sábado, julho 07, 2007

A dívida dos líderes

Izaias Resplandes[i]


Embora se fale em controle de natalidade e em números crescentes de mortos como conseqüência das guerras, epidemias, doenças, fome e miséria, o mundo está cada vez mais cheio. Segundo as previsões, em meados do século ultrapassaremos a casa dos 9 bilhões de habitantes. Em conseqüência disso vêm surgindo problemas de toda ordem, como por exemplo, a produção de alimentos, o efeito estufa, o aquecimento global e o descongelamento das calotas polares. No entanto, poucas pessoas estão realmente preocupadas com o futuro da Terra. A grande maioria age de forma irracional, como anencéfalos. Não pensam. Não se preocupam. Não vêem nada que indague pela busca de soluções, tornando-se também em mais um dos tantos problemas que devem ser enfrentados. Aliás, é de destacar que, indubitavelmente, o maior desafio desse século será fazer com que as massas desinteressadas e sem compromisso que aumentam a densidade demográfica do planeta, possam ser transformadas em agentes multiplicadores de soluções.
É certo que o mundo tem problemas que não acabam mais. Por outro lado, faltam líderes para enfrentá-los, ao invés de ir simplesmente procrastinando, como fazem aqueles que hoje estão nas frentes de comando. Precisamos de homens comprometidos com o planeta e com as gentes que o habitam. Não é possível continuar assistindo de camarote a destruição da vida, em nome de uma ganância sem sentido. A Bíblia pergunta: “De que adianta ao homem conquistar o mundo inteiro e perder a sua alma?” É sabido que até agora não encontramos outros planetas em que a vida possa se desenvolver. A Terra ainda é o planeta vida, que precisa ser cuidada e bem administrada por todos os que dela necessitam. Ela não pertence a um. É de todos nós. Mas, poderá ser de ninguém, se verdadeiros líderes não se despontarem para governá-la em substituição aos atuais.
O líder deve saber o melhor caminho a seguir, além de ser capaz de estimular a confiança do liderado que o segue. Este não sabe para onde está indo. O verdadeiro líder deve ter a supervisão e ser apto a conduzir. Para tal missão, não basta um par de mãos. É preciso ter idéias extraordinárias para multiplicá-las e muita vontade de vencer e de acertar para ter a coragem de materializá-las, de torná-las realidade. As mãos condutoras do líder devem estar por todo o corpo, mas principalmente na mente e no coração. A condução é resultante da aplicação de atos de inteligência e de amor junto aos liderados e em prol de todos. Somente a conjugação desses dois fatores poderá otimizar as possibilidades de sucesso de uma empresa, porque essa é a função que gera o poder real, que envolve a conquista, o respeito e a confiança. É muito superior àquela que produz o poder do dinheiro e das armas e que gira em torno da ambição, egoísmo, ganância, traição e desconfiança.
Precisamos de líderes e é fato que muitos “desejam” sê-los. Todavia, poucos lograrão êxito nesse propósito, principalmente porque não estão dispostos a investir no pretenso objetivo de suas vidas. Aquele que diz querer ser alguém, mas nada faz para materializar tal desejo, na verdade está enganando a si mesmo, porque jamais poderá transformar “seu projeto” em realidade. Isso é um dos consectários da lei de causa e efeito de Newton. Se não for feita alguma coisa para algo ocorrer, salvo por milagre, a lógica é que nada acontecerá. Todavia, o norte indica que devemos agir mais por nossa conta e esperar menos pelos milagres. Hoje eles são cada vez mais escassos. Restringem-se às necessidades inatingíveis por nós e apenas àquelas situações em que são extremamente necessários. Na medida em que o homem desenvolve as potencialidades que recebeu do Criador em sua origem, diminuem-se as necessidades da intervenção divina. Não é preciso que Ele faça aquilo que nós sejamos capazes de realizar. Deus valoriza a sua criação. Ele não estimula a preguiça e a ociosidade, mas a disposição e a ação. É corrente que Ele não move um dedo sequer para realizar aquilo que o homem seja capaz de fazê-lo, embora esteja disposto a fazer o impossível quando este tiver real necessidade de Sua intervenção, for de fato incapaz de agir e tiver a humildade de reconhecer a sua impotência. “Vá ter com a formiga, ó preguiçoso”, diz o sábio Salomão.
Assim, há muitos líderes nominais, mas poucos de fato. E quantos menos forem estes, maiores serão suas dívidas de responsabilidade em relação aos liderados. É de destacar que, embora aos trancos e barrancos, alguns têm sido capazes de se autoconduzirem. Mas apenas isso não é suficiente para torná-los líderes. Não se olvide de que conduzir um seja muito diferente do que liderar um milhão. A massa é totalmente dependente, não tem cérebro. Por isso necessita de alguém que o tenha para evitar que caia nos abismos da vida. Essa é a grande necessidade do momento. Os líderes existentes não são capazes de atender à demanda. Parafraseando o matemático Maltus, poder-se-ia dizer que enquanto as multidões crescem em progressão geométrica, os líderes de fato crescem em progressão aritmética. Por conseguinte, a dívida social aumenta cada vez mais, ampliando a demanda por líderes que estejam dispostos a resgatá-la, pagando o preço que for necessário para serem bem sucedidos.
Esse é o nosso mundo atual. Cheio de gente e de necessidades. Deveras carente de pessoas que desejam se envolver com ele e com as soluções de seus problemas. Qualquer pessoa pode ser um desses homens. Basta desejar, estar disposto a pagar o preço e arregaçar as mangas com unhas e dentes. Esses são os líderes que haverão de resgatar a imensa dívida social que tem sido acumulada pelos “lideres” do passado e do presente. Que aconteça aqui o milagre e que eles possam surgir!


[i] Izaias Resplandes de Sousa é acadêmico de Direito das Faculdades UNICEN em Primavera do Leste, MT.

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