sexta-feira, fevereiro 24, 2006

De pai para filho

Izaias Resplandes
Meu filho, por favor, me escute, para que possamos viver em paz!
Tenho procurado falar-lhe de muitas maneiras e parece que não tenho encontrado bons resultados. Espero que esta não seja apenas mais uma alternativa malfadada. Eu lamento as vezes que gritei e falei alto com você. Mas eu fico irritado porque você parece não dar bola para as coisas que eu falo. Eu quero que você me escute, me dê atenção, ouvidos e ponha em prática aquilo que te falo. Isso não é difícil de fazer, se você quiser. Por isso e me ouça, faça essa prática para que possamos viver em paz.
Não deixe que minha instrução entre por um de seus ouvidos e saia pelo outro. Não quero que você seja como eu, que viva a minha vida. O que quero é que você não cometa os mesmos erros que eu cometi. E tenho certeza que se você praticar o que eu te ensino como pai, não somente viveremos em paz, mas você será um vencedor. Você não precisará esconder nada, nem de mim, nem de ninguém; não precisará ter medo de represálias ou de castigos porque a sua vida será uma vida de verdades, estribada e fundamentada na verdade; duras verdades, às vezes, mas verdades. É por isso que sempre te digo para não mentir. Dizem que a mentira tem pernas curtas, mas eu te digo que nem pernas ela tem. A mentira é uma deformação da verdade.
Com certeza nós saberemos compreender os seus erros, por mais feios que eles possam ser pintados; entenderemos que ninguém está livre da fatalidade e buscaremos juntos uma saída honrosa e digna para que você possa retornar ao caminho do bem, o qual embora nem sempre achamos que é o melhor, é o caminho aceito e aprovado pela sociedade. E para que nós possamos viver em paz e harmonia com essa sociedade na qual estamos inseridos, nós temos que segui-lo. Essa é uma excelente perspectiva de futuro. Por isso, não minta, fale e pratique a verdade e assim todos viveremos em paz!
Além da verdade conceitual, quero te dizer que hoje eu vivo e trabalho para você. E uma das coisas que te peço é que dê valor ao que faço por você. Pode parecer meio esquisito, mas esse é o meu jeito de amar: vivendo, trabalhando e me preocupando com tudo o que te diz respeito. Sua mãe e eu já estamos velhos. Praticamente já fizemos quase tudo o que poderíamos ter feito para nós mesmos. Agora, tudo o que fazemos é para você, com quem continuaremos existindo depois que partirmos dessa vida. Então, meu filho, dê valor ao que é nosso. Não jogue nossas pérolas aos porcos. Conserve-as para os dias maus e difíceis que virão.
Seja um bom administrador. O futuro vai cobrar isso de você. Sua mãe e eu lutamos sozinhos para sermos vencedores nessa vida. Recebemos muito pouco; quase nada. Tivemos que construir tudo com muito trabalho, esforço e sacrifício. E o que construímos, queremos deixar para que você tenha uma base para começar, para que não comece do zero como nós começamos. Então, meu filho, seja responsável na administração do nosso patrimônio. Use-o com sabedoria para que ele sirva de alguma coisa para você e para que você, amanhã, também tenha alguma coisa para deixar a nossos netos, seus filhos.
Espalhar, destruir e acabar é muito fácil. Construir, ajuntar e possuir é uma luta que dura uma ou muitas vidas. Meu desejo é que você seja melhor do que eu fui, viva melhor do que eu vivi e tenha muito mais chances e oportunidades do que eu tive, apesar de que o seu mundo e a sua realidade serão muito mais severos com você do que os meus foram comigo. Mas essa é a razão da minha vida como seu pai. Eu luto com todas as armas de que disponho para que você não tenha que passar pelas mesmas dificuldades pelas quais eu passei para vencer.
Perdoe-me pela dureza das palavras. Mas, porque te amo, eu tinha que ser sincero e dizer as coisas conforme elas brotaram em meu coração. Nunca te esqueças que se digo o que te digo é porque amo você. Não te esqueças e sejas um vencedor!

Universidade Oba-Oba!

