ALÉM DO ESQUECIMENTO
Por Izaias Resplandes
Meus amados irmãos e irmãs, graça e paz da parte do nosso Senhor Jesus Cristo.
Neste tempo de adoração que temos juntos hoje, eu quero conversar com vocês sobre um dos temas mais difíceis, mais dolorosos e, ao mesmo tempo, mais essenciais da nossa caminhada cristã: o perdão. Mas eu não quero falar daquele perdão romantizado que a gente costuma ver em filmes ou ouvir em frases de efeito. Eu quero falar do perdão na vida real. O perdão de quem tem cicatrizes.
Introdução.
O Mito e o Fardo.
Existe um conselho, um ditado muito popular que circula tanto fora quanto dentro das nossas igrejas. É muito provável que você já tenha ouvido, ou quem sabe, até dito para alguém: “Quem perdoa de verdade, esquece”. Ou então: “Se você ainda lembra, é porque ainda não perdoou”.
Irmãos, pensem comigo no peso absoluto que essa frase coloca sobre os nossos ombros. Alguém te fere profundamente. Alguém trai a sua confiança, fala mal de você, comete uma injustiça contra a sua vida ou contra a sua família. O seu coração é quebrado. Então, em obediência a Cristo, com muito choro e oração, você decide perdoar. Você entrega aquela pessoa a Deus. Você decide não se vingar.
Mas, de repente, você acorda no dia seguinte... e a lembrança da ofensa está lá. O pensamento ruim vem à sua mente enquanto você está lavando a louça, enquanto está dirigindo para o trabalho, ou quando deita a cabeça no travesseiro.
A Frustração e a Culpa.
E o que acontece conosco quando a lembrança vem? A frustração nos domina. A gente pensa: “Senhor, eu orei pedindo para esquecer! Por que eu ainda lembro?”. E é exatamente nesse momento de vulnerabilidade que o Inimigo das nossas almas se aproxima para sussurrar uma mentira cruel. Ele diz: “Viu só? Você lembrou. Seu perdão foi falso. Você é um hipócrita. Você não perdoou coisa nenhuma”.
E assim, nós nos tornamos prisioneiros de um ciclo de culpa. Tentamos forçar a nossa mente a apagar um arquivo, a deletar uma memória. Nós nos esforçamos para focar só em coisas boas, tentamos empurrar a sujeira para debaixo do tapete da nossa mente... e falhamos miseravelmente. Porque quanto mais a gente tenta não pensar em algo, mais a gente pensa. A tentativa de apagar a memória na força do próprio braço é uma batalha perdida que só gera exaustão espiritual.
A Honestidade da Nossa Humanidade.
Nós precisamos ser honestos diante de Deus e diante de nós mesmos: nós somos humanos.
O nosso Deus nos criou com um cérebro formidável, um cérebro que foi projetado pelo próprio Criador para registrar as nossas vivências. A nossa memória tem, inclusive, uma função de proteção. Quando você encosta a mão em uma panela quente e se queima, o seu cérebro registra aquela dor para que você não coloque a mão no fogo de novo. A dor cria uma memória que nos ensina a ter prudência.
Se a mente humana não tem um botão de "deletar", por que nós exigimos de nós mesmos uma amnésia que Deus não nos deu a capacidade de ter? A falha em esquecer não é um sinal de falta de espiritualidade, é apenas um sinal da sua humanidade. Jesus Cristo sabe como a mente que Ele criou funciona. Ele não nos pediria algo que violasse a nossa própria biologia sem nos dar um caminho de graça para lidar com isso.
O que eu quero propor a vocês neste tempo que temos juntos é que nós deixemos essa falsa obrigação de esquecer aqui, agora mesmo, aos pés da cruz. Nós precisamos desmascarar esse fardo que não é bíblico.
O perdão que Jesus nos ensina não exige amnésia. Ele exige algo muito mais profundo, muito mais sobrenatural e muito mais libertador. Se você tem carregado a culpa de ainda lembrar de quem te feriu; se os pensamentos ruins têm assaltado a sua mente; ou se você tem tentado aconselhar alguém que está sangrando com frases prontas que não funcionam... prepare o seu coração. Nós vamos olhar para a Palavra de Deus e descobrir o que o perdão NÃO é, o que ele de fato É, e como nós podemos, em Cristo, ter as nossas lembranças curadas.
I - O que o perdão NÃO é.
A Verdadeira Hipocrisia.
