segunda-feira, março 09, 2026

A alquimia das sobras

 



O Alquimista das Sobras


Por Izaias Resplandes


Dizem que o destino é escrito nas estrelas ou nos genes, mas eu aprendi, ainda menino, que o destino se escreve é na beirada do prato. Naqueles tempos, a fome não era uma estatística de jornal; era um buraco físico que a gente tentava tapar com o que chamávamos de "égua atolada" — o resto do almoço guardado para o lanche, defendido com unhas e dentes. Quem nunca teve que brigar pela própria "égua atolada" talvez não entenda que a dignidade começa na manutenção do que resta.

Muitos olham para o 08 de março ou para qualquer outra data de luta e enxergam apenas as grandes estruturas, os sindicatos, as massas. Eu, no entanto, enxergo as fomes. A fome do estômago, que me ensinou a não desperdiçar um único grão, e a fome do saber, que me fez perceber que a vida é uma construção de vontade.

Jesus, o maior dos transformadores, não desprezou os pedaços. Mandou recolher o que sobrou da multiplicação para que nada se perdesse. Há uma santidade no "não desperdiçar". Quando economizamos o que consumimos, abrimos espaço para que o outro, aquele que ainda vive o tempo da escassez, possa também se sentar à mesa. O mercado pode ditar os preços, mas somos nós que ditamos o valor do que sobra.

Eu não creio em sentenças genéticas. Não creio que o filho do pobre deva ser pobre, ou que o nascido macho ou fêmea deva carregar as correntes de uma identidade imposta pelo mundo. Se o meu nascimento foi uma escolha de meus pais, minha vida é uma escolha minha. Sou um defensor do livre-arbítrio, desse tribunal íntimo onde cada um de nós decide se vai aceitar o figurino ou se vai costurar a própria roupa.

A luta é coletiva, sim, mas ela é travada por indivíduos que decidiram não ser mais os mesmos. Os pobres, como disse o Mestre, sempre estarão conosco — mas não precisam ser as mesmas pessoas. A transformação é a porta de saída.

Hoje, não guardo mais restos por necessidade de sobrevivência, mas por dever de consciência. Olho para o passado e vejo que a "égua atolada" foi minha primeira lição de economia e resistência. E olho para o futuro sabendo que, enquanto houver um ser humano lutando para ser quem deseja, a multiplicação dos pães — e das almas — continuará acontecendo.

Goiânia, 09/03/2026

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