quinta-feira, agosto 07, 2014

Bacuriesia Poxorense


FÉRIAS DE JULHO
IV
BACURIESIA POXORENSE

Izaias Resplandes

A gente vive no meio de tanto corre-corre que não é capaz de ver a maioria das belas coisas que Deus fez ao nosso redor. Nessas férias de julho eu tive a oportunidade de parar um pouco em minha corrida e caminhar em passos mais lentos com algumas pessoas muito especiais para mim e que imagino não ter dado a atenção devida. Foi aí que eu vi a Bacuriesia Poxorense!
Mas antes de falar da Bacuriesia, deixe-me lembrar um pouco de algumas dessas pessoas que eu vi e que não poderia ter deixado de ter visto, porque elas são os patriarcas e matriarcas de minha família.
E então, deixa eu falar um pouco deles...
Izaias Resplandes de Sousa e João Berocan de Sousa
Vou começar lá pelo Pouso Alto, onde eu encontrei Tiberó. Ele é um dos irmãos de meu pai. É mais velho que o carreiro Marcelino. Seu Marcelo nasceu em 1937, logo depois de Tiberó, que nasceu em 1935, embora nos documentos, os dois tenham nascido em 1935, com diferença de dias. É que naquela época se registravam as pessoas no período de eleições, para se ter mais votos na família e poder exigir mais compromisso dos candidatos com aquele interiorzão onde vivíamos, encravado lá no Pé da Serra da Irara, a duas léguas do velho Pouso Alto, onde dizem que os antigos boiadeiros, depois de darem de beber aos seus bois da água gelada do Marruais, os colocavam para adormecer e descansar das longas e poeirentas jornadas que faziam, de fazenda, em fazenda Mato Grosso afora.
Tio João Berocan de Sousa (TIBERÓ) e sua esposa Tesilda Pereira de Sousa (TITEZILDA)
Tiberó já está cansado de trabalhar. Ele não quer mais saber de correrias pra cá e pra lá. Ficou viúvo de Titezilda, sua companheira de nem sei quantos anos. Sei que quando eu nasci, Titezilda já era a mulher de Tiberó. E nós gostávamos de ir passear na casa dela, porque lá sempre saía alguma coisa boa pra gente comer. Era a maneira dela nos agradar e que agradava mesmo. Nas minhas mais gostosas lembranças de Titezilda sempre estamos pertos do fogão de lenha, em sua cozinha.
Titezilda também gostava de plantar uma hortona, com muitos tipos de plantas. Mas o seu carro-chefe era o coentro, o alho e a cebolinha branca. Todo ano ela colhia litros de sementes de coentro para plantar no ano seguinte. E fazia réstias e mais réstias de alho e cebola. Acho que ganhava muito dinheiro naquele serviço, mas também pode ser que não.
Dinheiro, nos meus tempos de menino, valia muito. Eu me lembro que com uma moeda eu enchia os bolsos de caramelo nos bolichos que haviam por aquela redondeza. Havia o  bolicho do Mané Bizuta, o bolicho do Tirani e muitos outros. Inclusive, meu pai também tocou um bolicho por muito tempo, tanto lá na fazenda do Pé da Serra, quanto lá no Pouso Alto.
Iraildes Pereira de Sousa (filha de Tiberó)

Bom, mas eu estava falando do Tiberó... Pois é... Encontrei o meu velho tio de 79 anos passando uns dias lá no Pouso Alto, na casa de sua filha Iraildes. Foi um encontro bom demais. Eu não me lembro de já ter caminhado algum dia com Tiberó. Mas naquele dia nós caminhamos, falamos até escumar o canto da boca... Tiberó disse que eu era um “Sousa” mesmo, porque os Sousas é que tem essa mania de conversar ser parar. Eles nem terminam um assunto e já vão passando pra outro e não param... Sorri gostoso.

Izaias Resplandes na Cachoeira da Cabeceira Alta (Fazenda do Zé do Odilo)
É! Acho que nós somos bem falantes mesmo, assim como diz o Tiberó. E então, como eu disse antes, nós passeamos pelas casas de alguns de meus primos... Até numa cachoeira linda que tem lá na casa do primo Zé de Odilo, nós fomos. Tiramos fotos, comentamos a beleza do lugar... Foi demais. É claro que eu aproveitei para tomar um belo banho naquelas águas frias que só vendo.