Izaias Resplandes
A máxima do “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” está se tornando realidade na universidade brasileira. Depois de enfrentar uma resistência que não foi tão resistente assim, o Rio de Janeiro saiu na frente, oficializando há poucos dias a tão propalada reserva de vagas nas universidades estaduais daquele Estado, para os alunos provenientes da escola pública. É claro que desse ponto para a generalização em todo o país, inclusive nas universidades federais, será um passo. Vale lembrar que nós do Mato Grosso temos que falar um pouco mais baixo sobre isso, haja vista que na origem oficial desse ba-fa-fá também está o Senador Antero Paes de Barros, um dos candidatos a candidato a Governador de nosso Estado, autor de um Projeto de Lei sobre o assunto, que está tramitando lá pelas bandas do Congresso Nacional. Mas, se pecamos falando, pecamos mais ainda pela omissão silenciosa, pelo que opto por engrossar as fileiras da resistência contra esse oba-oba que se está implantando nas nossas universidades.
Reservar vagas para alguns privilegiados, é abrir as janelas para o ladrão. Quem muito bem dissertou sobre isso foi Jesus Cristo. Segundo ele, “o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador” (João 10:1). Enquanto pai e professor de escola pública, eu questiono e condeno essa educação que se dispõe a iniciar os jovens brasileiros nos caminhos da marginalidade. Fico com a nossa Constituição, pela qual “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (art. 5º). Se os nossos jovens da escola pública não estão ingressando na faculdade, então é porque existe uma deficiência na base preparatória, a qual precisa ser corrigida. Todavia, não se corrige um erro com outro. Isso seria persistir no erro, o que até a cultura popular já consagrou como burrice. A reserva de vagas fere a nossa Lei Maior e não é uma solução inteligente para o problema da dificuldade que os jovens egressos da escola pública têm para ingressar nas universidades públicas em nosso país. Para solucionar a questão é preciso ir até as suas raízes mais profundas, as quais estão umbilicalmente ligadas à realidade em que vivem tais alunos.
Seguindo a orientação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, a escola deve preparar o jovem para a vida; para o exercício da cidadania. E essa orientação deve ser seguida tanto pelas escolas públicas quanto pelas privadas. Isso pode parecer positivo, mas é exatamente nesse ponto que encontramos uma das principais barreiras para que o jovem da escola pública ingresse na faculdade. Trata-se de como essa questão da preparação para a vida é vista pelas classes popular e remediada, de onde provém a quase totalidade dos jovens de quem estamos falando.
Para as camadas populares, estar preparado para a vida significa ter pelo menos o ensino médio. A Universidade é uma utopia para essa gente que passa fome, que está desempregada, que madruga para pegar uma ficha para o médico do posto de saúde e que, somente abaixo da linha da miséria é constituída por 80 milhões de brasileiros. É com essa gente tão sofrida e humilhada que a escola pública trabalha. Essa é uma das realidades do problema em exame. Esse é o limite, a meta e o objetivo da escola pública: oferecer a educação básica prevista na nossa LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). Na outra semi-reta dessa história estão os egressos da escola privada, cuja meta final para a devida preparação ao exercício da cidadania, somente será atingida com a conclusão de um curso superior.
Por mais agressiva que seja, a realidade norte-sul em que vivem os pobres e “remediados” jovens do Brasil é um quadro pintado mais ou menos com essas cores. Se quisermos mudanças nesse panorama, se quisermos diminuir as desigualdades que separam esses dois mundos, devemos tomar medidas que aumentem o poder de competitividade dos jovens da escola pública, dentre as quais sugiro uma mudança nas suas finalidades, estabelecendo como meta principal a preparação do jovem para o ingresso na faculdade. Os alunos que têm saído das escolas públicas não estão conseguindo se empregar, porque quem está disputando as vagas nos serviços mais elementares do mercado são profissionais de nível superior.
Chega de iludirmos a nós e aos nossos alunos com uma pretensa preparação para o trabalho, porque da maneira como a lei nos manda “ensinar”, não estamos preparando nem para uma coisa nem para outra, em nossas escolas públicas. Temos que fazer como eles fazem nas escolas privadas, ou seja, preparar nossos garotos para ingressar na faculdade. Nós sabemos quais os conteúdos e cobranças que comumente caem nos vestibulares, mas não trabalhamos tais conteúdos nem preparamos nossos alunos para responder aos tais questionamentos. Então me digam se queremos para eles, algo mais que essa famigerada educação básica do preparo para o desemprego e que também é conhecida como 2º grau e ensino médio. No bla-bla-blá, podemos até dizer, mas não é isso que nossos atos declaram.
Para encerrar, é bom lembrar que a festa do oba-oba não para por aí. Uma das propostas do Brasil na Conferência da ONU, na África é justamente a reserva de vagas para os negros em nossas universidades. Ontem os humilhados foram os pobres. A proposta de hoje também inclui os negros. E amanhã, para que quase todos sejamos iguais, você também poderá ser incluído nesse oba-oba da reserva universitária. Que possamos viver para ver!

