sábado, abril 11, 2026

O Legado do Pãozinho e a Matemática da Esperança

 


O Legado do Pãozinho e a Matemática da Esperança

Por Izaias Resplandes

A vida de cada um é um relógio de ponto muito particular. Cada pessoa segue o compasso que consegue imprimir e, por mais que a gente observe, parece não haver força externa capaz de mudar essa engrenagem. É curioso notar como, às vezes, alguém pisa fundo no acelerador, gasta combustível, perde o fôlego, mas, ao olhar pela janela, a paisagem é a mesma. Continua no mesmo lugar, vivendo com a mesma qualidade. Quando a exaustão bate e a velocidade reduz, o cenário também não se altera. A vida, teimosa, continua do mesmo jeito.

Levanta-se cedo. Enquanto a manhã ainda desponta e o calor começa a dar as caras, cumpre-se a rotina doméstica e corre-se apressado. O relógio é um patrão implacável. Se não chegar na hora exata, o contracheque no fim do mês cobra a conta do atraso, e isso é um luxo que não se pode ter. Cada centavo ali tem endereço certo para manter a precária ilusão de segurança que chamamos de "qualidade de vida".

E então o fim do mês chega, pontual como a angústia. O salário cai na conta e evapora no balcão do mercado e nos boletos empilhados. Compra-se tudo de uma vez, come-se tudo durante os trinta dias, e o ciclo recomeça. Parece uma engrenagem perfeitamente normal, mas o espelho não mente: não está. O tempo passa, o corpo envelhece, a saúde pede garantias que a rotina não dá. Fico me perguntando se o FGTS, aquele fundo intocável, vai dar conta de segurar as pontas quando a força de trabalho minguar. Vejo muitos sendo dispensados, substituídos por sistemas, algoritmos e pelas exigências de um mercado que não tem paciência para cabelos brancos. Pegam o FGTS, fazem aquela viagem à praia que adiaram a vida inteira e, na volta, o sal no corpo seca junto com o dinheiro. Tudo volta ao "normal" — um normal assombrado pelo desemprego e pela concorrência com as máquinas.

Isso me faz lembrar do tempo em que eu estava na ativa, diante do quadro-negro. Como professor de matemática, eu olhava para os meus alunos e dizia que passar a juventude na escola era um sacrifício necessário. A promessa era o futuro. No fundo, eles achavam uma missão impossível e, confesso, às vezes eu também sentia um gosto amargo de dúvida. Quantos diplomados estavam por aí, espremidos em subempregos, provando que o diploma não é um passe de mágico? Eu pedia que eles fossem os melhores, porque a vida lá fora não perdoaria os medianos. Eles reviravam os olhos para as minhas equações. Achavam que a matemática não servia para nada. E a verdade é que a escola ensina muito do que o dia a dia ignora, mas deixa de ensinar o essencial para a sobrevivência.

A aposentadoria que espera a imensa maioria dos brasileiros é a do salário mínimo. É a fila da assistência social, a dependência do auxílio, o malabarismo doloroso de fazer os dias caberem no dinheiro que acaba antes do mês. Tem quem se conforme com o mínimo, abrindo mão do protagonismo do próprio destino.

Mas a vida é um ciclo de quatro estações. A lição mais valiosa que aprendi não veio de um currículo escolar, mas de José do Egito, lá na Bíblia: guardar uma parte na época das vacas gordas para sobreviver ao tempo das vacas magras. Ao longo dos anos, eu escolhi não viver apenas do meu suor, mas fazer com que os meus investimentos começassem a suar por mim. Eu poupava os centavos, reinvestia os retornos, construía a minha própria previdência silenciosa.

Sempre tentei passar esse estilo de vida adiante, mas a resistência é enorme. As pessoas dizem que não sobra nada. Que não conseguem abrir mão nem daquele pãozinho de R$ 1 real todas as manhãs para economizar os R$ 30 no fim do mês.

Como velho professor de matemática, eu não resisto a fazer a conta. Vamos supor que você pegue esses R$ 30 por mês do pãozinho e aplique no Tesouro Direto, com uma taxa de juros realista de cerca de 0,8% ao mês (aproximadamente 10% ao ano).

