domingo, junho 14, 2026

O Silêncio que Carrega o Mundo

 


O Silêncio que Carrega o Mundo

por Izaías Resplandes

O domingo amanheceu com aquele silêncio que só a Casa do Lago sabe oferecer. É um silêncio que não é vazio; é preenchido pelo som das águas e pelo pensamento que, vez ou outra, insiste em querer resolver o mundo antes do café. Mas hoje, enquanto olhava a linha do horizonte, lembrei-me de algo que tenho guardado no peito: a beleza de ser carregado.

Muitas vezes, a gente gasta uma energia danada tentando "descer do colo". Queremos ser independentes, resolver nossas pendências, curar nossas próprias feridas e mostrar para o Criador que já conseguimos caminhar sozinhos. Quanta ilusão. A maturidade, essa senhora que chega com as cãs e com o tempo, nos ensina que o lugar mais seguro do universo não é onde nossos pés alcançam, mas onde as mãos d’Ele nos sustentam.

Aprendi que o "problema" — aquele que a gente tanto pede para afastar — é, muitas vezes, o próprio ponto de contato. É o que nos mantém perto, dependentes, sentindo o pulsar da Graça que basta. Se eu não tivesse o espinho, talvez eu corresse para longe, achando que sou gigante. Mas, na minha fraqueza, descubro que sou um filho amado sendo levado para águas tranquilas.

E o mais bonito dessa entrega é que ela nos liberta de nós mesmos. Quando eu finalmente descanso na certeza de que o Proprietário da minha alma tem um inventário detalhado de tudo o que me falta, minha boca se cala para os meus desejos e se abre para a dor do outro. É a "amnésia santa". Como é bom poder orar pela saúde do vizinho enquanto a nossa própria carne desfalece; clamar pelo pão na mesa do irmão enquanto a nossa despensa desafia a lógica.

Isso é o altruísmo que Cristo nos ensinou: não é sobre não ter problemas, é sobre não ser ocupado por eles. É sobre ajudar o próximo a carregar a cruz dele, mesmo quando a nossa parece pesada, porque sabemos que, no fundo, quem carrega tudo é o Pai.

Hoje, meu único pedido é que eu continue assim: pequeno o suficiente para caber no colo, e grande o bastante para amar sem olhar para trás. O Guarda não dorme, e isso me permite fechar os olhos e simplesmente agradecer. Obrigado, Deus!

Casa do Lago, 14/06/2026

sexta-feira, maio 15, 2026

Surpresa na Casa do Lago

 


Uma Surpresa na Casa do Lago

**15 de maio de 2026**

A manhã de hoje não foi apenas de caminhada, mas de revelação. Enquanto eu e Zé do Rio percorríamos as margens do nosso espelho d'água, o cenário já nos preenchia os olhos. Observávamos o vigor das palmeiras buritis que plantamos — sentinelas que, em breve, desenharão o horizonte com sua elegância — e o desenvolvimento dos bambuzais, das bananeiras e das flores que dão vida a este chão.

Mas o lago guardava um segredo em suas bordas.

De repente, um lampejo colorido entre o barro e a água me chamou a atenção. Uma concha, aberta como um livro, refletia as cores da manhã com um brilho nacarado, quase místico. Chamei o Zé, que com sua calma habitual, a recolheu. Era um marisco de água doce. Confesso que, de perto, com aquela textura e aquele interior perolado, a emoção é outra; bem diferente de apenas ver imagens em telas de TV.

Fui pesquisar e descobri que esse pequeno habitante é, na verdade, um grande mensageiro. Ter mariscos no lago é o que chamo de "tudo de bom", e explico o porquê: eles são os guardiões da pureza. Como seres filtradores, eles só prosperam onde a água é limpa e generosa em oxigênio. Eles trabalham silenciosamente, filtrando impurezas e mantendo o equilíbrio do ecossistema. São, na prática, o selo de qualidade da natureza para a nossa **Casa do Lago**.

Recolhemos esse exemplar com o respeito que se dedica a um mestre. Agora, limpo e preservado, ele não é apenas um objeto de decoração. É um troféu da biodiversidade.