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O quinto ano

Izaias Resplandes

A ordem natural sob a qual se encontra organizado o universo, diz que nossa vida é um elemento de constante fluidez. A todo instante estamos sofrendo o efeito das mudanças. Ainda que algumas pareçam imperceptíveis, o tempo não nos deixa esquecer. Já não somos mais os jovens de antigamente. Hoje estamos mais velhos do que ontem. A ordem natural que Deus estabeleceu para o homem é nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Reconhecê-la é uma questão de sabedoria. O rei Davi sempre pedia ao seu Deus, por ele e por seu povo: “ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90:12).
Como é notório, estamos terminando o primeiro ciclo do terceiro milênio e iniciando o seu quinto ano. Um ciclo completo equivale a um grau a mais, tanto na evolução, quanto no conhecimento. Pela lógica, após tantas idas e vindas pela vida, devemos estar agora mais sábios do que antes, mais perspicazes, mais aptos para ver as novas possibilidades que se desenham aos nossos olhos. O tempo pode tornar as pessoas mais sábias, enquanto a história cíclica passa e repassa no seu eterno vai e vem. Várias escrituras falam sobre isso.
“Acrescentai ano a ano, deixai as festas que completem o seu ciclo” (Is 29:1). “Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gn 8:22). “Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste” (Sl 74:17).
Compreender que estamos no curso da história, repetindo-o, tal qual nos anos anteriores, é de capital importância para que possamos nos preparar para receber o novo ciclo que se inicia neste quinto ano do milênio. Muitos têm continuado na mesmice, sem progredirem, sem evoluírem. Isso se deu porque não foram capazes de perceber como funciona a ordem universal estabelecida pelo Criador. Quando se tem essa virtude, então tal pessoa pode se preparar para enfrentar o novo, o qual nada mais é do que a volta do velho.
Se eu moro na beira do rio e sei que todos os anos ele pode encher, então eu tomo as providências. Construo uma barreira, mudo a minha casa para mais longe, aumento a altura dos seus alicerces, enfim, faço alguma coisa para que a minha casa não seja inundada no próximo ano. Ou seja, a pessoa que conhece os ciclos universais, se prepara para não ser surpreendida. Certa vez, estando Jesus no território de Magadã, aproximaram-se dele fariseus e saduceus, pedindo-lhe “que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. Ele, porém, lhes respondeu: Chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado; e, pela manhã: Hoje, haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?” (Mt 15:39-16:1-2).
O tempo que chega e que passa é uma aula que se renova a cada período, desde o tempo do microssegundo, até o tempo do macroscópico. A terra gira em torno de seu eixo, no movimento de rotação, gerando os dias e as noites. A cada manhã temos uma nova oportunidade para recomeçar melhor, onde a brisa e a chuva novamente regarão a terra e o sol despontará no horizonte para ajudar a natureza a fazer a síntese da vida. Ao mesmo tempo, como em uma nave espacial, orbitamos anualmente em torno do sol e, num ciclo muito mais longo, a Terra juntamente com todos os astros que compõem o sistema solar, faz o movimento de translação em direção ao ápex, que fica entre as constelações de Hércules e de Libra. Enquanto viajamos pelo espaço sideral, temos a oportunidade de conhecer e sondar as possibilidades de novos mundos e novas galáxias, onde possamos viver e desenvolver. O futuro da humanidade está realmente “escrito nas estrelas”, porque nós vivemos e viajamos pelo universo segundo seu governo.
“Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos. E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez. Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas” (Gn 1:14-16).
A ordem universal é temporal. Se nos aprofundarmos na compreensão dos ciclos dos tempos, haveremos de descobrir a chave que abre a porta das possibilidades. Então poderemos avançar mais um grau na evolução e no conhecimento. Caso contrário, continuaremos como crianças, ao sabor do acaso. E esse não é o propósito divino.
A Bíblia nos orienta “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4:14). O apóstolo Pedro nos alerta sobre a ignorância. Diz ele: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno” (2 Pe 3:17-18). O próprio Jesus chamou a atenção dos seus ouvintes, ao dizer-lhes: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22:29); “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5:39).
Estamos na dispensação do conhecimento dos mistérios de Deus. Devemos aproveitar a oportunidade para nos aprofundarmos naquilo que tem sido insondável. Esse é o desejo divino, a respeito do qual o apóstolo Paulo se manifestara nos primeiros tempos da igreja, dizendo: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais, segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Ef 3:8-11).
Assim sendo, que possamos começar o quinto e todos os anos deste milênio com novos olhos e nova mente, para vermos a salvação e a vida que Deus tem preparado para cada um de nós que conseguirmos alcançar a sua luz.