  • Em 5 anos, guardando apenas o dinheiro desse pão diário, você teria acumulado cerca de R$ 2.300. Já é um respiro, um fundo de emergência que a maioria não tem.

  • Mas a mágica dos juros compostos recompensa a paciência. Se você mantiver esse hábito por 35 anos — o tempo de uma vida de trabalho —, o valor que saiu do seu bolso terá sido de R$ 12.600. No entanto, com os juros trabalhando a seu favor, você teria acumulado aproximadamente R$ 105.000.

Ninguém morre de fome por não comer um pãozinho matutino. Mas a ausência dessa pequena disciplina pode matar de inanição a dignidade na velhice.

Minha vida hoje é simples e humilde. Não sou dono do mundo, mas sou dono do meu tempo. Eu gosto do jeito que posso viver hoje, com a tranquilidade de quem plantou as próprias sementes e não depende apenas da chuva do governo ou do patrão. E, enquanto vejo a pressa das pessoas na rua, continuo me fazendo a mesma pergunta: será que os outros também gostam do jeito que vivem hoje?

*****

Quase todos os dias nós cumprimentamos alguém pelo nascimento de um filho. É a vida que se renova. E isso nos traz alegria. Mas, um novo nascimento sempre nos traz também alguma preocupação. Os tempos estão muito difíceis e o aumento da família nem sempre vem acompanhado de possibilidades de melhoria na qualidade de vida do grupo. Pelo contrário, na fria matemática do cotidiano, significa dividir o bolo com mais um.

Eu gostaria de apresentar uma proposta prática para mudar essa situação. Talvez, não melhore imediatamente para os pais do menino que acaba de nascer, mas certamente poderá mudar o destino desse menino e de seus descendentes. É claro que os pais terão que fazer a primeira parte, de forma disciplinada, e devem educá-lo para continuar com essa mesma constância até o final, passando esse princípio para as gerações vindouras. Creio que isso trará uma nova perspectiva de qualidade de vida, moldando a nossa própria geografia.

Vou propor a situação da supressão de um simples pãozinho para uma criança que nasceu este mês e viverá até os 90 anos. Pensemos em um dos nossos, um pequeno David, Tupande ou Pett, recém-chegado a este mundo.

Se os pais decidirem economizar o equivalente a um pãozinho diário — cerca de R$ 30,00 por mês — e investirem esse valor a uma taxa conservadora de 0,8% ao mês, a mágica do tempo começa a agir. Quando esse menino completar 35 anos, período em que ele mesmo já assumiu os depósitos com o suor de seu próprio trabalho, ele terá acumulado cerca de R$ 105.000,00, que lhe renderia em torno de R$ 840,00 por mês.

Vê-se que, a partir daí, a semente já virou uma árvore de raízes fundas e já começa a frutificar. Então, já se poderá começar a usufruir do investimento feito. Já poderá voltar a comer o seu pãozinho e muitas coisas mais. Mas esse menino só tem 35 anos e agora entra em sua melhor fase produtiva. Mas, mesmo assim, nossa proposta é que ele poderá fazer uma retirada mensal de 50% dos juros desse capital de R$ 105.000,00 que seria inicialmente, de aproximadamente R$ 420,00 (no ano 36 de sua vida), mantendo o restante dos juros e mais o capital principal acumulado nos 35 anos anos anteriores rendendo no fundo ao longo de sua vida produtiva. Os juros compostos farão o trabalho silencioso. Aos 65 anos, quando for se aposentar, ele já estaria recebendo R$ 1.684,75 mensais daqueles 50% de juros e aquele fundo inicial terá se transformado em um robusto patrimônio de R$ 421.187,02.

É aqui que a colheita verdadeira começa. Ele para de trabalhar, mas o seu dinheiro não. Para garantir uma velhice próspera, ele passará a retirar 80% dos rendimentos mensais para somar à sua aposentadoria (seja ela de um salário mínimo ou mais), e deixará os 20% restantes reinvestidos para que o bolo continue crescendo e vencendo a inflação.

