sexta-feira, fevereiro 20, 2026

O Voo do Coró-coró

 

O Voo do Coró-Coró e o Abraço que Veio de Longe

Izaias Resplandes 

A neblina se dissipou e a Casa do Lago abriu suas portas para um dos maiores presentes que a vida no campo pode oferecer: a visita de quem amamos. Que dia maravilhoso foi o nosso ontem e hoje!

A calmaria pós-retiro foi docemente interrompida pela chegada dos meus sobrinhos Elias, Gleice e a pequena Tássia Reis. Eles vieram de longe, lá de Brasília, e a presença deles é sempre um acontecimento especial. Elias tem esse dom maravilhoso de me fazer sentir um "tio de verdade" com sua fidelidade em nos visitar todos os anos.

E a Tássia... Ah, a Tássia não precisa me chamar de tio-avô. O abraço carinhoso dela, forte e gentil, e os beijos e sorrisos de alegria quando nos encontramos já dizem tudo. Se eu pudesse sussurrar ao ouvido dela agora, diria: "Tássia, eu gosto muito de ser seu tio-avô, seu vovô, porque tio-avô também é vovô. Te amo, linda!"

A tarde de quinta-feira foi intensa e repleta daquela simplicidade que enriquece a alma. Fizemos a Trilha do Poção para tomar um banho revigorante no Rio dos Crentes. Depois, caminhamos pela estrada de terra da Casa do Lago, devidamente escoltados pelos nossos fiéis guardiões, Shazam e Shakira, que chegaram ao rio abanando os rabos, em clima de pura festa.

Lá no meio da mata, enquanto nos banhávamos nas águas frescas, a natureza resolveu nos dar um espetáculo particular. Um coró-coró, em plena liberdade, pousou perto de nós. O pássaro parecia saber que estava sendo admirado. Fez pose, cantou sua melodia rústica e, percebendo nossa atenção, deu um voo rasante, exibindo sua vaidade.

— Que lindo! — suspirou Gleice, encantada com a cena que a cidade grande não pode oferecer.

O dia foi caindo e a noite nos recolheu para a varanda. Sentamos todos juntos para debulhar feijão de corda — uma daquelas terapias rurais que soltam a língua e aquecem o coração. Jantamos ali mesmo, ao som incessante da água caindo no reservatório. Conversamos, ensinamos, aprendemos. O tempo pareceu parar naquela varanda.

Mas, como diz o ditado, tudo o que é bom dura pouco. Hoje de manhã, sexta-feira, os "Reis" pegaram a estrada de volta: Elias, Gleice, Tássia e até a Maria José (a inseparável boneca da Tássia).

Ficamos aqui, com o coração apertado de saudade, mas transbordando de gratidão. Fiquei tão tocado por esse momento de comunhão que a inspiração bateu à porta. Em agradecimento por essa visita tão cheia de luz, compus estes versos, que agora ficam eternizados no nosso diário:


 _Seja bem-vindo ao nosso lar


Seja bem-vindo ao nosso lar

Nesta casa há lugar pra te abraçar

Sua visita nos trouxe alegria

E a paz do Senhor neste dia!

Como é bom ter você aqui

Ver o seu rosto e te ouvir sorrir

Neste momento tão especial

Receba o carinho da nossa família!

Que Deus te abençoe por onde passar

E guarde os seus passos ao caminhar

Sua presença é um presente do céu

Doce como o favo de mel!

Que o Pai nos proteja, hoje e além

Em nome de Jesus, Amém!

Em nome de Jesus, Amém..._ 


A casa está um pouco mais silenciosa agora. Aguardamos o próximo retorno deles. Por enquanto, a saudade é o troco que a gente paga por ter tido momentos tão felizes.


PARA APROFUNDAR A VIAGEM

Leituras Bíblicas relacionadas

1. O Valor da Visita e da Comunhão

"Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união."

Leitura: Salmos 133:1

(A alegria indescritível de receber a família na varanda).

2. As Aves dos Céus (O Coró-coró)

"E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus."

Leitura: Gênesis 1:20

(A contemplação da beleza da criação em plena liberdade).

3. A Bênção da Partida (Os versos do Avô)

"O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre."

Leitura: Salmos 121:8

(A oração para que Deus guarde os passos de Elias, Gleice e Tássia na estrada de volta).

Casa do Lago, 20/02/2026

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

A Cachoeira do Porvir

 

A Cachoeira do Porvir

Izaias Resplandes 

Quatro meses. O tempo na Terra tem essa régua insistente, que marca os dias com o compasso da ausência. Mas, enquanto o relógio de parede aqui na Casa do Lago dita o ritmo da minha missão, o coração se projeta para onde Maria Resplandes de Sousa agora habita. O apóstolo Paulo, em sua "contemplação visionária", já havia dado o veredito: aquele é o melhor lugar para se viver. E quem sou eu para discordar?