Ficará aqui, em lugar de destaque, esperando pela próxima visita do **David**, do **Tupande** e do **Pett**. Quero que eles segurem essa concha nas mãos e sintam que a natureza não apenas nos rodeia, ela nos presenteia quando cuidamos bem dela. Que este pequeno marisco conte a eles a história de um lago que pulsa vida em cada gota.

**Izaias Resplandes**

domingo, maio 10, 2026

Saudades de Mamãe

 


Saudades de Mamãe


Izaías Resplandes 


Mãe querida, a luz do meu caminho

Hoje meus braços buscam o teu vulto no vazio

Não tenho mais o teu abraço, o teu carinho

Resta-me o silêncio e este peito frio

Mas guardo em mim a lembrança mais amiga

De cada aurora que vivi ao lado teu

Para aplacar essa saudade que me fustiga

E honrar o amor que você me deu.


Como esquecer o teu zelo, a tua entrega?

Fazia mil coisas para me ver sorrir

A tua alma, que ao filho nunca se nega

Traçava os rumos para eu prosseguir.

Jamais houve dúvida, em nenhum momento

Do imenso afeto que por mim sentia

Eras o porto, o meu maior alento

A própria forma da santa alegria.


Ah, que prazer supremo foi te chamar de mãe!

Viver contigo foi a minha maior glória

E hoje, embora a ausência me acompanhe

Tu és a página mais linda da minha história.

Mãezinha querida, registro com esperança

O teu legado que o tempo não vai apagar.


E se a eternidade um dia me permitir

Atravessar o portal do eterno porvir

Eu sei, minha mãe...

Lá estarei, novamente, ao teu lado!


Saudades...

Eternas saudades, mamãe!


Casa do Lago, 10/05/2026, primeiro dia das mães, sem mamãe Maria Resplandes (26/04/1940 - 18/10/2025)

sábado, abril 25, 2026

O Sheik


O Sheik

Por _Izaias Resplandes_ 

Tudo começou em Goiânia, na época em que o amor entre mim e a Lourdes ainda dividia o muro de casa. Minha casa ficava logo ali, ao lado da dela. E, no pacote desse romance, vinha um pequeno detalhe peludo e teimoso: o Sheik, o cachorrinho da Lourdes.

Quando nos casamos e fomos começar a nossa vida a dois em uma edícula no fundo do lote do meu pai, lá no Setor Bela Vista, o Sheik simplesmente decidiu que o nosso novo lar também era o dele. Fez as malas do jeito dele e se mudou com a gente. No começo, confesso, eu não queria saber de cachorro ali. Eu brigava, tentava espantá-lo, mandava ele de volta para a casa dele. Cheguei até a dar umas chineladas no chão para assustá-lo — *left, left!* —, na esperança de que ele desistisse de mim. Mas não adiantava absolutamente nada. Ele me olhava, abaixava as orelhas, dava uma voltinha e continuava exatamente onde estava: na nossa casa.

Vencido pela teimosia (e, admito, pelo charme daquele bicho), decidi hastear a bandeira branca. Parei de xingar e passei a alimentá-lo e a fazer carinho. Foi a melhor derrota da minha vida. A partir daquele momento, o Sheik me adotou. Ele passou a gostar tanto de mim que nós nos tornamos inseparáveis.

O tempo passou e os ventos nos levaram para Poxoréu. Na mudança, achamos prudente deixar o Sheik em Goiânia. O problema é que a distância revelou o quanto já tínhamos aprendido a amá-lo. A saudade bateu forte, invadiu a casa nova e não nos deu trégua. Foi então que tomei uma decisão: eu precisava buscar o meu amigo.

Fui a Goiânia em uma verdadeira missão de resgate. Naquela época, os motoristas eram rigorosos e não permitiam animais nos ônibus de viagem. Mas o amor sempre dá um jeito. Comprei uma caixa, ajeitei o Sheik lá dentro e o cobri cuidadosamente com a minha blusa de frio. Atravessei a porta do ônibus com a respiração presa, torcendo para que ninguém notasse a minha bagagem clandestina.