Nós terminamos a introdução falando sobre a mentira do Inimigo, que nos chama de hipócritas porque perdoamos, mas ainda lembramos da ofensa. Mas irmãos, pensem comigo: a verdadeira hipocrisia seria exatamente o oposto! Hipocrisia é o que nós fazemos quando engolimos o choro, colocamos uma máscara de super crentes e dizemos: "Ah, eu já esqueci. Isso não me afeta mais", enquanto por dentro a ferida continua sangrando.
Deus não nos chama para sermos atores em um palco, fingindo que a dor desapareceu por mágica. Ele nos chama para a verdade. E a verdade é que perdão não é amnésia. Você não tem que esquecer. O que se requer de nós não é apagar a memória, mas sim tirar o julgamento das nossas próprias mãos e colocá-lo aos critérios de Deus.
Perdão não é Minimizar a Dor.
Em segundo lugar, nós precisamos entender que perdoar não é dizer "não foi nada".
Muitas vezes, as pessoas tentam consolar quem foi ferido dizendo: "Deixa pra lá, o tempo cura tudo". Mas o tempo, por si só, não cura nada; o tempo apenas esconde. Quem cura é Jesus!
Se a ofensa não fosse nada, se não tivesse doído, você não precisaria perdoar. O perdão só existe porque houve uma infração, houve uma dívida real, houve um dano real. Não minimize a sua dor. Jesus nunca minimizou a dor humana. Ele foi ferido, Ele chorou, Ele suou sangue. Para perdoar de verdade, você primeiro precisa reconhecer o tamanho da ferida.
Perdão não é Confiança Cega.
Outro grande mito que nós precisamos derrubar hoje, é: perdão não é o mesmo que reconciliação imediata ou confiança cega.
Irmãos, o perdão é incondicional. Depende apenas de você e de Deus. Você pode perdoar alguém que nunca te pediu desculpas, alguém que já até faleceu, porque o perdão acontece dentro do seu coração.
Mas a confiança... ah, a confiança precisa ser reconstruída. A reconciliação exige que o outro lado se arrependa e mude. A Bíblia diz que devemos ser "prudentes como as serpentes e simples como as pombas". Você pode perdoar a pessoa que te prejudicou, livrando o seu coração do ódio, e ao mesmo tempo decidir, com sabedoria, que não vai mais fazer negócios com ela ou não vai mais permitir que ela o fira da mesma forma. O perdão te liberta do passado; a sabedoria te protege no futuro.
Deixando os Cuidados aos Pés da Cruz.
Então, se o perdão não é esquecer, não é minimizar a dor e não é confiar cegamente… o que nós fazemos com a lembrança ruim quando ela vem à mente?
Temos um hino maravilhoso em nossa igreja que diz: "Deixe os cuidados aos pés da cruz, com Jesus". É exatamente isso! Quando a lembrança dolorosa bater à porta da sua mente, você não vai fingir que ela não existe. Você vai pegar essa lembrança e levá-la aos pés da cruz. Você vai dizer: "Senhor, eu lembrei de novo. Mas eu declaro que eu não sou o juiz dessa causa. Eu deixo esse cuidado, essa ofensa, aos pés da Tua cruz. O Senhor sabe como tratar cada caso com a verdadeira justiça. Eu abro mão do meu direito de vingança".
Irmãos, é Jesus quem vai nos ajudar a curar essa ferida aberta. Mas há uma condição: *nós precisamos estar dispostos a ser curados por Ele*. Você está disposto a deixar que Ele toque nessa ferida hoje? Porque o propósito de Deus não é que você tenha uma mente vazia, mas sim que amanhã você possa se levantar e dar testemunho! Você vai poder olhar para trás e testemunhar como colocou essa questão nas mãos do Senhor, e como Ele, com Sua justiça e graça, te deu paz em meio às tempestades da memória.
II - O que o perdão É.
O Nosso Passado como Testemunho e Proteção.
A Palavra de Deus nos garante: "As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo". Mas preste muita atenção, igreja: o passado é passado, sim, mas ele é o nosso passado. A nossa história. E o nosso passado deve ser lembrado por um motivo muito importante: para não nos esquecermos da forma maravilhosa como Jesus nos libertou das consequências dele!
Se nós tivéssemos uma amnésia divina e apagássemos tudo o que sofremos, nós perderíamos o nosso testemunho. Como contaríamos aos outros o que Jesus fez por nós? E mais: não devemos esquecer o passado porque, se esquecermos as dores e as rasteiras que levamos, corremos o grave risco de repetir os mesmos passos errados. A memória redimida nos dá prudência.
O Presente é Jesus.