Imagino essa Cidade Santa não como um lugar de silêncio estático, mas como a plenitude de tudo o que experimentamos de mais belo por aqui. Se as águas de Poxoréu nos encantam, como não seriam os rios da eternidade?

Lembro-me, com uma melancolia mansa — nunca com tristeza, pois o amor não combina com o luto amargo —, de um dia em que o céu parecia ter descido um pouquinho até nós. Estávamos em um tour pela região, eu e a trupe dos Carrijos, os filhos de tia Marina e tio Itamario, que passavam férias conosco. No meio do caminho, uma cachoeira. Não era uma queda monumental, dessas que assustam pela altura, mas tinha a delicadeza necessária para o descanso da alma.

O que ficou gravado na retina, porém, não foi apenas o volume da água, mas a imagem da mamãe. Ver Esmeralda, meu neto David e toda aquela algazarra de primos reunidos já seria motivo de festa, mas ver mamãe ali, despojada, brincando na água e se permitindo o puro deleite do balneário, foi um presente do mestre.

As fotos daquele dia são relíquias. Olho para elas e entendo que a vida não é apenas o "trabalho, trabalho e trabalho" que tanto nos consome. O próprio Cristo, em sua missão terrena, sabia a hora de se retirar com os discípulos para o repouso. O descanso é parte da liturgia da vida; é o momento em que a alma se refaz para continuar a jornada.

Hoje, quatro meses após sua partida, a saudade aperta, mas a certeza consola. Sei que meus irmãos compartilham desse sentimento. Estamos aqui, cuidando do que nos foi confiado, enquanto ela já desfruta da cachoeira definitiva, aquela cujas águas nunca secam e onde o sol da justiça nunca se põe.

Desejamos o melhor para quem amamos, e o melhor, sem dúvida alguma, é o Paraíso. Por enquanto, guardo a foto, o sorriso dela molhado pelo frescor daquela tarde em Poxoréu e sigo a missão. Afinal, a caminhada continua, mas o destino já conhecemos.

Casa do Lago, 18 de fevereiro de 2026.

A Sinfonia da Neblina

 


A Sinfonia da Neblina e o Livro de Hóspedes

Izaias Resplandes 

O dia 18 de fevereiro amanheceu com a calmaria típica das manhãs que sucedem os grandes eventos da alma. O XLIV Retiro de Famílias terminou. As duzentas e cinquenta pessoas que encheram o Rio dos Crentes de vida, louvor e passos apressados já voltaram para seus lares. O acampamento repousa, agora, em um silêncio profundo, quase reverente.

Saí para a minha caminhada matinal e a paisagem me presenteou com um espetáculo de mistério, que logo transformei em crônica:

A Sinfonia da Neblina

 A manhã despertou neblinada. Uma névoa baixa e serena repousa sobre a paisagem, convidando o pensamento a vagar junto com os primeiros passos da caminhada. Enquanto a vista tenta desvendar o que se esconde no horizonte de Rio dos Crentes, a velha sabedoria popular ecoa na mente em um duelo de provérbios: diz o ditado que "neblina baixa é sol que racha", mas também se ouve que "neblina na serra é chuva na terra".

 Fica o mistério pairando no ar úmido. Teremos um dia de sol escaldante ou a bênção das águas descendo dos céus?

 A resposta pouco importa quando se presta atenção ao que já acontece ao redor. O acampamento Rio dos Crentes repousa em um silêncio profundo, quase reverente. Contudo, aqui na Casa do Lago, o silêncio não é vazio; ele é preenchido por uma verdadeira orquestra da natureza.

 Os pássaros, em sua infinita alegria matinal, cantam animados, desafiando a bruma e saudando a luz que tenta romper as nuvens. Fazendo o contrabaixo dessa melodia alada, a água da mina segue seu curso incessante. Ela cai, límpida e cristalina, lavando as pedras e embalando a alma de quem passa.

 E assim, embalado por essa sinfonia de águas e pássaros, continuo minha caminhada. O sol pode rachar ou a chuva pode regar a terra, mas a paz desta manhã neblinada já é, por si só, o melhor destino para o dia.

Ao retornar da caminhada, encontrei a Casa do Lago já respirando o ar de normalidade. Esmeralda, com sua eficiência incansável, já havia dado uma "geral" na casa. Tudo em seu devido lugar.

Neste feriado prolongado, nossa Casa de Hóspedes cumpriu seu nobre papel. Tivemos a alegria de hospedar dois casais abençoados: o Pastor Júlio Alt e sua esposa Ana Aline; e o irmão Héli Ricardo, sua esposa Camila e os filhos Júlio e Elisa.

Fiz as contas: com eles, já temos um registro de 26 pessoas que ali ficaram hospedadas desde que construímos esse espaço. É um sentimento indescritível ter pessoas conosco, partilhando o nosso pão e a nossa paz, mesmo que temporariamente. A hospitalidade é um dom que multiplica a alegria do anfitrião.

Mas o calendário não para, e a engrenagem da rotina voltou a girar para todos.

Marçal já vestiu o jaleco e seguiu para sua rotina de trabalho como farmacêutico na Drogaria Ultra Popular.

Luiza, que também esteve conosco sorvendo as bênçãos do Retiro 44, pegou a estrada de volta para o trabalho no Cartório, em Rondonópolis.

E o nosso pequeno Pett, que encheu nossos dias com sua energia neste fim de semana estendido, voltou para a casa da mãe em Poxoréu. O dever chama, e as salas de aula do ensino fundamental o aguardam.

Resta-me, nesta quarta-feira de cinzas e de neblina, uma tarefa burocrática e necessária. Vou pegar o telefone e ligar para a oficina em Goiânia. Preciso saber se o mistério das peças da S-10 já foi resolvido, se todas chegaram e se finalmente posso agendar a viagem para curar a lataria da nossa valente caminhonete.

A neblina lá fora vai se dissipando aos poucos. O Retiro ficou na memória. E a vida na Casa do Lago, com seus mistérios, sua rotina e suas águas incessantes, segue o seu curso.

PARA APROFUNDAR A VIAGEM:Leituras Bíblicas relacionadas:

1. A Hospitalidade (Casa de Hóspedes). "Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos". Hebreus 13:2. (As 26 pessoas que já passaram pela Casa de Hóspedes trouxeram bênçãos como anjos).

2. O Mistério da Neblina e a Confiança. "Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece." Tiago 4:14. (A neblina matinal nos lembra da brevidade da vida e de que o amanhã pertence a Deus).

3. O Retorno ao Trabalho. "E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens." Colossenses 3:23. (Aplicado ao retorno de Marçal à farmácia, Luiza ao cartório e Pett à escola).

Casa do Lago, 18/02/2026

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

A Roça da Casa do Lago


 A Roça da Casa do Lago

Izaias Resplandes 

Nossa roça é um exercício de fé e biodiversidade. Chamo de "superpopulação de plantas", pois aqui temos um pacto com a terra: tiramos uma mata para plantar outra, garantindo que o solo jamais fique descoberto, sentindo-se nu. É uma selva organizada pelo carinho.

O feijão de corda, valente e explorador, sobe pelo pé de alfavaca, conquista o limoeiro e continua sua escalada rumo ao sol. Lá de trás, o mamoeiro observa a cena, quase apreensivo, perguntando-se em silêncio: "Será que esse cipó de feijão vai me pegar também?". Um pouco mais à frente, o jambo, as amarílis e as bananeiras desfilam diante dos meus olhos como modelos em uma passarela verde. Se essa mistura dá resultado técnico, eu não sei; mas sei que é de uma beleza que acalma a alma. Planta-se de tudo um pouco, e colhe-se paz em cada folha.

E a chuva? Ah, ela joga conosco! Vai e volta, num bailado que durou a noite inteira. A grama verde, os hibiscos, o limãozinho, a gueroba e as inúmeras bananeiras... todos agradecem. A chuva lava e rega essa nossa fábrica de alimentos e de estética. Hoje cedo, o mamoeiro nos serviu o desjejum e, olhando bem, já vi outro no ponto de colheita. Vara na mão, mamão no cesto. Amanhã, a doçura na mesa está garantida.

Não custa lembrar nossa regra de ouro: aqui, o desperdício é uma palavra proibida no vocabulário "casalaguense". O ciclo é ativo, dinâmico e sagrado. O que não nos serve de alimento agora, serve aos animais ou vira adubo para as novas mudas. Devolvemos à Terra, com gratidão, o que dela recebemos.

O café da manhã de hoje foi um banquete da roça: mamão suculento, cuscuz com ovo, bolacha caseira, pão e bolo de mandioca. Lourdes (minha eterna Esmeralda) não deixa faltar as delícias que só ela sabe preparar com os frutos do nosso chão. Morar na roça e não desfrutar do que ela oferece seria um desperdício de oportunidade — e oportunidade é coisa que aproveitamos bem por aqui.