Sentei na poltrona e coloquei a caixa no chão, bem apertada entre os meus pés. E foi aí que aconteceu a mágica: o Sheik sentiu o cheiro dos meus sapatos, reconheceu o dono que ele tanto amava, e ficou ali, quietinho, aconchegado e em silêncio durante toda a viagem. Não me deu um pingo de trabalho.

Quando descemos em Rondonópolis, tirei ele da caixa. O ônibus não havia parado na rodoviária, mas na garagem da empresa. As pessoas ao redor olhavam torto, cochichavam e falavam da audácia de viajar com um cachorro. Eu não dei a mínima atenção. Segurei firme na coleira dele e fomos andando, a pé, da garagem até a rodoviária. Antes de embarcar no ônibus final para Poxoréu, repeti a operação: Sheik na caixa, blusa por cima, caixa entre os pés. Chegamos ao nosso destino sãos e salvos, sem nenhum problema. A chegada dele em casa foi a maior alegria que poderíamos ter.

Os anos se passaram em Poxoréu. Nossos filhos — Fernando, Marisa e Ricardo — cresceram tendo o Sheik como parte da família. Ele era a minha sombra. Onde quer que eu me sentasse, lá vinha ele, se aninhando aos meus pés como se dissesse: "Daqui ninguém me tira". E não tirava mesmo. Se alguém tentasse se aproximar muito rápido, ele soltava um rosnado de aviso. Era o meu guardião particular.

Nós vivemos altas aventuras juntos, mas, infelizmente, o tempo cobra seu preço. Quando o Sheik já estava mais velho, uma cachorrinha da vizinhança entrou no cio e atraiu uma matilha para a porta de casa. O Sheik, valente como sempre, acabou entrando em uma briga de rua com cachorros muito maiores que ele. Ele apanhou muito, ficou gravemente machucado, adoeceu e não resistiu.

Eu mesmo preparei o seu descanso final e o sepultei no nosso quintal. As lágrimas rolaram soltas naquele dia; chorei muito a perda daquele amigo. Até hoje, quando olho para certos cantos da casa, sinto uma saudade imensa dele.

Hoje, nossa casa é alegre com a presença do Shazam e da Shakira. Eles gostam de nós e nós gostamos deles, mas a verdade é que um amor canino é como impressão digital — nunca existe um igual ao outro. O amor do Sheik era único.

Onde quer que fique o céu dos cachorros, tenho certeza de que ele está lá, deitado tranquilamente. E, quem sabe, guardando um lugarzinho aos pés de onde eu um dia irei sentar. Saudades, Sheik.

Casa do Lago, 24 de abril de 2026.

quinta-feira, abril 23, 2026

O inventário da Eternidade

 


O Inventário da Eternidade: Entre o Atacadão e o Infinito

*Por Izaías Resplandes*

Hoje, o despertador não marcou apenas o início de um feriado de 21 de abril; ele deu o sinal para o início de mais um capítulo. Descobri, no silêncio de um áudio e na clareza de um raciocínio, que a vida não é feita de minutos, mas de narrativas. Tudo, absolutamente tudo, se resume a uma história. E a Grande História Universal, essa senhora imponente, nada mais é do que um imenso coral de vozes particulares, onde a minha e a sua voz buscam o seu lugar na partitura.

Lembrei-me de Eça de Queirós em *A Cidade e as Serras*. O mestre português dizia que o homem do campo vive pelo estômago e pelo instinto de reprodução. É a sobrevivência bruta, o esforço de não deixar a chama da espécie apagar. Mas, enquanto olho para o horizonte de Mato Grosso, percebo que queremos mais. Não nos basta apenas "parar em pé" e gerar filhos; queremos que esses filhos, e os filhos deles — como o meu David, o Tupande e o Pett — saibam que estivemos aqui. Queremos sobreviver para sempre. E a única forma de fazer isso, já que o corpo é matéria perecível, é transformando a vida em relato.

Nossas pequenas aventuras cotidianas são, na verdade, fragmentos de uma epopeia. Enquanto planejo com Esmeralda nossa ida a Primavera do Leste para as compras no Atacadão, o que vejo não é apenas uma lista de suprimentos. Vejo o capítulo do "Mutirão de Primeiro de Maio". Cada saca de mantimento comprada é um parágrafo escrito na história da nossa igreja em Poxoréu. As mãos que carregam as sacolas são as mesmas que levantam paredes, unindo irmãos que vêm de Rondonópolis, Jaciara e Nova Olímpia em uma caligrafia de fraternidade.

