quarta-feira, janeiro 04, 2017

A hora do Ó

A hora do Ó

Izaias Resplandes

“Davi, o ponteiro pequeno já passou em cima do X faz tempo. Está na hora! Vamos pra cama, meu filho”, disse Vovó Lourdes.
“Ah, vovó!  Só mais um pouquinho. Deixa eu ficar acordado só mais um pouquinho”, respondeu Davi meio acordado, meio dormindo.
“Está bem, mas só até a vovó fazer o seu mamá”. E lá se foi para a cozinha, enquanto seu avô Bigodão, escutando tudo, pensava muito preocupado.
Ainda que estivessem vendo o filme “Imagine Só”, que era muito legal, já estava quase na hora do Ó e todos na sala já estavam cochilando fazia um tempão, pois não queriam estar acordados quando ela chegasse. A bisavó Maria chega roncava de fazer tremer os bigodes: ROOOM, ROOOOM, ROOOOOM... Seu ronco a cada tique-taque aumentava o tanto de Ó.
Naquela hora Bigodão deu uma olhada no relógio da parede para ver as horas. E entre as vozes do filme e os roncos da bisavó dava bem para ouvir a voz do relógio dizendo que já se aproximava a terrível e temida hora do Ó.
Tique-taque, tique-taque, tique-taque... Faltavam vinte vezes sessenta tique-taques para iniciar o quarto dia do ano primeiro que vem depois dos quatro primeiros bissextos do século vinte e um. Contei nos dedos, fiz a conta, mas o roncar da bisavó me fez errar.
Levantei. Fui até a janela e olhei o tempo. Ouvi um trovão: TROÃO-VÃO-VRÃO-VRÃO-TROAO-VRÃO...  O céu estava coberto por um véu mais negro que o negro da noite sem lua. Vi que também não havia mais ninguém na rua. Todos tinham ido dormir há muitos tique-taques atrás. Ninguém queria estar acordado quando chegasse a hora do Ó.
Capitão Davi sempre soubera o quanto a hora do Ó era perigosa. Desde os tempos em que ele e Bigodão exploravam a Mata do Vô, que ele aprendeu que criança naquela casa deveria dormir cedo, antes que chegasse a hora do Ó, a hora do pega pra cantá. Vovô Bigodão sempre lhe dizia para tomar muito cuidado, porque quando chegasse a hora do Ó, ele não deixaria ninguém escapar e pegaria todo mundo que estivesse acordado para cantar com ele o terrível canto do Ó, em muitas e diferentes línguas, até não poder mais cantar e cair no sono de cantaço, o cansaço de tanto cantar.
Na verdade, todo mundo lá gostava de cantar. Na hora do almoço cantavam: “AO SENHOR AGRADECEMOS, ALELUIA! O ALIMENTO QUE TEREMOS, ALELUIA!”   Também cantavam na hora da janta e em muitas outras horas. E todo mundo achava legal. O problema era cantar na hora do Ó, porque a música que Bigodão inventava na hora era uma música comprida e sem graça e que não acabava nunca, pois após se cantar em uma língua, ele chamava para cantar em outra língua e outra língua e outra... Aí ninguém conseguia dormir tão cedo, porque aquele Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró não saía mais da cabeça. E quando a gente dormia, acabava sonhando com o canto e acordando de novo. Era muito terrível!
 E o vovô Bigodão começava:
Oh! Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró-Ró! Oh! Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró!
Vamos cantar, ó bisavó: Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.
Vamos cantar neto da Vó: Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.
Vamos cantar Vovó, Vovó: Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.

Agora vocês. Vamos lá. Bis!!!

Oh! Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró-Ró! Oh! Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró!
Vamos cantar, ó bisavó: Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.
Vamos cantar neto da Vó: Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.
Vamos cantar Vovó, Vovó: Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.

 Agora é o canto do POCOTÓ!
Vamos cantar, ó bisavó: PÓ-CÓ-PÓ-TÓ, PÓ-CÓ-PÓ-TÓ.
Vamos cantar neto da Vó: PÓ-CÓ-PÓ-TÓ, PÓ-CÓ-PÓ-TÓ.
Vamos cantar Vovó, Vovó: PÓ-CÓ-PÓ-TÓ, PÓ-CÓ-PÓ-TÓ.

Mais uma vez.... E assim prosseguia, inventando outras rimas esquisitas com o Ó, desafiando os acordados para repetir o verso do Ó que acabara de ser inventado. 

E a partir de agora essa vai ser a história do Ó, que afinal não tinha nada de mais, pois era apenas isso só.

Oh, outro Ó! Então vamos cantar: E ERA APENAS ISSO SÓ!
Vamos cantar, ó Bisavó: Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.
Vamos cantar neto da Vó: PÓ-CÓ-PÓ-TÓ- PÓ-CÓ-PÓ-TÓ.
Vamos cantar, Vovó, Vovó: QUE ERA APENAS ISSO SÓ!


Aí encerrava o Vovô, dando um Boa Noite para todos. Mas ninguém mais respondia. Todos imitavam a bisavó: ROOOM, ROOOOM, ROOOOOM... E se alguém que até então não dormira de verdade, também a imitava até que dormisse, sonhando com aquele terrível canto do Ró-Ró-Ró e Ró-Ró-Ró.

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