O poeta e a filosofia

Izaias Resplandes

O poeta é um filósofo: vê o que poucos vêem e analisa e discute o que todos não conseguem ver.
A Filosofia Geral é uma das disciplinas obrigatórias na maioria dos cursos superiores, dentre os quais o de Direito. Embora alguns não gostem, ela é uma matéria essencial para a formação dos seus futuros operadores. Por meio dela, se aprende a questionar o mundo que nos parece estar estabelecido à nossa volta e a desafiar a nossa capacidade de se impressionar diante dos acontecimentos do quotidiano, às vezes tão simples mas, às vezes tão brutais.
A sociedade como um todo, acostumou-se a viver neste mundo e a aceitá-lo como normal, de tal sorte que ninguém estranha com nada e, algumas vezes, nem percebe que coisas fantásticas estão acontecendo diante dos seus olhos. Por exemplo, quem ainda não teve aquele ‘insight”, “heureca”, “achei” ou “ah-rá!” diante de uma situação antiga ou corriqueira e que de repetente pareceu tão inusitada? Quase todos já passamos por isso. Muitos já devem ter perguntado a alguém: “onde você estava que eu nunca te vi?”
A poesia, tal qual a Filosofia, nos faz ver o mundo com outros olhos. Lendo e discutindo recentemente “O mundo de Sofia”, na UNICEN, em Primavera do Leste, fizemos uma fantástica aventura, começando pela criação, passando pelos dias atuais e fazendo conjecturas sobre o amanhã da humanidade. Quantas vezes debatemos no “Boulevar Érico Piana”, se nós estamos vivendo no mundo real ou se estamos sonhando e, a qualquer hora, acordaremos e veremos que a realidade é bem diferente? Jostein Gaarder semeia a dúvida em nossa cabeça, porque é bem verdade que quando sonhamos, nem sempre temos consciência de que as imagens do sonho são parte de um sonho; nós costumamos pensar que é tudo verdade e que tudo aquilo está acontecendo mesmo. É praticamente tudo da mesma maneira que acontece agora, quando nós também pensamos que tudo o que está acontecendo é verdade. Mas nós podemos ter certeza de que nossa vida é real e não um sonho? Alguns pensam que podem. Outros não. O René Descartes concluiu que sua vida não era um sonho. Disse ele: cogito, ergo sum (penso, logo existo).
Entrando no mundo das elocubrações, dizia certa feita aos meus colegas do Direito, que alimento e sustento em meu estômago uma grande quantidade de “vermes”, lombrigas e coisas semelhantes e que elas dependem de mim para continuar a viver. Eu sou um deus para elas, embora elas não saberiam dizer quem ou o que eu sou, mesmo que fossem inteligentes. Saberiam apenas que em algum lugar daquele “bucho” universal onde elas vivem ou mesmo em todo ele, existiria alguém ou alguma coisa que garantia a sua existência. Mas saindo do bucho em questão, o que se vê é que o tal “deus” não passa de um mortal comedor de feijão, que um dia, em um fatalismo inevitável, vai para o beleléu com todas as suas lombrigas. Quem garante que não estamos no ventre de alguém? Como podemos ter certeza de que nosso mundo não é semelhante ao mundo de nossas lombrigas? Essa é uma pergunta que a nossa racionalidade não pode explicar. Então recorremos à fé e simplesmente acreditamos dogmaticamente, sem discussão, que somos criaturas de Deus e que nele nos movemos e nele existimos.
Está errado o nosso procedimento? De forma alguma! Como diz o Mestre Prof. José Carlos Iglesias, “nós não podemos abandonar as nossas crenças, se não temos algo melhor para colocar em seu lugar”. Muitos estão perdidos porque não se apegam em nada. E o nada, só pode levar alguém a lugar algum. Temos que nos definir por alguma coisa e justificá-la de alguma forma. O que não podemos é simplesmente “ficar” no mundo, de forma neutra, como se nada tivéssemos com tudo o que acontece ao nosso redor. Ninguém precisa ficar sem resposta. A poesia é composta de muitas possibilidades. Para ela tudo é possível e ninguém discute o que o poeta diz. Ela é uma forma louca para se questionar a realidade, ser considerado normal e ainda ser aplaudido.
Por isso precisamos da poesia e dos poetas. Nós temos que questionar a realidade. A busca da verdade real é o alvo de todos nós. Não podemos ser iludidos por uma indiferença. Da nossa atitude dependerá a vida e a morte dos nossos semelhantes. Como dizia o Aristóteles, embora também seja importante, não dá para simplesmente ficarmos perguntando “de onde viemos”, “como viemos” e “para onde vamos”, mas também é necessário saber o “para que viemos” e qual é a finalidade de nossa existência.
Nós estamos fazendo uma viagem fantástica pelo espaço sideral, em muitas dimensões simultâneas. Diariamente, damos uma volta ao mundo, percorrendo em torno de 40 mil quilômetros, em uma velocidade aproximada de 1670 km/h. Anualmente, fazemos a viagem orbital em torno do sol, em uma velocidade de 28,9 km/s, quase 104 mil km/h. E o fantástico não para por aí. A Terra juntamente com todos os astros que compõem o sistema solar, faz o movimento de translação em direção ao ápex, que fica entre as constelações de Hércules e de Libra, em uma velocidade aproximada de 20 km/s.
Como podemos ficar indiferente a tudo isso? Como podemos viver em busca de anjos e de marcianos, se não somos capazes de ver e de entender porque estamos viajando pelo espaço, em uma espaçonave gigantesca de 1 trilhão de quilômetros cúbicos de volume, na companhia de seis bilhões de passageiros?
A conclusão a que chegamos é que não dá para viver sem a filosofia, a não ser que sejamos simples lombrigas anencefálicas, da mesma forma que não dá para viver sem a poesia, a não ser que estejamos mortos.
Viva a poesia! Salve os poetas e sua filosofia!