Agora, sentado na rede da varanda, recebo o "carinho úmido" de Shazam e Shakira. Eles se aproximam para me lamber e eu caio no riso; é a linguagem deles para dizer que me amam. Ao fundo, o "tererê" da água caindo no reservatório continua sua música original.

Que o nosso dia seja tão fértil e generoso quanto essa terra que nos abraça.

Casa do Lago, 11 de fevereiro de 2026.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

A Especialidade do Dia

 


A Especialidade do Dia


Izaias Resplandes 

Cada amanhecer carrega em si uma especialidade única. É um convite para uma nova alegria, um sentimento inédito e uma emoção que se renova, alimentando a alma com o vigor da vida. Tenho pressa em viver com intensidade cada segundo desta existência, transformando o efêmero em eterno através da memória e da beleza dos detalhes. São os frutos e as flores que me alimentam os olhos, a alma e, acima de tudo, o coração.

Hoje, meus olhos se demoram no cacho de bananas que pende da bananeira, pesado de promessas. Mais adiante, uma flor se eleva aos céus, altaneira e orgulhosa de sua própria existência. E o que dizer daquele arroxeado magnífico das flores do Jequitibá Rosa? É uma cor que parece pintada pela mão do Criador.

Admito que, às vezes, troco os nomes das plantas ou das árvores que me cercam. Mas logo me lembro de que o nome é apenas um rótulo; o que importa é a essência. Cada ser já traz sua identidade impregnada em seu DNA, em cada fibra e folha. É como Lourdes, a minha Esmeralda: ela é única, sem par, uma joia que não precisa de definições para brilhar.

Nessa caminhada pela vida, não estou sozinho. Meus fiéis guardiões, Shazam e Shakira, seguem meus passos por todos os lados. Não economizo nos elogios, pois eles entendem a linguagem do carinho:

— Shakirinha! Você é linda, muito linda!

— E você também, Shazam! Você é lindo, rapaz! Forte, garboso... tem pose de rei.

E como trilha sonora para esse momento, ouço o "tererê" da água caindo no reservatório. É uma música original, orgânica, que nenhum compositor conseguiria igualar. É uma melodia que vem do alto ou que brota da terra; no nosso caso, vem diretamente da mina para o coração da Casa do Lago. É a vida fluindo, pura e cristalina, assim como deve ser cada um de nossos dias.

Casa do Lago, 10 de fevereiro de 2026.

A Dança das Flores, os 50 da Tia Agda e a Espera do Retiro

 

A Dança das Flores, os 50 da Tia Agda e a Espera do Retiro

Izaias Resplandes 

Hoje, 09 de fevereiro, a Casa do Lago decidiu ser palco de um monólogo da natureza: o dia da chuva.

Pela manhã, o céu fez carranca, armou o cenário e anunciou o dilúvio, mas segurou as águas. Foi só à tarde que a cortina se abriu de vez. E aí, meu amigo, choveu a tarde toda.

A chuva teve seus humores. Em alguns momentos, era uma "chuva brava", chuva de pesadelo, batendo no telhado com raiva, lavando a alma do mundo à força. Mas, na maior parte do tempo, Deus mandou a chuva mansa. Calma. Serena. Daquelas que convidam o corpo ao descanso e a mente à viagem.

De barriga cheia, aceitei o convite. Fui para a rede na varanda. O balanço suave e o barulho da água eram a canção de ninar perfeita para uma siesta. Mas, enquanto o sono não vinha, a janela digital do celular se abriu para uma festa que a chuva não apagou.

Vi as imagens de Barra do Garças. Tia Agda Martins completou seu meio século! As fotos mostravam uma alegria contagiante. E lá estava o Tio Carlinhos, irmão dela, com o coração na boca e a poesia na língua. O discurso dele foi animado e terminou com rima de cordel:

"Tia Agda, mulher de fibra, mãe de família, mulher de muito amor, é a caçulinha de Tunico Sousa, que agora cinquentou".

Ri sozinho na rede. Cinquentar com essa fibra é privilégio. Ela avisou que está indo para Goiânia e de lá manda mais notícias da "cinquentação".

Falando em Goiânia, o telefone tocou. Era meu irmão Alcir.

A voz dele estava boa, firme. Disse que está bem, graças a Deus. A preocupação dele era prática:

— E aí, Izaias? Já consertou a S-10?

Infelizmente, tive que dar a notícia da espera.

— Ainda não, Alcir. A oficina não deu sinal das peças. Mas agora, só depois do Carnaval.