Vejam como essa dinâmica desenha um horizonte de dignidade a cada primeiro de janeiro, dos 65 até os 90 anos:

Idade (01/Jan)

Fundo Acumulado

Incremento Mensal (80% dos Juros)

65 anos

R$ 421.187,02

R$ 2.695,60

66 anos

R$ 429.343,89

R$ 2.747,80

67 anos

R$ 437.656,76

R$ 2.801,00

68 anos

R$ 446.128,88

R$ 2.855,22

69 anos

R$ 454.763,55

R$ 2.910,49

70 anos

R$ 463.564,13

R$ 2.966,81

71 anos

R$ 472.534,08

R$ 3.024,22

72 anos

R$ 481.676,96

R$ 3.082,73

73 anos

R$ 490.996,44

R$ 3.142,38

74 anos

R$ 500.496,25

R$ 3.203,18

75 anos

R$ 510.180,21

R$ 3.265,15

76 anos

R$ 520.052,22

R$ 3.328,33

77 anos

R$ 530.116,28

R$ 3.392,74

78 anos

R$ 540.376,46

R$ 3.458,41

79 anos

R$ 550.836,92

R$ 3.525,36

80 anos

R$ 561.491,95

R$ 3.593,55

81 anos

R$ 572.352,53

R$ 3.663,06

82 anos

R$ 583.421,80

R$ 3.733,90

83 anos

R$ 594.703,99

R$ 3.806,11

84 anos

R$ 606.203,42

R$ 3.879,70

85 anos

R$ 617.924,49

R$ 3.954,72

86 anos

R$ 629.871,69

R$ 4.031,18

87 anos

R$ 642.049,58

R$ 4.109,12

88 anos

R$ 654.462,82

R$ 4.188,56

89 anos

R$ 667.116,16

R$ 4.269,54

90 anos

R$ 680.014,40

R$ 4.352,09



Ao completar 90 anos, esse "bebê" de hoje terá vivido um quarto de século de aposentadoria com um conforto raro. Seu incremento mensal começou em mais de R$ 2.600,00 e terminou acima de R$ 4.350,00, sempre se somando ao seu benefício oficial de aposentadoria (seja o valor que seja).

E o mais impressionante: ao dar seu último suspiro, encerrando seu ciclo sob o sol, ele não terá consumido o seu patrimônio. Pelo contrário. Por ter mantido a firmeza de deixar 20% dos juros reinvestidos, o fundo que ele deixará para os seus herdeiros — a próxima geração de Dani Jr., Marçal ou Luiza — será de exatos Ao completar 90 anos, esse "bebê" de hoje terá vivido um quarto de século de aposentadoria com um conforto raro. Seu incremento mensal começou em mais de R$ 2.600,00 e terminou acima de R$ 4.350,00, sempre se somando ao seu benefício oficial de aposentadoria (seja o valor que seja).

E o mais impressionante: ao dar seu último suspiro, encerrando seu ciclo sob o sol, ele não terá consumido o seu patrimônio. Pelo contrário. Por ter mantido a firmeza de deixar 20% dos juros reinvestidos, o fundo que ele deixará para os seus herdeiros — a próxima geração de Dani Jr., Marçal ou Luiza — será de exatos... 

Será de exatos R$ 680.014,40, ou seja, bem mais de meio milhão de reais.

Olhando para essa jornada, com Lourdes ao meu lado e as lembranças de uma vida inteira de trabalho, vejo que isso prova uma grande verdade. Com a disciplina de um pãozinho e o respeito aos ciclos da vida, é possível atravessar as quatro estações deixando o solo muito mais fértil para quem vem depois. Não é apenas acumulação de moedas; é a matemática servindo à alma, à família e à mais bela posteridade.

Olhando para essa jornada, com Lourdes ao meu lado e as lembranças de uma vida inteira de trabalho, vejo que isso prova uma grande verdade. Com a disciplina de um pãozinho e o respeito aos ciclos da vida, é possível atravessar as quatro estações deixando o solo muito mais fértil para quem vem depois. Não é apenas acumulação de moedas; é a matemática servindo à alma, à família e à mais bela posteridade.

Casa do Lago, 11 de abril de 2026.





sexta-feira, abril 03, 2026

De Volta ao Lar: A Saga da Fênix Galáctica e a Mojica da Gratidão

 De Volta ao Lar: A Saga da Fênix Galáctica e a Mojica da Gratidão

Izaias Resplandes 

Voltei. Voltamos. Lourdes e eu estamos, finalmente, de volta ao aconchego da Casa do Lago. Desde o início de março, Goiânia foi o nosso pouso forçado, onde tratamos do conserto do nosso carro, a Fênix Galáctica — minha S-10 Bigodão. Após o acidente de trânsito em janeiro, foram três meses de parada, numa espera paciente por peças e pela funilaria. A lata ficou impecável, mas a mecânica nos reservava surpresas.

