O Direito de se Inventar: Além da Trincheira do Pão
Izaias Resplandes
Ouvi, recentemente, que celebrar a "vontade de ser" no dia 08 de março seria o mesmo que transformar uma trincheira histórica em um divã subjetivo. Que o pão deveria vir antes do querer. Respeito a crítica, pois conheço o peso do estômago vazio, mas discordo da conclusão. Afinal, de que serve o pão se a alma continuar encarcerada em um figurino que ela não escolheu?
A luta pela sobrevivência e a luta pela identidade não são filas separadas; são a mesma marcha. O sistema que explora o corpo-trabalho é o mesmo que tenta padronizar o corpo-espírito. Quando eu defendo que "ser mulher é ser o que se quer", ou que cada um deve ser o arquiteto do seu próprio destino, não estou ignorando a estrutura social — estou atacando a base dela: a ideia de que somos gado, marcados no nascimento pelo ferro da biologia ou da classe social.
Não basta que o operário tenha o pão; é preciso que ele tenha o direito de decidir se quer continuar sendo operário. Não basta que a mulher tenha direitos trabalhistas; é preciso que ela tenha a soberania sobre sua própria essência. A verdadeira revolução acontece quando o indivíduo percebe que a "genética política" é uma mentira contada para nos manter quietos no lugar onde nascemos.
Eu participo da luta coletiva sendo, visceralmente, um indivíduo. Acredito que um povo forte é feito de pessoas que se recusam a ser "sobras" do sistema. A minha escrita é um convite para que cada um se perceba dentro da coletividade, mas sem se dissolver nela. Se o Mestre multiplicou pães, foi para que os homens tivessem força para caminhar por conta própria.
A paz da aceitação é o túmulo da alma. Eu prefiro a guerra da transformação. Desejo um mundo onde todos tenham o que comer, sim, mas desejo ainda mais um mundo onde todos tenham a liberdade de se inventar. Pois, ao fim do dia, a maior riqueza que um ser humano pode possuir não é o que ele tem no bolso, mas a coragem de dizer: "Eu sou quem eu decidi ser".
Jardim Marselha, 09/03/2026