Nesta tarde, se o destino permitir, faremos uma pausa na casa do mano Enivaldo. Uma visita de feriado, um café, um abraço. Para o mundo, um evento trivial. Para a nossa "Geografia da Alma", um registro essencial de que o afeto é o que dá liga aos nossos dias.

A vida se divide em dimensões. Existe a material, do suor e do tijolo; a espiritual, dos sentimentos e dos prazeres que a cidade nos ensinou a cultivar; e a transdimensional, onde a nossa história se funde com a raça, com os antepassados e com o próprio Deus. É nessa última que a nossa crônica deixa de ser fumaça e se torna eterna.

A verdade é que somos o que nossas histórias contam. Se não há narrativa, o átomo é mudo e o homem é nada. É a história que nos torna "alguém". E o que é mais belo em tudo isso: escrevemos a muitas mãos. Um capítulo é rascunhado aqui em Poxoréu, outro é lido em voz alta acolá, e assim a trama se tece.

Enquanto raciocino e escrevo estas linhas, sinto o peso e a leveza de ser um "animal narrador". Que privilégio o nosso, de poder olhar para um carrinho de compras ou para um mutirão de obras e enxergar ali a beleza de uma obra literária divina.

Que linda história é a nossa história! Sigamos escrevendo, com fé e tinta, pois cada gesto nosso é um verso que o tempo não poderá apagar.


Casa do Lago, 21/04/2026

quarta-feira, abril 22, 2026

O tempo do abraço


 O Tempo do Abraço


Izaias Resplandes 


Todo dia é dia, não importa a ocasião

O abraço é o compasso que bate no coração

Cedo no café, para o dia despertar

Um laço bem apertado para a jornada começar.


Abraço, abraço, abraço... coisa boa, né?

É energia que contagia, mantém a gente de pé!

Toda hora, todo dia, quando entra ou quando sai

É um pedaço de carinho que no peito a gente atrai.


Tem o abraço do almoço, com sabor de alegria

No meio da rotina, renova a nossa energia

Quando chega, quando vai, não tem hora pra parar

O mundo fica melhor quando a gente se encontrar.


Que tal agora? Um abraço de luz

Pois o tempo do abraço é o que nos conduz!


Casa do Lago, 20/04/2026

domingo, abril 12, 2026

Além do Esquecimento



ALÉM DO ESQUECIMENTO


Por Izaias Resplandes


Meus amados irmãos e irmãs, graça e paz da parte do nosso Senhor Jesus Cristo.

Neste tempo de adoração que temos juntos hoje, eu quero conversar com vocês sobre um dos temas mais difíceis, mais dolorosos e, ao mesmo tempo, mais essenciais da nossa caminhada cristã: o perdão. Mas eu não quero falar daquele perdão romantizado que a gente costuma ver em filmes ou ouvir em frases de efeito. Eu quero falar do perdão na vida real. O perdão de quem tem cicatrizes.


Introdução.


O Mito e o Fardo.

Existe um conselho, um ditado muito popular que circula tanto fora quanto dentro das nossas igrejas. É muito provável que você já tenha ouvido, ou quem sabe, até dito para alguém: “Quem perdoa de verdade, esquece”. Ou então: “Se você ainda lembra, é porque ainda não perdoou”.

Irmãos, pensem comigo no peso absoluto que essa frase coloca sobre os nossos ombros. Alguém te fere profundamente. Alguém trai a sua confiança, fala mal de você, comete uma injustiça contra a sua vida ou contra a sua família. O seu coração é quebrado. Então, em obediência a Cristo, com muito choro e oração, você decide perdoar. Você entrega aquela pessoa a Deus. Você decide não se vingar.

Mas, de repente, você acorda no dia seguinte... e a lembrança da ofensa está lá. O pensamento ruim vem à sua mente enquanto você está lavando a louça, enquanto está dirigindo para o trabalho, ou quando deita a cabeça no travesseiro.


A Frustração e a Culpa.

