O Silêncio que Carrega o Mundo
por Izaías Resplandes
O domingo amanheceu com aquele silêncio que só a Casa do Lago sabe oferecer. É um silêncio que não é vazio; é preenchido pelo som das águas e pelo pensamento que, vez ou outra, insiste em querer resolver o mundo antes do café. Mas hoje, enquanto olhava a linha do horizonte, lembrei-me de algo que tenho guardado no peito: a beleza de ser carregado.
Muitas vezes, a gente gasta uma energia danada tentando "descer do colo". Queremos ser independentes, resolver nossas pendências, curar nossas próprias feridas e mostrar para o Criador que já conseguimos caminhar sozinhos. Quanta ilusão. A maturidade, essa senhora que chega com as cãs e com o tempo, nos ensina que o lugar mais seguro do universo não é onde nossos pés alcançam, mas onde as mãos d’Ele nos sustentam.
Aprendi que o "problema" — aquele que a gente tanto pede para afastar — é, muitas vezes, o próprio ponto de contato. É o que nos mantém perto, dependentes, sentindo o pulsar da Graça que basta. Se eu não tivesse o espinho, talvez eu corresse para longe, achando que sou gigante. Mas, na minha fraqueza, descubro que sou um filho amado sendo levado para águas tranquilas.
E o mais bonito dessa entrega é que ela nos liberta de nós mesmos. Quando eu finalmente descanso na certeza de que o Proprietário da minha alma tem um inventário detalhado de tudo o que me falta, minha boca se cala para os meus desejos e se abre para a dor do outro. É a "amnésia santa". Como é bom poder orar pela saúde do vizinho enquanto a nossa própria carne desfalece; clamar pelo pão na mesa do irmão enquanto a nossa despensa desafia a lógica.
Isso é o altruísmo que Cristo nos ensinou: não é sobre não ter problemas, é sobre não ser ocupado por eles. É sobre ajudar o próximo a carregar a cruz dele, mesmo quando a nossa parece pesada, porque sabemos que, no fundo, quem carrega tudo é o Pai.
Hoje, meu único pedido é que eu continue assim: pequeno o suficiente para caber no colo, e grande o bastante para amar sem olhar para trás. O Guarda não dorme, e isso me permite fechar os olhos e simplesmente agradecer. Obrigado, Deus!
Casa do Lago, 14/06/2026

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