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Embriões Espirituais

Izaias Resplandes

“E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura” (1 Co 5:17a). “Em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3). “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:12-13).
A ciência moderna trouxe a possibilidade da fertilização “in vitro”, em laboratório, artificialmente. Para que isso ocorra, são coletados milhares de células reprodutoras masculinas (espermatozóides) e algumas femininas (óvulos), com as quais se formam artificialmente vários embriões. A partir de cada célula se pode formar um embrião. Para a geração de um novo ser, utiliza-se, normalmente, apenas um embrião, o qual é implantado no útero feminino para que se desenvolva no ambiente adequado. Os demais embriões são mantidos em estado de animação suspensa, podendo ser utilizados ou não para a geração de novos seres. A grande discussão de hoje é sobre a utilização desses embriões remanescentes para as experiências com células T, visando a cura de diversas deformidades congênitas. O debate fático gira em torno do embrião já ser ou não um novo ser. Segundo consta, a fase embrionária do ser humano é o período que demanda entre a fecundação e a oitava semana de existência. A partir daí, tem-se a fase fetal. É evidente que o embrião gerado por intervenção de terceiros é um ser humano em potencia. Sendo introduzido no ambiente adequado e se desenvolvendo, tornar-se-á uma nova criatura; caso contrário, será um ser humano inexistente, visto não haver nascido. Logo, salvo anormalidades, o desenvolvimento do embrião é a “conditio sine qua non” para o nascimento.
Muito bem. A ilustração ora apresentada tem por objetivo uma reflexão sobre a existência espiritual da “nova criatura”.
É sabido que o processo do novo nascimento tem início com a aceitação de Jesus Cristo como Senhor, através da confissão espontânea. Rm 10:9. “Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor...”. Mas, o simples fato de alguém declarar que aceita a Jesus como seu Senhor já caracteriza o nascimento da nova criatura? Essa é a questão, visto que muitas pessoas que têm dado esse passo não têm permanecido no ambiente de desenvolvimento, na igreja, tendo continuado com a mesma velha vida de antes. Outros tem permanecido no ambiente, mas não produzem frutos. Nesse caso, entendo que não houve o “novo nascimento”, posto que continua existindo a velha criatura. As Escrituras não concebem a possibilidade de existência simultânea do velho e do novo homem. Vários textos nos levam a esse entendimento. Am 3:3. “Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?”. Mt 6:24. “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Tg 4:4. “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus”.
Outro ponto. Seria o batismo indicativo do novo nascimento? Há muitos que pensam afirmativamente a esse respeito e desejam ser batizados para se tornarem novas criaturas. Há, inclusive, quem acredite que somente será salvo se for batizado. De acordo com o Texto Sagrado, as coisas não são exatamente assim. Dentre esses: Jo 3:5. “A isso respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. Mc 16:16. “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado”. Lc 3:7-9. “Dizia ele, pois, às multidões que saíam para serem batizadas: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento [...]. E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo”. É evidente que os renascidos devem ser batizados, mas não é por ser batizado, que uma pessoa comprova que é de fato renascida. O batismo é símbolo de algo que já aconteceu na vida da pessoa. Mas, muitos vão ao batismo tentando fugir da “ira vindoura”, sem que o novo nascimento já tenha se operacionalizado em sua vida. Esse batismo não tem valor algum. Não demonstra que tal pessoa é discípula de Jesus e muito menos que seja renascida. Eu diria mais: tal ato é um pecado gravíssimo, falsidade ideológica (Mt 7:21), tomada do nome de Deus em vão (Ex 20:7), blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12:31-32).
