A Caminhada da Indiferença
Izaias Resplandes
Acordei antes das cinco da manhã. Levantei-me e me arrumei, com a sensação de que hoje encerro esta temporada de caminhadas pelo Jardim Marselha. Fiquei um mês por aqui, na Grande Goiânia, aguardando o conserto da minha S-10, que se danificou naquele acidente em janeiro. Parece que o calvário mecânico está chegando ao fim. A lataria foi arrumada, e hoje à tarde devo pegar o carro pronto. Se tudo der certo, amanhã bem cedo partimos para Barra do Garças.
Neste "balanço geral" de março, quero registrar minha gratidão profunda àqueles que nos acolheram. Não citarei nomes para não correr o risco de esquecer alguém, mas o sentimento é de que valeu a pena. Poderia ter sido ainda melhor, sim, mas sou grato pelo que foi. Consegui ver quem ainda não tinha visto, abraçar quem não tinha abraçado, entrar em casas onde nunca estivera. Revisitei os afetos de sempre, vi meus irmãos — a maioria, quase todos. Almoçamos juntos, tivemos boa comunhão, abraçamo-nos e rimos muito.
No entanto, em um "pós-balanço" mais íntimo, a palavra que emergiu, teimosa e triste, foi "indiferença". E ela me fez refletir.
Indiferença
Todo dia a gente passa...
Eu passo, ele passa, nós passamos.
Mas é como se não passássemos,
Porque ninguém nos vê
Desfilando na passarela da vida.
"Oi!", "Bom dia!", "Tudo bem?".
Cumprimento a todos,
Mas quem responde é o silêncio.
Essa parece ser a lei geral:
Ninguém quer falar, ninguém quer escutar.
Todos preferem o "faz de conta",
Fingindo que não ouviram,
Que não é com eles,
E cada um continua na sua bolha,
Como se somente ele existisse
E ninguém mais.
Tem uns que gostam de disparar mensagens prontas,
Metralhadoras de bytes que nada dizem,
Nem sobre eles, nem sobre nós.
Fazem o "disparo em massa" para todos os contatos,
Sem saber o que é, para que serve,
Mas achando que cumprem um papel social.
Essa mensagem não comunica; é um torpedo de silêncio.
É um aviso de "não me importune",
"Não quero falar",
"Já estou me comunicando (virtualmente)",
"Fique na sua, eu estou na minha".
Há gente que escreve "Bom dia" com facilidade,
Mas não tem coragem de dizer um simples "Oi" ou "Bom dia" ao vivo.
Escrever o vazio é mais cômodo do que falar a verdade.
Ah, como eu gostaria de saber como você realmente está passando!
O que aconteceu contigo, o que está fazendo,
Se está alegre ou triste.
Queria que você me dissesse isso "boca a boca", ao pé do ouvido,
Uma mensagem só para mim,
Para que eu soubesse que você falou COMIGO.
Ou que, pelo menos, a sua mensagem escrita dissesse algo de VOCÊ,
Para que eu sentisse que ela veio da sua alma.
O que dói é essa indiferença mascarada de tecnologia,
Que nos faz sentir sozinhos neste mundo lotado de gente.
Vivemos no auge da era da comunicação,
Mas o mundo está completamente vazio.
Vazio de gente que fala, vazio de gente que ouve.
Vazio de gente que interage, que comunica de verdade.
Vazio de gente que se importa.
Está cheio, sim, mas de indiferença.
E essa foi a minha reflexão pós-balanço. Mas, em um "pós-pós-balanço", quero dizer que valeu a pena o tempo e a comunicação que tive com VOCÊ, que me ouviu quando falei, que falou comigo, que me abraçou e me acolheu. A você, que não me deixou sentir sozinho, como se eu fosse uma ilha neste mar de gente virtual.
Deixo a você minha gratidão sincera, meu abraço apertado e um convite irrecusável: venha estar comigo na Casa do Lago, em Poxoréu. O convite está feito, e eu estarei lá, esperando, pronto para falar e, principalmente, para ouvir.
Minha palavra final pra você é: obrigado por ter feito a diferença!
Abraço e até lá!
Jardim Marselha, Aparecida de Goiânia, 31 de março de 2026.