E o que acontece conosco quando a lembrança vem? A frustração nos domina. A gente pensa: “Senhor, eu orei pedindo para esquecer! Por que eu ainda lembro?”. E é exatamente nesse momento de vulnerabilidade que o Inimigo das nossas almas se aproxima para sussurrar uma mentira cruel. Ele diz: “Viu só? Você lembrou. Seu perdão foi falso. Você é um hipócrita. Você não perdoou coisa nenhuma”.

E assim, nós nos tornamos prisioneiros de um ciclo de culpa. Tentamos forçar a nossa mente a apagar um arquivo, a deletar uma memória. Nós nos esforçamos para focar só em coisas boas, tentamos empurrar a sujeira para debaixo do tapete da nossa mente... e falhamos miseravelmente. Porque quanto mais a gente tenta não pensar em algo, mais a gente pensa. A tentativa de apagar a memória na força do próprio braço é uma batalha perdida que só gera exaustão espiritual.


A Honestidade da Nossa Humanidade.

Nós precisamos ser honestos diante de Deus e diante de nós mesmos: nós somos humanos.

O nosso Deus nos criou com um cérebro formidável, um cérebro que foi projetado pelo próprio Criador para registrar as nossas vivências. A nossa memória tem, inclusive, uma função de proteção. Quando você encosta a mão em uma panela quente e se queima, o seu cérebro registra aquela dor para que você não coloque a mão no fogo de novo. A dor cria uma memória que nos ensina a ter prudência.

Se a mente humana não tem um botão de "deletar", por que nós exigimos de nós mesmos uma amnésia que Deus não nos deu a capacidade de ter? A falha em esquecer não é um sinal de falta de espiritualidade, é apenas um sinal da sua humanidade. Jesus Cristo sabe como a mente que Ele criou funciona. Ele não nos pediria algo que violasse a nossa própria biologia sem nos dar um caminho de graça para lidar com isso.

O que eu quero propor a vocês neste tempo que temos juntos é que nós deixemos essa falsa obrigação de esquecer aqui, agora mesmo, aos pés da cruz. Nós precisamos desmascarar esse fardo que não é bíblico.

O perdão que Jesus nos ensina não exige amnésia. Ele exige algo muito mais profundo, muito mais sobrenatural e muito mais libertador. Se você tem carregado a culpa de ainda lembrar de quem te feriu; se os pensamentos ruins têm assaltado a sua mente; ou se você tem tentado aconselhar alguém que está sangrando com frases prontas que não funcionam... prepare o seu coração. Nós vamos olhar para a Palavra de Deus e descobrir o que o perdão NÃO é, o que ele de fato É, e como nós podemos, em Cristo, ter as nossas lembranças curadas.


I - O que o perdão NÃO é.


A Verdadeira Hipocrisia.

Nós terminamos a introdução falando sobre a mentira do Inimigo, que nos chama de hipócritas porque perdoamos, mas ainda lembramos da ofensa. Mas irmãos, pensem comigo: a verdadeira hipocrisia seria exatamente o oposto! Hipocrisia é o que nós fazemos quando engolimos o choro, colocamos uma máscara de super crentes e dizemos: "Ah, eu já esqueci. Isso não me afeta mais", enquanto por dentro a ferida continua sangrando.

Deus não nos chama para sermos atores em um palco, fingindo que a dor desapareceu por mágica. Ele nos chama para a verdade. E a verdade é que perdão não é amnésia. Você não tem que esquecer. O que se requer de nós não é apagar a memória, mas sim tirar o julgamento das nossas próprias mãos e colocá-lo aos critérios de Deus.


Perdão não é Minimizar a Dor.

Em segundo lugar, nós precisamos entender que perdoar não é dizer "não foi nada".

Muitas vezes, as pessoas tentam consolar quem foi ferido dizendo: "Deixa pra lá, o tempo cura tudo". Mas o tempo, por si só, não cura nada; o tempo apenas esconde. Quem cura é Jesus!

Se a ofensa não fosse nada, se não tivesse doído, você não precisaria perdoar. O perdão só existe porque houve uma infração, houve uma dívida real, houve um dano real. Não minimize a sua dor. Jesus nunca minimizou a dor humana. Ele foi ferido, Ele chorou, Ele suou sangue. Para perdoar de verdade, você primeiro precisa reconhecer o tamanho da ferida.