A correia do alternador, já em Goiânia, deu sinais de fadiga. O mecânico garantiu que eram as polias as responsáveis e trocamos tudo. Pegamos a estrada confiantes. Oitenta quilômetros depois, chegando em Inhumas, a correia se entregou novamente. Novo diagnóstico: o problema era o tensor. Troca feita, volta à estrada. E eis que, em Barra do Garças, a correia, teimosa, clama por atenção outra vez.

Foi quando a providência nos colocou diante do Vitor, da Auto Elétrica Vitor. Esse rapaz, com um cuidado que os outros não tiveram, verificou o nivelamento das polias e descobriu o verdadeiro vilão: um desalinhamento no compressor do ar-condicionado que também usa a mesma correia e estava jogando-a para fora. Mas era Semana Santa, o comércio fechava e ele não mexia com ar-condicionado. Vitor, então, com uma solução criativa e prática, "afinou" a correia tirando dois trilhos dela. Testou, garantiu que aguentaria e nós seguimos. Chegamos em casa sem nenhum problema extraordinário. Rapaz bom de serviço!

Mas não posso deixar de registrar a mão amiga do meu primo Edivaldo Resende. Foi ele quem me indicou o Vitor e nos deu todo o suporte em Barra do Garças, levando-nos e buscando-nos na casa do tio Carlinhos, onde jantamos e pernoitamos. Na casa do Tio Carlinhos e da Tia Eva — nossos festeiros do décimo sétimo Encontro Tuniquinho, que acontecerá em outubro — fomos acolhidos com um carinho ímpar. Além dos donos da casa, fomos abraçados pela Tia Agda e Tio Sidney, pelo Edivaldo Resende e sua esposa Raquel. Tia Eva preparou uma mojica de pintado que estava divina. E a prosa... Ah, a prosa foi nota dez! Conversamos até depois das dez da noite, e eu, depois que o pessoal se foi, ainda estiquei o papo com o Tio Carlinhos por mais uma hora. Passava das onze quando fomos dormir.

A quinta-feira me viu de pé antes das cinco da manhã. Tentei minha caminhada habitual, mas o portão estava trancado e não quis acordar ninguém. Fiquei na varanda, colocando a conversa virtual em dia, até que Tia Eva preparou um delicioso café da manhã com frutas, bolo de queijo, pãozinho e outras gostosuras. Não faltou o café forte, claro, mas esse ficou para os outros, porque eu não bebo.

O fim de semana promete movimento. Meus tos vão para o Pé da Serra para se reunir com a Tia Leide e o Tio Osvaldo. Tia Agda me chamou, e confesso que fiquei com vontade, mas a saudade de casa não permitiu alterar a programação. Quem sabe em julho!

E agora, estou aqui outra vez, caminhando ao redor da Casa do Lago desde às cinco da manhã. Que coisa boa para começar o dia! Na cozinha, Lourdes já se movimenta culinariamente. Ontem, desde que chegamos, foi faxina pesada. Limpamos tudo, ela por dentro e eu por fora, terminando já com a noite fechada. Dormimos o sono dos justos.

Que maravilha é estar em casa outra vez! Como sempre digo: o mundo de longe é bonito de ver, mas a nossa casa é para viver! De volta ao lar, com muito prazer.

A alegria se completa com a notícia de que vamos receber uma pessoa muito querida hoje. Nosso filho Ricardo, que ontem nos recebeu com um almoço feito por ele com todo carinho, me contou que a Mariza está vindo passar o final de semana conosco. Além disso, esperamos um grupo de irmãos da igreja para um mutirão de reformas na igreja de Poxoréu e no Acampamento Rio dos Crentes. O final de semana será movimentado, e nós amamos esse movimento que traz vida e alegria para nossa morada.

