quinta-feira, outubro 11, 2012

A janela



A janela
 - Izaias Resplandes -
Jane Sanchez Lopes, a prefeita eleita de Poxoréu para o quatriênio 2013-2016. Foto: Rubinha Rocha

Há dois tipos de aberturas para se entrar em uma casa: a porta e a janela.
A porta é a entrada correta. Por ela entram as pessoas de bem, as pessoas queridas e respeitadas e, metaforicamente, também é por ela que as pessoas mais preparadas conquistam vagas nas melhores universidades e nos melhores empregos privados e públicos.
A janela não foi inventada para servir de entrada nas casas, mas apenas para ventilá-las e iluminá-las. Todavia, é por elas que os ladrões costumam entrar nas casas; é por elas que fogem os filhos rebeldes que não obedecem aos pais e querem sair de casa quando não estão autorizados; e, pela figura de linguagem, é pela janela que os menos capazes, os menos preparados e os protegidos e apadrinhados ascendem às universidades (através de quotas), aos empregos (através de contratos esdrúxulos e da multiplicação sem limite de cargos comissionados de direção e assessoramento).
Recentemente, li um pequeno artigo do Dr. Garibaldi Júnior, publicado no Blog Poxoréu, editado pelo meu padrinho Dr. João Batista de Araújo Barbosa, o Batistão, intitulado “Santo de casa não faz milagres”. Destaco que o Dr. Garibaldi e Engenheiro Agrônomo formado pela UFMT. Acredito, pela sua inteligência, que entrou na Faculdade por mérito, sem precisar do recurso das quotas. Também prestou o concurso público do Estado de Mato Grosso para “Fiscal de Defesa Agropecuário Florestal – Engenheiro Agrônomo”, para trabalhar no Município de Cuiabá, tendo sido classificado em 11º lugar. É uma pessoa muito inteligente.
Em seu artigo, cumprimenta o Vereador Wellington Barracão, reeleito em Primavera do Leste nestas eleições de 2012. Mas esse é apenas o pano de fundo. O interesse principal da matéria é a defesa de privilégios para “a prata da casa”, os nativos de um lugar, os filhos de uma cidade, em contraposição com “os de fora”. Segundo o articulista, “os de fora” têm sido considerados mais competentes pela própria “prata da casa”, principalmente em época de eleições, quando aqueles se elegem em detrimento dos patrícios. E finaliza dizendo isso não pode continuar dessa forma... Que, “sem dispensar as contribuições dos “de fora” (não sejamos incoerentes),  que os “de casa” tenham prioridade, oportunidade, respeito e valor”.
Embora tenha grande respeito pelo Dr. Garibaldi, eu não concordo com essa tese. Para mim essa é a defesa da entrada pela janela. Todos nós temos oportunidade de estudar e de nos preparar adequadamente para ocupar os espaços oportunizados. Não sou favorável à Teoria das Quotas de Privilégios, ainda que se diga que essa é uma “discriminação positiva”. Não aceito a idéia de que os alunos de escolas públicas tenham que ter privilégios para ingressar nas universidades públicas. Tampouco aceito a idéia de que “os de casa” devam ter prioridade. Respeito as leis, mas também com respeito, promovo e participo do debate para modificá-las.
Nós queremos o império da democracia, a qual se baseia no sistema representativo. Já que o povo todo não tem condições de governar e legislar diretamente, então elege seus melhores representantes para representá-lo nessas esferas de desempenho do poder democrático – o exercício do poder pelo povo e em prol do povo, como dizia A. Lincoln.
É preciso mudar essa forma “bairrista” de pensar. O mundo hoje não passa de uma aldeia global. Não somos mais meros cidadãos de Poxoréu iu de Primavera do Leste,ou de qualquer outra cidade. Agora, somos cidadãos do mundo. E temos o direito de participar da tomada das decisões que acharmos mais justas em todo lugar. É assim que discutimos o controle do clima, o uso de armas nucleares e químicas, a quebra de patentes para remédios essenciais etc.
Politicamente, não podemos mais admitir essa idéia de ter que votar em alguém simplesmente porque essa pessoa “é da família”, ou porque alguém “pediu” para votarmos em tal pessoa, ou porque não podemos deixar que “fulano ou sicrano assuma o poder”. Não é por aí. Isso é o maior desrespeito para com qualquer eleitor. É política coronelística, de um tempo que já se foi. Cada um deve votar no que, ao seu juízo for o melhor representante. E cada um tem que ser respeitado no seu direito de decidir. É desrespeito tentar impor um candidato pela janela. Fazer isso é dizer que tal candidato não tem a competência para disputar a inteligência e a capacidade de raciocínio do eleitor.
Nessas eleições de 2012, tivemos três duplas disputando a preferência do eleitorado em Poxoréu. Todas elas da maior competência. O povo analisou, pesou, mediu e decidiu que a melhor dupla para governar este Município nos próximos quatro anos é Jane Lopes e Lena Guedes. E ponto. Através das regras democráticas essas duas respeitáveis senhoras foram consideradas mais aptas para gerir os interesses do povo de Poxoréu do que as outras duas, formadas por: 1) Eurípedes Araújo e Miguel de Moraes, e 2) Professora Tetê e Ivan da Farmácia. Querer impor outro julgamento diferente desse é querer desrespeitar a democracia e defender a ditadura. Nem pensemos nisso. Outro ponto.
Se nós entendemos que o povo não está sabendo escolher, entendamos também o consectário dessa tese: nós que somos formadores de opinião não estamos sabendo formar direito. Então a falha não é do povo que não sabe votar; a falha é nossa, que não sabemos orientar. Dessa forma, ao invés de defendermos a eleição “à força” de nosso candidato, baseado em qualquer espécie de privilégio imoral, saibamos preparar adequadamente os nossos liderados para que eles escolham os mesmos candidatos que nós, não porque estamos pedindo, ou porque são “prata da casa”, mas porque eles também reconhecem que tais candidatos são realmente os melhores para representá-los. E ponto final.

Izaias Resplandes é advogado, professor e Gerente de Cidades.

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