Perdão não é Confiança Cega.

Outro grande mito que nós precisamos derrubar hoje, é: perdão não é o mesmo que reconciliação imediata ou confiança cega.

Irmãos, o perdão é incondicional. Depende apenas de você e de Deus. Você pode perdoar alguém que nunca te pediu desculpas, alguém que já até faleceu, porque o perdão acontece dentro do seu coração.

Mas a confiança... ah, a confiança precisa ser reconstruída. A reconciliação exige que o outro lado se arrependa e mude. A Bíblia diz que devemos ser "prudentes como as serpentes e simples como as pombas". Você pode perdoar a pessoa que te prejudicou, livrando o seu coração do ódio, e ao mesmo tempo decidir, com sabedoria, que não vai mais fazer negócios com ela ou não vai mais permitir que ela o fira da mesma forma. O perdão te liberta do passado; a sabedoria te protege no futuro.


Deixando os Cuidados aos Pés da Cruz.

Então, se o perdão não é esquecer, não é minimizar a dor e não é confiar cegamente… o que nós fazemos com a lembrança ruim quando ela vem à mente?

Temos um hino maravilhoso em nossa igreja que diz: "Deixe os cuidados aos pés da cruz, com Jesus". É exatamente isso! Quando a lembrança dolorosa bater à porta da sua mente, você não vai fingir que ela não existe. Você vai pegar essa lembrança e levá-la aos pés da cruz. Você vai dizer: "Senhor, eu lembrei de novo. Mas eu declaro que eu não sou o juiz dessa causa. Eu deixo esse cuidado, essa ofensa, aos pés da Tua cruz. O Senhor sabe como tratar cada caso com a verdadeira justiça. Eu abro mão do meu direito de vingança".

Irmãos, é Jesus quem vai nos ajudar a curar essa ferida aberta. Mas há uma condição: *nós precisamos estar dispostos a ser curados por Ele*. Você está disposto a deixar que Ele toque nessa ferida hoje? Porque o propósito de Deus não é que você tenha uma mente vazia, mas sim que amanhã você possa se levantar e dar testemunho! Você vai poder olhar para trás e testemunhar como colocou essa questão nas mãos do Senhor, e como Ele, com Sua justiça e graça, te deu paz em meio às tempestades da memória.


II - O que o perdão É.


O Nosso Passado como Testemunho e Proteção.

A Palavra de Deus nos garante: "As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo". Mas preste muita atenção, igreja: o passado é passado, sim, mas ele é o nosso passado. A nossa história. E o nosso passado deve ser lembrado por um motivo muito importante: para não nos esquecermos da forma maravilhosa como Jesus nos libertou das consequências dele!

Se nós tivéssemos uma amnésia divina e apagássemos tudo o que sofremos, nós perderíamos o nosso testemunho. Como contaríamos aos outros o que Jesus fez por nós? E mais: não devemos esquecer o passado porque, se esquecermos as dores e as rasteiras que levamos, corremos o grave risco de repetir os mesmos passos errados. A memória redimida nos dá prudência.


O Presente é Jesus.

Sim, é verdade que nós sofremos muito com o que aconteceu no passado. Mas, em Cristo, há uma nova realidade: nós não precisamos continuar sofrendo hoje por conta dele. A ferida foi lá atrás, o sangramento tem que parar hoje. Sabe por quê? Porque o passado já foi tratado na cruz do Calvário!

O nosso presente tem nome: O presente é Jesus! Ser uma nova criatura é entender que este "presente" em que vivemos hoje é, de fato, um presente, uma dádiva de Deus para nós. E Deus não nos deu o dia de hoje para vivermos abraçados com as amarguras de ontem. O perdão, irmãos, é abrir as mãos e soltar a amargura, para que elas estejam livres para receber o presente que Deus tem para nós hoje. É rasgar a nota promissória e dizer: "Eu decido não cobrar mais essa dívida".


A Sabedoria da Nova Criatura.