Agradeço a todas as pessoas que nos acompanharam na viagem com suas orações e mensagens de apoio. Graças a Deus, tudo deu certo. Os contratempos fazem parte da vida e, no nosso caso, aconteceram em lugares onde puderam ser resolvidos. Não há o que lamentar, apenas agradecer. Temos recebido bênção sobre bênção. Gratidão!

Casa do Lago, Poxoréu, 3 de abril de 2026.



terça-feira, março 31, 2026

Aniversário da UPE e do IHG


Estimados Confrades e Confreiras,

Hoje, 31 de março, o calendário de Poxoréu brilha com uma luz especial. Celebramos o aniversário de duas instituições que são as guardiãs da nossa identidade: os 38 anos da União Poxorense de Escritores (UPE) e os 11 anos do Instituto Histórico e Geográfico de Poxoréu (IHG).

Como sócio fundador dessas casas, sinto um orgulho imenso ao olhar para trás e ver que nossas mãos ajudaram a erguer os pilares onde hoje repousam a nossa literatura e a nossa história. A UPE deu voz aos nossos sentimentos e versos, enquanto o IHG deu corpo e rigor à nossa memória, garantindo que o passado de Poxoréu não seja apenas poeira de diamante, mas alicerce sólido para o futuro.

Cumprimento cada um de vocês que, com caneta e pesquisa, mantém essas chamas acesas. À nossa amada Poxoréu, parabéns por acolher e ver florescer essas "filhas ilustres" que tanto dignificam o nome da nossa terra.

Que continuemos, juntos, a escrever e a preservar o sentimento e a história de nossa gente.

Com fraterno abraço,

Izaias Resplandes

A Caminhada da Indiferença

 A Caminhada da Indiferença



Izaias Resplandes

Acordei antes das cinco da manhã. Levantei-me e me arrumei, com a sensação de que hoje encerro esta temporada de caminhadas pelo Jardim Marselha. Fiquei um mês por aqui, na Grande Goiânia, aguardando o conserto da minha S-10, que se danificou naquele acidente em janeiro. Parece que o calvário mecânico está chegando ao fim. A lataria foi arrumada, e hoje à tarde devo pegar o carro pronto. Se tudo der certo, amanhã bem cedo partimos para Barra do Garças.

Neste "balanço geral" de março, quero registrar minha gratidão profunda àqueles que nos acolheram. Não citarei nomes para não correr o risco de esquecer alguém, mas o sentimento é de que valeu a pena. Poderia ter sido ainda melhor, sim, mas sou grato pelo que foi. Consegui ver quem ainda não tinha visto, abraçar quem não tinha abraçado, entrar em casas onde nunca estivera. Revisitei os afetos de sempre, vi meus irmãos — a maioria, quase todos. Almoçamos juntos, tivemos boa comunhão, abraçamo-nos e rimos muito.

No entanto, em um "pós-balanço" mais íntimo, a palavra que emergiu, teimosa e triste, foi "indiferença". E ela me fez refletir.


Indiferença

Todo dia a gente passa...

Eu passo, ele passa, nós passamos.

Mas é como se não passássemos,

Porque ninguém nos vê

Desfilando na passarela da vida.

"Oi!", "Bom dia!", "Tudo bem?".

Cumprimento a todos,

Mas quem responde é o silêncio.

Essa parece ser a lei geral:

Ninguém quer falar, ninguém quer escutar.

Todos preferem o "faz de conta",

Fingindo que não ouviram,

Que não é com eles,

E cada um continua na sua bolha,

Como se somente ele existisse

E ninguém mais.

Tem uns que gostam de disparar mensagens prontas,

Metralhadoras de bytes que nada dizem,

Nem sobre eles, nem sobre nós.

Fazem o "disparo em massa" para todos os contatos,

Sem saber o que é, para que serve,

Mas achando que cumprem um papel social.

Essa mensagem não comunica; é um torpedo de silêncio.

É um aviso de "não me importune",

"Não quero falar",

"Já estou me comunicando (virtualmente)",

"Fique na sua, eu estou na minha".

Há gente que escreve "Bom dia" com facilidade,

Mas não tem coragem de dizer um simples "Oi" ou "Bom dia" ao vivo.

Escrever o vazio é mais cômodo do que falar a verdade.

Ah, como eu gostaria de saber como você realmente está passando!

