonte de vitalidade e vaidade sadia.

Mariza compartilha sua rotina de cuidados — o treino cedo, o pilates, a disciplina na alimentação e o onipresente conselho materno: "Bebe água, filha!". Ver minha filha assim, dedicada ao próprio bem-estar, enche meu coração de orgulho. Eu a encorajo daqui: a firmeza no autocuidado é o que faz o dia no mundo valer a pena.

Aqui fora, a calçada ao redor da casa é o meu santuário. A estrada hoje está "barrenta" por causa da chuva, mas a calçada nos abraça. O barulho da água corrente que não para de cair em nosso reservatório na área, quando passamos, é a sinfonia que dita o ritmo dos nossos passos. Eu e Lourdes caminhamos juntos. Sabemos que ferro parado enferruja e água parada apodrece. Queremos a agilidade da prima Zuraide aos 80, e quem sabe, o fôlego para os cem.

Caminhar em casal é ter um estímulo constante ao lado. Lurdes é o meu norte, e eu espero ser o dela. Enquanto nossos pés tocam o chão, o pulsar da felicidade bate rítmico no peito. É uma estrada de vida feliz que percorremos, passo a passo, sob o olhar atento das flores que parecem declamar poesias para nós. Mando mensagens para os parentes, amigos e irmãos de fé:

"Não fique parado. Venha caminhar com este "velhinho" e sua companheira. Afinal, a vida é movimento e beleza, e hoje ela acordou lavada e perfumada".

Casa do Lago, 10 de fevereiro de 2026, de manhã.

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