Sim, é verdade que nós sofremos muito com o que aconteceu no passado. Mas, em Cristo, há uma nova realidade: nós não precisamos continuar sofrendo hoje por conta dele. A ferida foi lá atrás, o sangramento tem que parar hoje. Sabe por quê? Porque o passado já foi tratado na cruz do Calvário!
O nosso presente tem nome: O presente é Jesus! Ser uma nova criatura é entender que este "presente" em que vivemos hoje é, de fato, um presente, uma dádiva de Deus para nós. E Deus não nos deu o dia de hoje para vivermos abraçados com as amarguras de ontem. O perdão, irmãos, é abrir as mãos e soltar a amargura, para que elas estejam livres para receber o presente que Deus tem para nós hoje. É rasgar a nota promissória e dizer: "Eu decido não cobrar mais essa dívida".
A Sabedoria da Nova Criatura.
Mas como fazemos isso na prática, quando a dor ainda é real? A nova criatura que somos hoje tem a mente e a sabedoria de Cristo. E qual foi a atitude de Jesus no momento de maior angústia no Getsêmani? Ele sentiu o peso do que viria, Ele sentiu a dor, e Ele entregou tudo aos cuidados do Pai. Ele orou: "Pai, se possível passe de mim esse cálice, mas que seja feita, acima de tudo, a Sua vontade".
Perdoar é ter a coragem de fazer essa mesma oração. É olhar para a ofensa e dizer: "Pai, este cálice de amargura é pesado demais para mim. Eu entrego essa dor aos Teus cuidados. Faça a Tua vontade, porque a Tua vontade é boa, perfeita e agradável". É render a nossa dor à soberania de Deus.
A Luz que Ilumina o Caminho.
Houve um tempo em nossas vidas em que nós éramos filhos perdidos. Andávamos tateando no escuro, aprisionados no ódio, na sede de vingança e na mágoa, simplesmente porque não tínhamos Jesus. Mas hoje, nós temos a Luz! Uma Luz que ilumina todo o nosso entendimento e que nos mostra o verdadeiro caminho.
Nós não andamos mais pelas trevas do ressentimento. O caminho de Jesus é o caminho da liberdade. E por causa dessa luz, por termos deixado todo o cuidado aos pés da cruz, nós podemos declarar e cantar juntos com toda a força do nosso coração: "Sigo alegre com Jesus!"
III - Lidando com as Lembranças na Prática.
O Ataque Inesperado.
Irmãos, nós já entendemos que não precisamos esquecer e que seguimos alegres com Jesus. Mas nós precisamos ser práticos. O que nós fazemos em uma terça-feira à tarde, no meio do trabalho, quando do nada aquela memória ruim nos ataca? O que fazemos quando a lembrança da traição, da palavra dura ou da injustiça invade a nossa mente como um assalto? O nosso primeiro instinto, como já falamos, é tentar lutar contra a memória. É tentar bloquear. Mas a Bíblia nos ensina uma estratégia muito superior. O apóstolo Paulo diz em 2 Coríntios 10:5 que nós devemos “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo”.
Levando o Pensamento Cativo.
Levar um pensamento cativo significa que você não permite que ele ande livremente pela sua mente fazendo estragos. Você o prende. Quando o pensamento ruim vier, você não diz: "Senhor, apaga isso da minha mente". Você o leva como um prisioneiro até Jesus e diz: "Senhor, olha o que acabou de bater na porta da minha cabeça. Essa lembrança dói. Ela tenta me puxar de volta para a amargura. Mas eu trago esse pensamento cativo a Ti. Eu declaro que ele não vai dominar o meu dia. Eu reafirmo que já coloquei esse ofensor aos pés da cruz e a justiça está nas Tuas mãos.
Do Gatilho de Dor ao Gatilho de Graça.
Sabe o que acontece quando você faz isso, igreja? Você transforma a estratégia do Inimigo contra ele mesmo! O Inimigo lança a lembrança ruim como um "gatilho" para te causar dor e raiva. Mas a partir de hoje, você vai usar essa mesma lembrança como um alarme para a oração. Toda vez que a memória ruim vier, use-a como um lembrete para orar. Ore por você mesmo, pedindo a paz de Deus. E, se tiver forças, ore pelo ofensor, pedindo que a luz de Cristo que alcançou a sua vida alcance a dele também. Eu garanto a vocês: o Diabo vai parar de trazer essa lembrança ruim à sua mente quando ele perceber que, toda vez que você lembra, você dobra os joelhos e se aproxima ainda mais de Deus! Ele não vai querer te dar motivos para orar!
Focando no que é Bom (Filipenses 4:8).