Tia Leidomar Martins de Sousa

Depois eu vi Tialeide. Ela é da segunda geração dos irmãos de meu pai. Vovô Tunico se casou por duas vezes. Primeiro, com minha vó Maria, com a qual teve Tikiló, Tijosias, Tirani, Timarina, Tiberó, o Timarcelo – que é meu pai, o Tiodilo, a Tipaulina e a Tizulmira. Nove filhos. Depois que minha vó morreu, ele se casou com Dona Loriana. Com ela, vovô teve o Tieriovaldo, a Tialeide, o Tieriovan, o Tiluciano, o Ticarlinhos e a Tiáguida. Eles ainda tiveram uns gêmeos que nasceram e morreram em poucos dias. De forma que só estou contando os seis que viveram mais, pois os outros eu nem conheci. Então vovô Tunico teve quinze filhos, contando das duas mulheres. Dezessete com o Timarçal e a tia Maria Joana, que o vovô também criou como seus filhos. O Timarçal era filho da Tikló com o Tialfredo, o primeiro marido dela. E a tia Maria Joana era uma filha que a Vó Loriana já tinha quando casou com Vô Tunico.
Tia Leidiomar Martins de Sousa, na beira da bica que abastece a piscina, antigo calabouço
Tialeide é mais nova do que eu, mas também já está cansada daquela lida dura da fazenda. Tem vontade de mudar pra cidade, principalmente agora que os filhos todos já estão lá. Acho que vai acabar mudando. Mas, enquanto esse dia não chega, ela continua ali na Fazenda da Mata, na casa onde nasceram a maioria dos filhos e muitos dos netos de vovô Tunico. Eu mesmo nasci ali, naquela velha fazenda, a qual, para mim é e sempre será o lugar que e mais lindo do mundo.
Minha esposa Maria de Lourdes Resplandes, Tia Leidomar e Tio Osvaldo, seu esposo
Tialeide não nega nenhum sorriso quando nos vê. Ela nem precisaria dizer muita coisa. Só o seu sorriso já valeriam as férias. Mas ela é muito atenciosa. Veja que nós chegamos tarde da noite lá na casa dela, mas ela estava nos esperando pra jantar. Eu tinha falado que ia pousar lá e então ela fez uma janta para nos esperar. Essa é a Tialeide.
Sede da Fazenda da Mata, onde nasci e que hoje pertence à Tia Leidomar e Tio Osvaldo
Ficamos até bem tarde da noite conversando e falando da família. Vimos fotos. Lembramo-nos de muitas coisas boas. No outro dia cedo caminhamos mais um pouco ali por perto da casa, onde ela me mostrou sua horta bem cuidada e outras plantações. O prazer de alguém que mora na roça é mostrar suas plantas. Aproveitei aquela hora para dar uma olhada no chiqueiro e ver os porcos do Tiosvaldo, marido de Tialeide. Tinha dois “capadão” bem bonitos lá no chiqueiro. Logo, logo algum deles vai cair na faca. Essa é uma das coisas boas da fazenda. Lá pode até faltar aquelas novidades da cidade, mas sem carne a gente não fica. É carne de porco, carne de galinha, carne de gado, carne de caça, peixe... Isso tudo a gente sempre tem lá na fazenda, com fartura. Não vou dizer peixe grande, mas umas piabas a gente sempre consegue pescar ali naqueles córregos. Eu me lembro de que uma vez eu pesquei uma piaba com um anzol sem isca. Eu ia passando perto de um poço que tinha na grota do Tiberó, quando ia lá pra casa de meu pai, vindo da fazenda de meu avô. Então joguei o anzol no poço, apenas por jogar. E foi aí que senti a mordida. Fisguei! E lá estava a bitela. Ré-ré-ré... Vocês estão pensando que é só pescador de cidade que tem dessas histórias. Nós também pescávamos lá na fazenda... Eu tive até um primo, que já morreu, que ficou conhecido como “Piaba”, de tanto que ele gostava de pescar. Era o Valdeson da Timarina, irmão do Beraldo e do Toim. Eu gostava muito dele. Pescamos juntos algumas vezes lá em Alto Araguaia, quando eu fiquei morando na casa deles para estudar. Também tenho boas lembranças daquele tempo ali. Talvez algum dia eu conte essas histórias.
Primo Rafael Rodrigues de Sousa e seu pai, Tio Eriovaldo Martins de Sousa
Bem, depois que eu sai da Tialeide, fui passear lá no Tieriovaldo, na Fazenda Sucuri, que pertence à Tia e Dorcilene e suas filhas. É Tieriovaldo que cuida da fazenda. São mais de duas mil hectares. Eles construíram ali uma casa nova e bonita, mas o que me chamou mesmo a atenção foi a velha casa do Tilazo Ambrozo e da Dona Ana, os pais de minha madrastra Maria Cândida, segunda mulher de meu pai.
A velha casa dos Ambrosos ainda está de pé e ainda é testemunha das tantas histórias vividas ali naquele lugar. Dona Ana é filha de tia Carolina, irmã de minha bisavó Maria Cará, a esposa de meu bisavô João Carrijo de Sousa, conhecido como João Bem. Bisavô João Bem é irmão de Bisavô Jerônimo, pai de padrinho Tunico, meu avô.
