O Sheik
Por _Izaias Resplandes_
Tudo começou em Goiânia, na época em que o amor entre mim e a Lourdes ainda dividia o muro de casa. Minha casa ficava logo ali, ao lado da dela. E, no pacote desse romance, vinha um pequeno detalhe peludo e teimoso: o Sheik, o cachorrinho da Lourdes.
Quando nos casamos e fomos começar a nossa vida a dois em uma edícula no fundo do lote do meu pai, lá no Setor Bela Vista, o Sheik simplesmente decidiu que o nosso novo lar também era o dele. Fez as malas do jeito dele e se mudou com a gente. No começo, confesso, eu não queria saber de cachorro ali. Eu brigava, tentava espantá-lo, mandava ele de volta para a casa dele. Cheguei até a dar umas chineladas no chão para assustá-lo — *left, left!* —, na esperança de que ele desistisse de mim. Mas não adiantava absolutamente nada. Ele me olhava, abaixava as orelhas, dava uma voltinha e continuava exatamente onde estava: na nossa casa.
Vencido pela teimosia (e, admito, pelo charme daquele bicho), decidi hastear a bandeira branca. Parei de xingar e passei a alimentá-lo e a fazer carinho. Foi a melhor derrota da minha vida. A partir daquele momento, o Sheik me adotou. Ele passou a gostar tanto de mim que nós nos tornamos inseparáveis.
O tempo passou e os ventos nos levaram para Poxoréu. Na mudança, achamos prudente deixar o Sheik em Goiânia. O problema é que a distância revelou o quanto já tínhamos aprendido a amá-lo. A saudade bateu forte, invadiu a casa nova e não nos deu trégua. Foi então que tomei uma decisão: eu precisava buscar o meu amigo.
Fui a Goiânia em uma verdadeira missão de resgate. Naquela época, os motoristas eram rigorosos e não permitiam animais nos ônibus de viagem. Mas o amor sempre dá um jeito. Comprei uma caixa, ajeitei o Sheik lá dentro e o cobri cuidadosamente com a minha blusa de frio. Atravessei a porta do ônibus com a respiração presa, torcendo para que ninguém notasse a minha bagagem clandestina.
Sentei na poltrona e coloquei a caixa no chão, bem apertada entre os meus pés. E foi aí que aconteceu a mágica: o Sheik sentiu o cheiro dos meus sapatos, reconheceu o dono que ele tanto amava, e ficou ali, quietinho, aconchegado e em silêncio durante toda a viagem. Não me deu um pingo de trabalho.
Quando descemos em Rondonópolis, tirei ele da caixa. O ônibus não havia parado na rodoviária, mas na garagem da empresa. As pessoas ao redor olhavam torto, cochichavam e falavam da audácia de viajar com um cachorro. Eu não dei a mínima atenção. Segurei firme na coleira dele e fomos andando, a pé, da garagem até a rodoviária. Antes de embarcar no ônibus final para Poxoréu, repeti a operação: Sheik na caixa, blusa por cima, caixa entre os pés. Chegamos ao nosso destino sãos e salvos, sem nenhum problema. A chegada dele em casa foi a maior alegria que poderíamos ter.
Os anos se passaram em Poxoréu. Nossos filhos — Fernando, Marisa e Ricardo — cresceram tendo o Sheik como parte da família. Ele era a minha sombra. Onde quer que eu me sentasse, lá vinha ele, se aninhando aos meus pés como se dissesse: "Daqui ninguém me tira". E não tirava mesmo. Se alguém tentasse se aproximar muito rápido, ele soltava um rosnado de aviso. Era o meu guardião particular.
Nós vivemos altas aventuras juntos, mas, infelizmente, o tempo cobra seu preço. Quando o Sheik já estava mais velho, uma cachorrinha da vizinhança entrou no cio e atraiu uma matilha para a porta de casa. O Sheik, valente como sempre, acabou entrando em uma briga de rua com cachorros muito maiores que ele. Ele apanhou muito, ficou gravemente machucado, adoeceu e não resistiu.
Eu mesmo preparei o seu descanso final e o sepultei no nosso quintal. As lágrimas rolaram soltas naquele dia; chorei muito a perda daquele amigo. Até hoje, quando olho para certos cantos da casa, sinto uma saudade imensa dele.
Hoje, nossa casa é alegre com a presença do Shazam e da Shakira. Eles gostam de nós e nós gostamos deles, mas a verdade é que um amor canino é como impressão digital — nunca existe um igual ao outro. O amor do Sheik era único.
Onde quer que fique o céu dos cachorros, tenho certeza de que ele está lá, deitado tranquilamente. E, quem sabe, guardando um lugarzinho aos pés de onde eu um dia irei sentar. Saudades, Sheik.
Casa do Lago, 24 de abril de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário