O Inventário da Eternidade: Entre o Atacadão e o Infinito
*Por Izaías Resplandes*
Hoje, o despertador não marcou apenas o início de um feriado de 21 de abril; ele deu o sinal para o início de mais um capítulo. Descobri, no silêncio de um áudio e na clareza de um raciocínio, que a vida não é feita de minutos, mas de narrativas. Tudo, absolutamente tudo, se resume a uma história. E a Grande História Universal, essa senhora imponente, nada mais é do que um imenso coral de vozes particulares, onde a minha e a sua voz buscam o seu lugar na partitura.
Lembrei-me de Eça de Queirós em *A Cidade e as Serras*. O mestre português dizia que o homem do campo vive pelo estômago e pelo instinto de reprodução. É a sobrevivência bruta, o esforço de não deixar a chama da espécie apagar. Mas, enquanto olho para o horizonte de Mato Grosso, percebo que queremos mais. Não nos basta apenas "parar em pé" e gerar filhos; queremos que esses filhos, e os filhos deles — como o meu David, o Tupande e o Pett — saibam que estivemos aqui. Queremos sobreviver para sempre. E a única forma de fazer isso, já que o corpo é matéria perecível, é transformando a vida em relato.
Nossas pequenas aventuras cotidianas são, na verdade, fragmentos de uma epopeia. Enquanto planejo com Esmeralda nossa ida a Primavera do Leste para as compras no Atacadão, o que vejo não é apenas uma lista de suprimentos. Vejo o capítulo do "Mutirão de Primeiro de Maio". Cada saca de mantimento comprada é um parágrafo escrito na história da nossa igreja em Poxoréu. As mãos que carregam as sacolas são as mesmas que levantam paredes, unindo irmãos que vêm de Rondonópolis, Jaciara e Nova Olímpia em uma caligrafia de fraternidade.
Nesta tarde, se o destino permitir, faremos uma pausa na casa do mano Enivaldo. Uma visita de feriado, um café, um abraço. Para o mundo, um evento trivial. Para a nossa "Geografia da Alma", um registro essencial de que o afeto é o que dá liga aos nossos dias.
A vida se divide em dimensões. Existe a material, do suor e do tijolo; a espiritual, dos sentimentos e dos prazeres que a cidade nos ensinou a cultivar; e a transdimensional, onde a nossa história se funde com a raça, com os antepassados e com o próprio Deus. É nessa última que a nossa crônica deixa de ser fumaça e se torna eterna.
A verdade é que somos o que nossas histórias contam. Se não há narrativa, o átomo é mudo e o homem é nada. É a história que nos torna "alguém". E o que é mais belo em tudo isso: escrevemos a muitas mãos. Um capítulo é rascunhado aqui em Poxoréu, outro é lido em voz alta acolá, e assim a trama se tece.
Enquanto raciocino e escrevo estas linhas, sinto o peso e a leveza de ser um "animal narrador". Que privilégio o nosso, de poder olhar para um carrinho de compras ou para um mutirão de obras e enxergar ali a beleza de uma obra literária divina.
Que linda história é a nossa história! Sigamos escrevendo, com fé e tinta, pois cada gesto nosso é um verso que o tempo não poderá apagar.
Casa do Lago, 21/04/2026

2 comentários:
Parabéns prof. Izaías! É assim mesmo,a literatura fornece um gás novo à vida.
Exatamente, mestra! Muita gente vive me perguntando se o que eu escrevo é verdade. Mas é claro que é verdade, eu digo. Eu só escrevo a verdade. Se a minha verdade não couber na sua cabeça, o problema não é meu, é seu. Mas se a minha verdade não for verdadeira e você não fala nada da sua verdade, então o que além de nada nós vamos ter? Assim... É melhor ficar com a minha verdade, pelo menos eu tenho uma. É o que eu digo, professora! Com todo gás!
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