Expliquei a ele nossa prioridade sagrada: estamos às vésperas do XLIV Retiro de Famílias aqui no Rio dos Crentes. O carro pode esperar; as almas, não. A S-10 amassada vai ficar na garagem, enquanto nós cuidamos do acampamento do Senhor.

O boletim meteorológico familiar continuou. Meu irmão Antônio postou de Primavera do Leste: chuva sem parar por lá também. O Mato Grosso inteiro parece estar debaixo d'água.

Mas o grande final do dia não veio pelo celular. Veio pelo quintal.

Olhei para fora e vi um espetáculo que me tirou da rede. As flores da Casa do Lago não estavam apenas recebendo a chuva; elas estavam dançando.

Era um balé sincronizado. A água batia nas pétalas, o vento sacudia os caules, e elas respondiam com um movimento de gratidão e resistência. Cores vivas explodindo no cinza da tempestade.

Não resisti. Peguei o celular e saí. Tive que me molhar, sim. A chuva mansa molhou minha camisa, escorreu pelo rosto, mas eu precisava registrar aquilo. Nunca havia visto nada igual. As flores pareciam aplaudir o Criador.

Voltei para a varanda encharcado, mas com a alma lavada. Valeu a pena viver para ver isso.

A noite cai agora. A chuva continua, a Tia Agda celebra, o Alcir se recupera, o Antônio se molha em Primavera e eu, aqui, seco o corpo e guardo no coração a imagem das flores dançarinas.

Casa do Lago, 09/02/2026

O banho das flores

 


O Banho das Flores

Izaias Resplandes 

A noite foi de chuva generosa, daquelas que lavam a alma e renovam os pactos com a terra. Nesta manhã, a poeira deu trégua e o cenário na Casa do Lago é de uma vivacidade absoluta. As plantas acordaram radiantes, mas são as flores que roubam o espetáculo. Gotas de cristal ainda repousam sobre as pétalas mimosas, como joias que a madrugada esqueceu pelo caminho.

Não resisti. Peguei a câmera para registrar esse "book" das minhas princesas vegetais. Enquanto as fotografava, pensava na elegância de quem sabe florescer com o tempo: as flores parecem se enfeitar para a festa de 80 anos da prima Zuraide Sousa de Oliveira, que hoje, neste 10 de fevereiro, completa oito décadas de luz. E, no compasso da renovação, celebram também os 5 aninhos do meu sobrinho-neto Luiz Cândido. A vida é esse ciclo eterno de primaveras.

De Goiânia, recebo as cores da Tia Agda e sua "cinquentaçao", fotos que transbordam uma energia contagiante. Pelo WhatsApp, converso com minha filha Mariza, que de Rondonópolis traz notícias de sua própria jornada. Ela observa, com a sabedoria de quem vê além, que a mãe, Lourdes, e a tia Agda parecem ter bebido da mesma fonte de vitalidade e vaidade sadia.

Mariza compartilha sua rotina de cuidados — o treino cedo, o pilates, a disciplina na alimentação e o onipresente conselho materno: "Bebe água, filha!". Ver minha filha assim, dedicada ao próprio bem-estar, enche meu coração de orgulho. Eu a encorajo daqui: a firmeza no autocuidado é o que faz o dia no mundo valer a pena.

Aqui fora, a calçada ao redor da casa é o meu santuário. A estrada hoje está "barrenta" por causa da chuva, mas a calçada nos abraça. O barulho da água corrente que não para de cair em nosso reservatório na área, quando passamos, é a sinfonia que dita o ritmo dos nossos passos. Eu e Lourdes caminhamos juntos. Sabemos que ferro parado enferruja e água parada apodrece. Queremos a agilidade da prima Zuraide aos 80, e quem sabe, o fôlego para os cem.

Caminhar em casal é ter um estímulo constante ao lado. Lurdes é o meu norte, e eu espero ser o dela. Enquanto nossos pés tocam o chão, o pulsar da felicidade bate rítmico no peito. É uma estrada de vida feliz que percorremos, passo a passo, sob o olhar atento das flores que parecem declamar poesias para nós. Mando mensagens para os parentes, amigos e irmãos de fé:

"Não fique parado. Venha caminhar com este "velhinho" e sua companheira. Afinal, a vida é movimento e beleza, e hoje ela acordou lavada e perfumada".

Casa do Lago, 10 de fevereiro de 2026, de manhã.

O Voo do Coró-coró

  O Voo do Coró-Coró e o Abraço que Veio de Longe Izaias Resplandes  A neblina se dissipou e a Casa do Lago abriu suas portas para um dos ma...