Por fim, depois de entregar a dor a Cristo mais uma vez, aí sim nós fazemos o que a Palavra nos manda: preenchemos a mente com o que é bom. Filipenses 4:8 nos diz para pensarmos em tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável e de boa fama.
Trocar o pensamento ruim não é uma "positividade cega". Se a pessoa que te feriu teve atitudes boas no passado, você pode, com a ajuda de Deus, tentar se lembrar delas para ver que ali há um ser humano falho, que precisa de salvação tanto quanto nós. Mas se a dor for grande demais e for difícil achar algo de bom naquela pessoa, não tem problema. Mude o foco para a suprema bondade do nosso Senhor!
Diga: "Senhor, eu não quero mais gastar o meu tempo lembrando do mal que me fizeram. Eu quero gastar a minha mente lembrando do bem maravilhoso que o Senhor me fez! A dor que eu sofri não se compara com a alegria que eu tenho em Ti". É assim que nós blindamos a nossa mente: esvaziando a amargura aos pés da cruz e enchendo o coração com a presença do próprio Cristo.
Conclusão e Apelo.
Recapitulando a Jornada.
Meus irmãos, nós caminhamos por águas profundas nesta hora de adoração. Nós entramos aqui hoje, muitos de nós, carregando fardos pesados. Fardos de culpa por lembrarmos do que sofremos. Fardos de amargura por tentarmos fazer justiça com as próprias mãos. Mas a Palavra de Deus nos mostrou o caminho da liberdade.
Nós aprendemos que perdoar não é ter amnésia, não é fingir que não doeu. Perdoar é tirar o julgamento das nossas mãos e colocá-lo aos pés da cruz. Aprendemos que o nosso passado é um testemunho da graça, que o nosso presente é o próprio Cristo, e que toda vez que a lembrança ruim vier, nós vamos levá-la cativa e transformá-la em oração.
O Momento de Decisão / Apelo.
Nós vamos encerrar este momento, mas antes de darmos o amém, nós precisamos ter uma atitude prática. A adoração verdadeira exige rendição.
Eu quero convidar você, onde você está agora, a fechar os seus olhos. Esqueça quem está do seu lado. Pense, por um instante, naquela lembrança que tem roubado a sua paz. Pense naquela pessoa que te feriu, que te traiu, que te prejudicou. Pense na dor que você tem carregado e na "nota promissória" de vingança que você tem guardado no bolso da sua alma, esperando o dia em que o outro vai pagar pelo que fez.
Irmão, irmã... o preço já
foi pago. Jesus pagou o preço na cruz.
Se você quer ser
verdadeiramente livre hoje; se você quer parar de sofrer no presente
por causa do que aconteceu no passado; eu te convido a abrir as suas
mãos e levantá-las aos céus. No mundo espiritual, nós vamos pegar
essa nota promissória da ofensa, e nós vamos rasgá-la! Nós vamos
entregar essa pessoa ao Justo Juiz. Nós vamos deixar esse cuidado
com Jesus.
Oração de Entrega e Cura.
"Senhor nosso Deus e nosso Pai. Nós estamos diante de Ti com as mãos abertas e o coração despido. Tu és o Criador das nossas mentes, Tu conheces as nossas memórias e sabes o tamanho de cada ferida que carregamos.
Pai, nesta hora, nós
decidimos perdoar. Nós declaramos que abrimos mão do direito de nos
vingarmos. Nós abrimos mão da amargura. Nós pegamos toda essa dor,
toda essa lembrança difícil, e nós a depositamos aos pés da Tua
cruz. Senhor, nós não Te pedimos para apagar a nossa mente, mas nós
clamamos para que o Senhor cure as nossas emoções. Que a cicatriz
fique apenas como um lembrete de que o Senhor nos curou, e não como
uma ferida que ainda sangra.
Quando o pensamento ruim vier
amanhã, Espírito Santo, nos ajude a levá-lo cativo. Nos ajude a
orar. Preencha a nossa mente com a Tua presença, com a Tua paz que
excede todo o entendimento. Nós éramos filhos perdidos, mas hoje
temos a Tua luz! Que a partir de hoje, nós possamos caminhar leves,
sem as amarras do passado, seguindo alegres com Jesus. É o que nós
Te pedimos, em nome do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Amém e
amém!"
Bênção Final.
Que a graça do Senhor Jesus, que nos perdoou quando não merecíamos; o amor de Deus, que nos acolhe com todas as nossas marcas; e a comunhão do Espírito Santo, que cura a nossa mente e o nosso coração, sejam com todos vocês, hoje e para todo o sempre. Vão em paz, e sejam livres em nome de Jesus!
Poxoréu, MT, 12 de abril de 2026.