Eu sei que estive algumas vezes na Fazenda Sucuri, mas não me recordei de nada naquele lugar. Mas nem por isso deixei de apreciar a beleza daquelas paisagens. Dediquei atenção especial à cerca de pedra canga que foi feita em volta da sede da fazenda. Ficou muito boa. É uma cerca para muitos anos. O chiqueiro, onde havia belos capados, também fora feito com pedra canga. Gostei de ver o aproveitamento da matéria prima da região. O material de construção ali sempre foi difícil de conseguir. Me lembro que nos meus tempos de menino, tinha a olaria do Leopoldino, um de meus primos, filho da tia Verginia, irmão de meus bisavós João Bem e Jerônimo Sousa, tia de padrinho Tunico Sousa. Naquela olaria o Leopoldino e seus filhos fabricavam tijolos e telhas para toda aquela região.
Há uma linda represa lá na Fazenda Sucuri. Local para belas fotos, que apressei em aproveitar. Quem sabe quando vou ter uma outra oportunidade de estar lá.
Depois do almoço, pegamos a estrada para Torixoréu, a sede do Município, onde Tiáguida nos esperava com os filhos Renan e Layla para assistirmos o jogo entre Brasil e Chile. Acho que foi o jogo pelo qual eu mais torci em toda a minha vida. E nós ganhamos, embora tivemos que por à prova, nos pênaltis, o goleirão Júlio César, que foi dormir como herói nacional naquele dia.
Escrevendo sobre a partida, o Portal UOL registrou o seguinte: “A seleção brasileira teve sua primeira prova de fogo na Copa do Mundo. E passou raspando. Dominada na maior parte do jogo, sofreu demais diante do antigo 'freguês' Chile e empatou por 1 a 1 no tempo normal. Nos pênaltis, porém, brilhou a estrela de Júlio César. O goleiro defendeu duas cobranças, salvou o Brasil de uma eliminação precoce e classificou os anfitriões para as quartas de final”.
(Disponível em: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/06/28/julio-cesar-brilha-nos-penaltis-e-brasil-elimina-chile-em-jogo-dramatico.htm>. Acesso em: 07 ago. 2014).
Passei o dia em Torixoréu, limpando as vistas nas belas praias de nosso querido rio Araguaia. Mas isso já é história para outro dia, pois ainda tenho que falar pelo menos um pouquinho da bacuresia poxorense, que me inspirou nestas lembranças.
* * *
No princípio, eu disse que nas férias de julho deste ano eu consegui fazer uma parada em minhas correrias. Sim, de fato foi assim. E então pude ver em volta de mim, a enorme quantidade de coisas tão belas que Deus criou e colocou em minha volta.
Eu já tinha visto que Deus fizera de minha vida um jardim, um jardim muito especial, cheio de flores de todas as cores e odores. E até essas férias, eu achava que estava bom demais assim. Mas a partir desse julho momento, em que pude apreciar toda a riqueza dos detalhes de cada uma das flores do jardim de minha vida, eu vi que nenhuma delas, por mais especial que fosse, era igual à flor que encontrei e apreciei de fato, em todos os detalhes durante todo esse mês de julho de 2014 e que mostrei para todo o mundo em muitas e muitas fotos que postei na internet.
A flor a que me refiro é belíssima. Eu já a tinho visto várias vezes, mas não com essas cores, com esses odores. A minha flor de julho era diferente de todas as outras. Era uma flor tal, que não me lembro de já tê-la encontrado antes com essa formatação. E depois de vê-la, eu entendi que, sendo assim tão maravilhosa, ninguém pode deixar de cultivá-la no seu "Jardim Secreto", como diz meu amigo Osmar do Nascimento, um incorrigível poeta amante das flores.
Eu sei que como eu, a maioria das pessoas estão sem tempo, por causa dessa grande competição promovida pela nossa sociedade capitalista, que acaba envolvendo a todos nós. Eu também sei que todos querem vencer, subir ao podium e receber uma medalha de ouro ou de prata. Certa vez eu até falei dessa corrida, lembrando que ninguém quer mesmo uma medalha de bronze. Ou é ouro, ou é prata, ou não é nada. Eu já acrescentei algumas ideias nesse pensamento tão capitalista e que irei compartilhando pela estrada afora, enquanto a gente vai caminhando. Mas por ora, o que eu gostaria mesmo de dizer a você é que tire alguns minutos de cada um de seus dias para cultivar a mais linda e perfumada de todas as flores que cada um de nós deve cultivar em seu Jardim Secreto: a nossa família.
Para mim, a minha família hoje ainda mais linda que essa bacuriesia poxorense que desabrochou em um dos cantinhos da “Mata do Vô” do Davi, na cidade de Poxoréu, Brasil. Desejo que a sua também seja assim.

Que Deus nos abençoe! Boa noite a todos.

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