Mas como fazemos isso na prática, quando a dor ainda é real? A nova criatura que somos hoje tem a mente e a sabedoria de Cristo. E qual foi a atitude de Jesus no momento de maior angústia no Getsêmani? Ele sentiu o peso do que viria, Ele sentiu a dor, e Ele entregou tudo aos cuidados do Pai. Ele orou: "Pai, se possível passe de mim esse cálice, mas que seja feita, acima de tudo, a Sua vontade".

Perdoar é ter a coragem de fazer essa mesma oração. É olhar para a ofensa e dizer: "Pai, este cálice de amargura é pesado demais para mim. Eu entrego essa dor aos Teus cuidados. Faça a Tua vontade, porque a Tua vontade é boa, perfeita e agradável". É render a nossa dor à soberania de Deus.


A Luz que Ilumina o Caminho.

Houve um tempo em nossas vidas em que nós éramos filhos perdidos. Andávamos tateando no escuro, aprisionados no ódio, na sede de vingança e na mágoa, simplesmente porque não tínhamos Jesus. Mas hoje, nós temos a Luz! Uma Luz que ilumina todo o nosso entendimento e que nos mostra o verdadeiro caminho.

Nós não andamos mais pelas trevas do ressentimento. O caminho de Jesus é o caminho da liberdade. E por causa dessa luz, por termos deixado todo o cuidado aos pés da cruz, nós podemos declarar e cantar juntos com toda a força do nosso coração: "Sigo alegre com Jesus!"


III - Lidando com as Lembranças na Prática.


O Ataque Inesperado.

Irmãos, nós já entendemos que não precisamos esquecer e que seguimos alegres com Jesus. Mas nós precisamos ser práticos. O que nós fazemos em uma terça-feira à tarde, no meio do trabalho, quando do nada aquela memória ruim nos ataca? O que fazemos quando a lembrança da traição, da palavra dura ou da injustiça invade a nossa mente como um assalto? O nosso primeiro instinto, como já falamos, é tentar lutar contra a memória. É tentar bloquear. Mas a Bíblia nos ensina uma estratégia muito superior. O apóstolo Paulo diz em 2 Coríntios 10:5 que nós devemos “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo”.


Levando o Pensamento Cativo.

Levar um pensamento cativo significa que você não permite que ele ande livremente pela sua mente fazendo estragos. Você o prende. Quando o pensamento ruim vier, você não diz: "Senhor, apaga isso da minha mente". Você o leva como um prisioneiro até Jesus e diz: "Senhor, olha o que acabou de bater na porta da minha cabeça. Essa lembrança dói. Ela tenta me puxar de volta para a amargura. Mas eu trago esse pensamento cativo a Ti. Eu declaro que ele não vai dominar o meu dia. Eu reafirmo que já coloquei esse ofensor aos pés da cruz e a justiça está nas Tuas mãos.


Do Gatilho de Dor ao Gatilho de Graça.

Sabe o que acontece quando você faz isso, igreja? Você transforma a estratégia do Inimigo contra ele mesmo! O Inimigo lança a lembrança ruim como um "gatilho" para te causar dor e raiva. Mas a partir de hoje, você vai usar essa mesma lembrança como um alarme para a oração. Toda vez que a memória ruim vier, use-a como um lembrete para orar. Ore por você mesmo, pedindo a paz de Deus. E, se tiver forças, ore pelo ofensor, pedindo que a luz de Cristo que alcançou a sua vida alcance a dele também. Eu garanto a vocês: o Diabo vai parar de trazer essa lembrança ruim à sua mente quando ele perceber que, toda vez que você lembra, você dobra os joelhos e se aproxima ainda mais de Deus! Ele não vai querer te dar motivos para orar!


Focando no que é Bom (Filipenses 4:8).

Por fim, depois de entregar a dor a Cristo mais uma vez, aí sim nós fazemos o que a Palavra nos manda: preenchemos a mente com o que é bom. Filipenses 4:8 nos diz para pensarmos em tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável e de boa fama.

Trocar o pensamento ruim não é uma "positividade cega". Se a pessoa que te feriu teve atitudes boas no passado, você pode, com a ajuda de Deus, tentar se lembrar delas para ver que ali há um ser humano falho, que precisa de salvação tanto quanto nós. Mas se a dor for grande demais e for difícil achar algo de bom naquela pessoa, não tem problema. Mude o foco para a suprema bondade do nosso Senhor!