O novo nascimento é um ato processual. Tem início com a confissão de fé, se essa tiver sido sincera e espontânea, por meio do Espírito (Jo 16:8), a qual deve ser seguida de desenvolvimento. Há muitas pessoas que “aceitaram Jesus” há anos, mas ainda são carnais (1 Co 3:1, 3; Cl 2:18). Não se desenvolveram. Não tem ainda sequer os fundamentos dos apóstolos e profetas (Ef. 2:20). São embriões espirituais em estado de morte latente. Estão no ambiente propício – a igreja, mas não se desenvolvem. Cristo não está em suas vidas, as quais não passam de meros faz-de-conta. Eles fazem parte da igreja de Laodicéia, em que o Espírito do Senhor está fora de seus corações (Ap 3:20). Tais pessoas não nasceram de novo; são velhas criaturas; não produzem os “frutos dignos de arrependimento”; não estão salvas, mesmo que pensem o contrário. Jesus foi enfático: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7:21). Ninguém é salvo apenas para ser salvo, como se fosse um espécime raro.
Somos salvos para fazermos a obra de Deus. A preguiça, a inércia, a frieza e o descompromisso não são atitudes típicas das novas criaturas. Quem se preocupa apenas consigo próprio e não faz nada em prol dos demais, ainda não sabe amar (1 Co 13:5). E se não ama os outros, não pode ser discípulo de Jesus (Jo 13:35), não pode ser filho de Deus, pois “Deus é amor” (1 Jo 4:8). Tiago diz que a fé sem obras não vale nada (Tg 2:14). “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salva-lo?”. O “crente” sem obras é o joio que se parece com o crente, mas não é crente. Ele não é o bom trigo. Seu destino não é o céu, é o fogo (Mt 13:30). Ele é uma figueira cheia de folhas, mas sem frutos (Mt 21:19), uma árvore com desenvolvimento incompleto, um ser imperfeito porque não cumpre com suas funções de dar frutos.
Quando Deus nos legou Sua Palavra, Ele tinha em mente capacitar-nos para o processo de aperfeiçoamento, mediante a realização de boas obras (2 Tm 3:16-17). O ser perfeito, renascido, servo de Deus, faz boas obras. Quando Cristo, por meio do Espírito Santo, concedeu dons aos homens (Ef. 4:11), ele tinha em mente o ser perfeito, ativo, participativo, trabalhador, realizador de boas obras. Deus é trabalhador, Jesus é trabalhador, Adão, no Paraíso, era um trabalhador e nós também devemos ser trabalhadores (Jo 5:17; Jo 6:27; Lc 10:7). Com toda certeza, a salvação não é para os preguiçosos e acomodados. Não é para aqueles que se preocupam apenas consigo mesmos. Cada pessoa é salva para continuar a grande obra de salvação desencadeada pelo Senhor Jesus. Cada salvo deve, por conseguinte, fazer a sua parte na obra. Salomão diz: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso!” (Pv 6:6).
Por último, destaca-se que não estamos aqui pretendendo defender a salvação por meio de obras praticadas por nós. Absolutamente. Ef 2:8-9 deixa isso bem claro. A tese é exatamente o oposto disso. Não podemos fazer nenhuma obra para obtermos a nossa salvação. Somos salvos pela graça de Deus. Mas se fomos realmente salvos, é impossível que não consigamos produzir boas obras, obras que culminem com a salvação de outras pessoas. Nós somos os instrumentos cirúrgicos com os quais o Espírito Santo opera a salvação das pessoas. Nem que seja apenas um “copo de água fria” (Mt 10:42) para aliviar os sedentos enquanto não chega a “água viva” (Jo 4:10), existe alguma coisa que teremos condições de fazer. E tenho certeza absoluta, de que Deus nos capacita para produzir muito mais do que um simples copo de água. Todavia, não adianta termos o dom incubado, em estado de potência, como um germe ou embrião espiritual. É preciso agir de contínuo para desenvolvê-lo. Caminhemos com Paulo. Fp 3:13-14. “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma cousa faço: esquecendo-me das cousas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Não sejamos simples embriões espirituais, como incrédulos que nada fazem quando ouvem a mensagem, que entra por um de seus ouvidos e sai pelo outro sem nenhum proveito. “Não sejas incrédulo, mas crentes” (Jo 20:27). E que Deus abençoe o nosso progresso espiritual. Amém.