O que aconteceu contigo, o que está fazendo,

Se está alegre ou triste.

Queria que você me dissesse isso "boca a boca", ao pé do ouvido,

Uma mensagem só para mim,

Para que eu soubesse que você falou COMIGO.

Ou que, pelo menos, a sua mensagem escrita dissesse algo de VOCÊ,

Para que eu sentisse que ela veio da sua alma.

O que dói é essa indiferença mascarada de tecnologia,

Que nos faz sentir sozinhos neste mundo lotado de gente.

Vivemos no auge da era da comunicação,

Mas o mundo está completamente vazio.

Vazio de gente que fala, vazio de gente que ouve.

Vazio de gente que interage, que comunica de verdade.

Vazio de gente que se importa.

Está cheio, sim, mas de indiferença.

E essa foi a minha reflexão pós-balanço. Mas, em um "pós-pós-balanço", quero dizer que valeu a pena o tempo e a comunicação que tive com VOCÊ, que me ouviu quando falei, que falou comigo, que me abraçou e me acolheu. A você, que não me deixou sentir sozinho, como se eu fosse uma ilha neste mar de gente virtual.

Deixo a você minha gratidão sincera, meu abraço apertado e um convite irrecusável: venha estar comigo na Casa do Lago, em Poxoréu. O convite está feito, e eu estarei lá, esperando, pronto para falar e, principalmente, para ouvir.

Minha palavra final pra você é: obrigado por ter feito a diferença!

Abraço e até lá!

Jardim Marselha, Aparecida de Goiânia, 31 de março de 2026.

domingo, março 29, 2026

A Dança do Sol e do Vento

 A Dança do Sol e do Vento



Izaias Resplandes 


O Sol se levanta na linha do horizonte e, antes de castigar com o calor intenso que promete para o dia, ele me acaricia a face com raios suaves. É o seu "bom dia", um convite iluminado para mais uma jornada de vida. Que fantástico! O que eu mais desejo é exatamente isso: uma existência sob o Sol, aquecida pelas almas solares, pelo Sol da Justiça, pelo Sol Divino. Meu rosto reflete essa luz brilhante e eu sorrio, feliz pela oportunidade de ser tocado quase toda manhã por essa energia nascente.

Prossigo na minha "caminhada milionária". Ela não tem fim no sentido de uma reta final, mas tem um objetivo claro: o movimento. Minha finalidade é nunca parar. Sigo a linha da eternidade; desde que conheci esse conceito, meu prazer é percorrer suas longas estradas de vida, de sol, de alegria e de entusiasmo.

Aqui no Jardim Marselha, minha caminhada é circular. A pista não é um círculo perfeito, mas um percurso de 2.400 metros que margeia os muros do condomínio. Dou três voltas matutinas, que se fundem como se fossem uma só. Pode parecer que caminho sobre minhas próprias pegadas existenciais, mas não. Não creio que eu repita, passo a passo, a mesma trajetória. Cada volta é original, trazendo uma nova perspectiva.

Ao levantar os olhos, vejo o Sol se ocultar atrás das nuvens, deixando o clima mais ameno e fresco. Agora, meu rosto é acariciado pelo vento. Observo as copas das pequenas árvores do Marselha balançando ao som de suas notas musicais. O vento é, de fato, um grande compositor. Suas canções, muitas vezes tempestuosas, são verdadeiros dramas trágicos que começam leves e alcançam o ponto culminante na crista de um furacão. Mas hoje, nesta manhã maravilhosa, a canção do vento é mansa, calma. Seus tons são inferiores ao canto entusiasmado do gavião quero-quero, que faz seu show pelos gramados. É gostoso sentir essa carícia do vento no rosto, no pescoço, no corpo todo. Ficamos mais animados para prosseguir na jornada.

Caminhar com o vento é revigorante. Se eu pudesse dar um conselho sobre caminhada, diria: "Caminha com o sol e com o vento". Prefiro o sol da manhã ou o da tardezinha. O pôr do sol aqui no Jardim Marselha é lindo de se ver. Mas, na verdade, será que existe um pôr do sol que não seja melancólico? Que a gente não queira degustar como se fosse uma comida, em toda a sua intensa grandeza?

Sim, após o sol vem a noite. Ela também tem seus encantos, mas, particularmente, eu sou do dia, da luz. Como já disse, sou uma alma do Sol. E quando ele começa a sumir à tarde, já não sei se o verei novamente nascer neste mesmo plano no dia seguinte. Por isso, quando posso, faço questão de aproveitar ao máximo essa visão do Astro-Rei se pondo.

O céu está de um azul bonito, compartilhado em muitos pontos por nuvens brancas e lindas. Não parecem nuvens de chuva, pelo menos por hora. Mas o tempo muda rapidamente; o vento sopra essas nuvens brancas para longe e atrai outras, mais densas, trazendo a chuva.

Eu continuo caminhando, conversando com as palavras, olhando e apreciando tudo. É a melhor das maravilhas e minha jornada infinita e eterna. Sempre encontro paisagens lindas, naturais ou construídas — retratos do Criador Divino e dos recriadores humanos, os arquitetos e paisagistas que se revezam ao longo do caminho.

Vou prosseguindo minha jornada pelas trilhas da recreação, sempre novas, sempre originais, quando abrimos os olhos para ver da forma correta. Ver corretamente é ser capaz de perceber que a visão não se repete e que é sempre nova e original. E toda originalidade merece o nosso olhar e os nossos aplausos.

Viva a Vida!


Jardim Marselha, Aparecida de Goiânia, 24 de março de 2026.

O Disco Voador

 O Disco Voador



Goiânia, Jardim Marselha, 25 de março de 2026.


Hoje, o sol de Goiânia parece brilhar com uma intensidade diferente, como se quisesse, ele também, acariciar a face da minha filha e dizer "bom dia" de forma especial. Mas nenhum astro, por mais brilhante, e nenhuma palavra, por mais rebuscada, consegue dar a medida exata do que sinto por você, Mariza.

Nesta caminhada milionária pela linha da eternidade que eu tanto persigo, você, minha filha, é a minha luz. Se o sol é o Criador Divino, você é um reflexo desse Criador em forma de gente, aquecendo a minha alma. E é justamente por isso que a sua partida, quando você vai para longe, deixa o meu mundo nublado, um vazio que nenhuma outra beleza consegue preencher.

Há quem diga que palavras bastam. Mas para expressar o meu amor por você, elas se esforçam, mas não chegam onde eu quero ir. São insuficientes, não traduzem a magnitude do meu sentir. Eu passo a vida tentando dizer o indizível. E na ausência de vocábulos que façam justiça, eu optei por dizer com a presença, com o gesto, com a alma.

Eu não sei o que fazer para expressar o meu amor de forma definitiva, mas eu sei o que eu fiz: sorri quando você sorria, cantei quando você cantava, alegrei-me vendo a sua alegria e, sem hesitar, chorei ao ver que você chorava. Quando você dormia, eu velava o seu sono; se acordava, eu era o primeiro a te saudar. Nas suas viagens, o meu pensamento viajava junto, e ao seu retorno, o meu corpo todo se preparava para o abraço.

É por isso, filha, que eu digo que é muito triste viver quando se vai o meu "disco voador". Quando o barulho do seu carro se distancia, o silêncio que fica é pesado. Eu tento ir junto, em pensamento e oração, mas a realidade física me separa.

Por outro lado, a minha maior alegria, o ponto culminante do meu dia, é quando ouço o som inconfundível do seu carro chegando em casa. É como se a própria luz do sol voltasse a brilhar no Garden Village. Eu exclamo, com o coração em festa: "Já chegou o disco voador!" e corro para o abraço, o lugar mais seguro do mundo para nós dois.

Não sei o que te dizer para expressar o meu amor de forma que ele fique gravado para sempre. Talvez não seja preciso dizer nada. Talvez as carícias do vento, o calor do sol e o pulsar da felicidade que sinto toda vez que te vejo já digam tudo.

Filha, você é o meu disco voador, o meu hino à renovação diária. E hoje, no seu aniversário, eu quero apenas que você saiba que este velhinho e a sua Esmeralda te amam profundamente.

Feliz aniversário, minha filha!


Beijos do papai, Izaias Resplandes.