Diga: "Senhor, eu não quero mais gastar o meu tempo lembrando do mal que me fizeram. Eu quero gastar a minha mente lembrando do bem maravilhoso que o Senhor me fez! A dor que eu sofri não se compara com a alegria que eu tenho em Ti". É assim que nós blindamos a nossa mente: esvaziando a amargura aos pés da cruz e enchendo o coração com a presença do próprio Cristo.


Conclusão e Apelo.


Recapitulando a Jornada.

Meus irmãos, nós caminhamos por águas profundas nesta hora de adoração. Nós entramos aqui hoje, muitos de nós, carregando fardos pesados. Fardos de culpa por lembrarmos do que sofremos. Fardos de amargura por tentarmos fazer justiça com as próprias mãos. Mas a Palavra de Deus nos mostrou o caminho da liberdade.

Nós aprendemos que perdoar não é ter amnésia, não é fingir que não doeu. Perdoar é tirar o julgamento das nossas mãos e colocá-lo aos pés da cruz. Aprendemos que o nosso passado é um testemunho da graça, que o nosso presente é o próprio Cristo, e que toda vez que a lembrança ruim vier, nós vamos levá-la cativa e transformá-la em oração.


O Momento de Decisão / Apelo.

Nós vamos encerrar este momento, mas antes de darmos o amém, nós precisamos ter uma atitude prática. A adoração verdadeira exige rendição.

Eu quero convidar você, onde você está agora, a fechar os seus olhos. Esqueça quem está do seu lado. Pense, por um instante, naquela lembrança que tem roubado a sua paz. Pense naquela pessoa que te feriu, que te traiu, que te prejudicou. Pense na dor que você tem carregado e na "nota promissória" de vingança que você tem guardado no bolso da sua alma, esperando o dia em que o outro vai pagar pelo que fez.

Irmão, irmã... o preço já foi pago. Jesus pagou o preço na cruz.
Se você quer ser verdadeiramente livre hoje; se você quer parar de sofrer no presente por causa do que aconteceu no passado; eu te convido a abrir as suas mãos e levantá-las aos céus. No mundo espiritual, nós vamos pegar essa nota promissória da ofensa, e nós vamos rasgá-la! Nós vamos entregar essa pessoa ao Justo Juiz. Nós vamos deixar esse cuidado com Jesus.


Oração de Entrega e Cura.

"Senhor nosso Deus e nosso Pai. Nós estamos diante de Ti com as mãos abertas e o coração despido. Tu és o Criador das nossas mentes, Tu conheces as nossas memórias e sabes o tamanho de cada ferida que carregamos.

Pai, nesta hora, nós decidimos perdoar. Nós declaramos que abrimos mão do direito de nos vingarmos. Nós abrimos mão da amargura. Nós pegamos toda essa dor, toda essa lembrança difícil, e nós a depositamos aos pés da Tua cruz. Senhor, nós não Te pedimos para apagar a nossa mente, mas nós clamamos para que o Senhor cure as nossas emoções. Que a cicatriz fique apenas como um lembrete de que o Senhor nos curou, e não como uma ferida que ainda sangra.
Quando o pensamento ruim vier amanhã, Espírito Santo, nos ajude a levá-lo cativo. Nos ajude a orar. Preencha a nossa mente com a Tua presença, com a Tua paz que excede todo o entendimento. Nós éramos filhos perdidos, mas hoje temos a Tua luz! Que a partir de hoje, nós possamos caminhar leves, sem as amarras do passado, seguindo alegres com Jesus. É o que nós Te pedimos, em nome do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Amém e amém!"


Bênção Final.

Que a graça do Senhor Jesus, que nos perdoou quando não merecíamos; o amor de Deus, que nos acolhe com todas as nossas marcas; e a comunhão do Espírito Santo, que cura a nossa mente e o nosso coração, sejam com todos vocês, hoje e para todo o sempre. Vão em paz, e sejam livres em nome de Jesus!


Poxoréu, MT, 12 de abril de 2026.


O Silêncio que Carrega o Mundo

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