sábado, janeiro 28, 2006

Paradoxos entre a Constituição Federal e o trabalho escravo

Izaias Resplandes
“Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’” (Mt 5:37)

O Brasil é um país de paradoxos. Além dos radicais contrastes físicos e culturais que encantam os turistas, também predominam em seu território os contrastes socioeconômicos/legais que envergonham os brasileiros perante a comunidade internacional, responsáveis em potencial pela escravização de quase um quarto da população, que não tem como sobreviver, senão à custa da exploração de sua dignidade e que, grosso modo, é aceito com a maior naturalidade por todos os segmentos sociais brasileiros.
“Que lindo! Que maravilha! Que espetáculo! Isso aqui é um paraíso! Brasil! Brasil! Brasil-sil-sil!” Essas são frases que adocicam os ouvidos dos guias turísticos brasileiros na Amazônia, nos Cerrados, no Pantanal Mato-grossense, na serra gaúcha, nos pampas, nas cataratas do Iguaçu, enfim, da Ponta do Seixas à Serra da Contamana, do monte Caburaí ao arroio Xuí que, na sua maioria, vivem do subemprego, não são têm CTPS assinada e nem são empregados de ninguém. São “autônomos” sem autonomia. Apesar de bonitas essas frases ditas pelos turistas, que cantam e encantam, elas também são retratos coloridos da realidade em preto e branco que é vivida pela maioria das gentes desse país. É de destacar que “na última pesquisa da empresa de consultoria A. T. Kearney e da revista Foreign Policy, com a avaliação de 62 países que representam 85% da população mundial, o Brasil caiu quatro postos no Índice de Globalização (IG). [...] O IG do Brasil é o 57º, apenas na frente de mais 6 nações incluídas na pesquisa e atrás de 56 países”[i].
Além disso, no RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano) para 2005, divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas), o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil é 0,792 para o ano de 2003 – O IDH varia de 0 a 1 e quanto maior o número, mais elevada é a qualidade de vida no País. O Brasil ocupou a 63ª posição no ranking dos 177 países pesquisados. É de lamentar que esse RDH, apesar de apontar um IDH dois milésimos melhor do que no ano anterior, ainda denota um dos mais gritantes contrastes vividos pelos brasileiros. Segundo o relatório “só em cinco países os 10% mais pobres ficam com uma parcela de renda menor que a dos brasileiros miseráveis. [...] Por outro lado, em apenas sete países os 10% mais ricos da população se apropriam de uma fatia de renda nacional maior que a dos ricos brasileiros, que abocanham 46,9% da renda”.[ii]
Extremamente ricos e extremamente pobres. Assim vivem os brasileiros, divididos pelos abismos dos contrastes econômico-sociais, com a parte mais frágil, mesmo majoritária, dançando perigosamente na corda bamba, a mercê de seus opressores, para os quais, a solução da miséria do planeta ainda deve seguir a velha fórmula romana do “pão e circo”. Para tanto, criaram até um novo vocábulo: “tittytainment, combinação de entertainment (diversão, entretenimento) e tits (gíria americana para seios ou tetas). Ao cunhar a expressão, Brzezinski pensou menos em sexo e mais no leite da mãe que amamenta. Com uma mistura de diversão anestesiante e alimento suficiente – o “entretenimento”, numa tentativa de tradução –, a vasta legião de frustrados e excluídos poderia ser mantida satisfeita”.[iii]
Pão e circo. Esta é a solução que os ricos têm para aqueles que só têm “de seu” as mãos, os pés, a barriga vazia e cujo projeto de vida mais feliz é de um dia poder incluir-se no sonho capitalista, vivendo nos EUA, na Europa ou em qualquer país do chamado primeiro mundo, mesmo que seja trabalhando em ritmo escravo, duas , três ou ainda mais jornadas diárias de trabalho, sozinho, longe de seu país e de seus familiares, como se tivessem sido degredados.
“Tittytainment”. A cultura imperialista têm dado aos excluídos de tudo, muitos Chapolins Colorados” e outros tantos falsos heróis, para que sonhem com uma provável possibilidade de libertação. E muitos vivem nesse divertido (sic) mundo da lua, enquanto são apenas mantidos vivos pelos bolsões de pobreza do Estado dos opressores, prontos para serem arregimentados como soldados do chamado “exército de reserva”, para substituir aqueles que forem sucumbindo nas frentes de batalha em prol da construção do Estado deles, feito na medida deles e para eles tão somente. Do ideal democrático tal, “do povo, pelo povo e para o povo” fica apenas o “pelo povo”. De resto, é de destacar o sangue ardente bombeado pelos corações dessa gente oprimida, cada vez mais oprimida, principalmente porque busca a sua libertação na pedagogia do dominante, ao invés de construir a sua própria, a “pedagogia do oprimido”, como bem orientam os escritos do mestre dos excluídos, o professor Paulo Freire com sua pedagogia libertadora.
Pobres... Costa e Silva dizia que “os ricos devem continuar cada vez mais ricos para poderem proporcionar a felicidade aos pobres”[iv]. Pobres... Jesus disse: “Os pobres vocês sempre os terão consigo”[v]. Mas, da mesma sorte que “nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores”[vi], nossos pobres também são mais pobres. Eles são os mais de 44,8 milhões de miseráveis que povoam o Brasil desde 2004, segundo divulgação da Fundação Getúlio Vargas (FGV)[vii].
Não bastassem essas manifestações escravagistas de ordem fática e de cunho material que dominam a paisagem brasileira, as maiorias desse país ainda sucumbem perante os paradoxos provenientes do ordenamento jurídico pátrio que deveria protegê-los. Senão, vejamos.
Aduz o texto constitucional nacional em seu art. 1º, inc. III, que a “dignidade da pessoa humana” é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, complementando em seu art. 3º, que esta tem como objetivos fundamentais: “I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