Domingo de Fernandinho

 Domingo de Fernandinho



Izaías Resplandes 


Mais uma semana se desfez no tempo. O domingo chegou, trazendo consigo o peso e a leveza que cada um lhe atribui. Para uns, é o portal de entrada da semana; para a maioria que labutou, é o descanso merecido, o fim da jornada. Para um aposentado como eu, poderia ser apenas mais um dia normal no calendário. Mas não é. Hoje é o único dia da semana que meu filho, o Fernandinho, fica em casa. Nos outros dias, a rotina o arranca cedo e só o devolve à noite. Portanto, hoje, sem contestação, é o "Domingo de Fernandinho".

Ontem, minha cunhada Dalvani tentou quebrar essa rotina sagrada. Convidou a Lourdes para ir à sua chácara, num município vizinho. Lourdes, com a firmeza de quem conhece suas prioridades, recusou: "Hoje é o dia do Fernandinho". Dalvani insistiu, propondo um rodízio de churrasco, alegando ser barato, uns cinquenta reais. Lourdes, porém, manteve-se irredutível: "Não estou podendo gastar". O compromisso com o filho e com o orçamento doméstico falou mais alto.

Fernandinho acaba de se levantar. O aroma do café forte, que Lourdes preparou cedo, já preenche o ar. Fernandinho aproveita para tomar uns "cinquencentavo" da bebida, gole por gole, com prazer. Lourdes, por sua vez, hoje limitou-se a uma única volta na pista de caminhada. Queixou-se de cansaço e de dores nos membros superiores. O corpo também cobra seu descanso no domingo.

Fernandinho me encontrou aqui, ao lado da piscina. Há pouco, a bomba do filtro ligou automaticamente, e a água começou a borbulhar em dois cantos. Eu gosto dessas bolhas. Meto o rosto no meio delas e fico sentindo as cócegas, uma carícia líquida e divertida. Daqui a pouco, vou dar meu mergulho matinal, um ritual que cumpro religiosamente.

Outro dia, convidei meu primo Arnaldo para um banho nessas horas. A resposta dele foi emblemática: "Não amanheci sujo". Ri internamente. Eu também não estou sujo, mas a refrescância da água pela manhã é deliciosa. Ou talvez, pensando bem, eu nunca tenha estado realmente limpo. Vivemos submersos num mundo de sujeira, física e moral. O "sujo" está por toda parte, infiltrado nas entrelinhas da existência. Alguém escapa?

Há quem diga que existem almas boas e puras. Mas até quando dura a pureza de um "puro"? Provoquei o Fernandinho com essa questão. Ele, com sua mente perspicaz, me devolveu outra pergunta: "Do ponto de vista filosófico ou do ponto de vista prático?".

Acho que a pureza e a sujeira seguem exatamente essa tendência. A filosófica, a gente estampa, exibe como um troféu de moralidade. A prática, a gente mascara, esconde sob camadas de conveniências. No fundo, todo mundo gosta de varrer um pouco de sujeira para debaixo do tapete. A hipocrisia, afinal, é a rainha incontestável deste mundo. Todo mundo carrega seus "cinquencentavo" dessa riqueza cultural.

Fernandinho comentou que um lugar com zero hipocrisia seria um mundo "sei lá", um mundo de fingimento desmascarado. Respondi-lhe que esse lugar é o céu. Mas será que o céu é esse lugar "sei lá"? Não creio. Acho que o céu deve ser a própria essência da verdade, onde não precisaremos de máscaras.

No entanto, há certas coisas que é melhor não ficarmos falando. Será que essa negação, esse silêncio estratégico, já não é um pouco de hipocrisia? Seria a mascaração da realidade do pensamento para não chocar, para não escandalizar? Eu nem sei. Ou melhor, eu tenho uma ideia, até acho que sei, mas talvez seja melhor, por uma questão de convivência e bom exemplo para o Fernandinho e para os meus netos, ser um pouco "hipócrita" e dizer que não sei.

Eu gosto muito do mundo do "faz de conta". Escrevo tanta coisa sobre ele. É um vasto território, muito maior e mais rico que o mundo real. Ou será que é o mundo do "faz de conta" que é real e o tal "mundo real" não passa de um palco de hipocrisias? Sei lá! Até que sei... mas deixa para lá. É melhor eu parar de filosofar e me jogar nessas bolinhas da piscina!


Jardim Marselha, 29 de março de 2026.

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