É evidente que tais dispositivos são pilares a serem seguidos durante toda a construção do edifício constitucional, inclusive no que diz respeito à sua revisão e reformas posteriores, bem como a todas as construções erguidas em torno de seu eixo central pelos legisladores ordinários típicos e atípicos. Em tudo por tudo, o povo brasileiro, sem exceção, deveria pautar a sua conduta e ações, nas regras estabelecidas pelo constituinte originário, para viger em todo o território nacional.
De que adiantaria ao Brasil ter uma Constituição se ela não fosse respeitada enquanto tal? Quem responde é juiz John Marshall, da Corte Suprema dos EUA, nos autos do caso Marbury x Madison, nos idos de 1803, logo após a promulgação da Constituição dos Estados Unidos. Disse então: “Ou a Constituição é uma lei superior, soberana, irreformável mediante processos comuns, ou se nivela com os atos da legislação usual, e, como estes, é reformável à vontade da legislatura. Se a primeira é verdadeira, então o ato legislativo contrário à constituição não será lei; se é verdadeira a segunda, então as Constituições escritas são esforços inúteis do povo para limitar um poder pela sua própria natureza ilimitável. Ora, com certeza, todos os que têm formulado Constituições escritas, sempre o fizeram no objetivo de determinar a lei fundamental e suprema da nação; e, conseqüentemente, a teoria de tais governos deve ser a da nulidade de qualquer ato da legislatura ofensivo à Constituição”[viii]. Essa mesma postura tem sido adotada no Brasil desde a Constituição Republicana de 1891. Todavia, em que pese ter um dos melhores controles de constitucionalidade do mundo, já que abrange tanto o controle concentrado do modelo europeu, como o controle difuso do modelo americano, ainda se admite na Constituição Brasileira as chamadas “normas programáticas” que estão em seu texto apenas como intenção do Estado, mas que ainda não podem ser cumpridas em sua plenitude.
É o que ocorre com a norma insculpida no art. 7º, IV, da CF/88, onde se estabelece, dentre os “direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim”.
Dir-se-á que tal norma é de eficácia plena e não programática, como ora se alega. A um tal argumento se redargüi com a anuência apenas em relação à questão do valor “mínimo”, entendendo também que este deva ser o menor salário pago ao trabalhador por uma jornada de até 44 horas semanais. Todavia, no que diz respeito às finalidades que tal salário mínimo devem atender – atualmente no valor de R$ 300,00 (trezentos reais) por mês, R$ 10,00 (dez reais) por dia ou R$ 1,36 (um real e trinta e seis centavos) por hora, conforme estabelecido na Lei nº 11.164 de 18/08/2005 –, não há conciliação. Ou a lei que fixou esse valor indigno é tipicamente inconstitucional por ferir o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), bem como o art. 7º, IV, ou então não existe trabalho escravo no Brasil e todos os brasileiros têm o que comer, o que vestir, onde morar e tudo o mais que necessita uma pessoa humana. Nesse caso, não é a realidade vivida pelos brasileiros que está pintada em preto e branco; é o filme usado pelo fotógrafo que não é colorido. E o Brasil tem realmente as cores de sua bandeira. Sabe-se, com certeza que essa não é a realidade fática.
A título de comparação, seria difícil concluir sobre o que é pior: se a política repressiva do governo americano de George Bush em relação aos imigrantes brasileiros em busca de remuneração digna nos EUA, apesar do trabalho indigno a que são submetidos, se a política opressora do Brasil com o seu salário mínimo indigno de R$ 300,00 mensais para toda espécie de trabalho digno, uma vez que ninguém consegue viver em condições de dignidade com esse salário.
Conclui-se, portanto, que o problema do trabalho escravo no Brasil perpassa pelos paradoxos existentes entre o ideal constitucional de dignidade e a realidade indigna aceita como natural pela sociedade brasileira. A superação desses contrastes culminará com a instalação de uma ordem justa e igualitária para todos no Brasil.
[i] BUSCANDO eficácia na gestão pública. Gerente de Cidade, São Paulo, ano 9, n. 35, p. 1-5, jul.-set. 2005.
[ii] Idem.
[iii] MARTIN, H. A armadilha da globalização. 3.ed. São Paulo: Globo, 1998, p. 12.
[iv] ARQUIVO N. Globo News. Documentário exibido em 02/12/2005 pelo canal 105 da TV por assinatura Sky.
[v] BÍBLIA de estudo NVI. Mateus. São Paulo: Vida, 2003, cap. 26, v. 11, p. 1661.
[vi] DIAS, G. Canção do exílio. In: GOMES, V. M. M. C. (Org.) Poetas e escritores românticos do Brasil. São Paulo: Novo Brasil, 1987, p. 58
[vii] DANTAS, F. Número de miseráveis cai 8% no país. O Estado de São Paulo, São Paulo, 29 nov. 2005. Disponível em: <http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=33409>. Acesso em 03/12/2005.
[viii] MIRANDA, H. S. Curso de direito constitucional. 2.ed. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 129, N.R.

domingo, janeiro 22, 2006

A guerra do Iraque



Izaias Resplandes


Hoje é um domingo de guerra. Há três dias estamos presenciando os ataques dos EUA e de seus aliados contra o povo iraquiano. O dia 19 de março de 2003 marcou o início da invasão, a qual se deu sem a necessária autorização da ONU – Organização das Nações Unidas. Trata-se de um atentado contra a comunidade internacional, posto que a maioria dos países entendeu que os Estados Unidos não poderia atacar o Iraque sob o pretexto de que aquele país possuía armas de destruição em massa, as quais poderiam ser algum dia utilizadas por Saddan Russein contra os americanos. Foram contra pelo menos por duas razões principais: primeiro, porque não se conseguiu provar a existência das alegadas armas; segundo, porque mesmo que estas existissem, elas nunca foram utilizadas contra os EUA. Pelo que se sabe, o Iraque realmente teve armas químicas e bacteriológicas no passado, as quais usou contra os Curdos, uma parte da população iraquiana que vive no norte do país, mas que, atualmente não foram mais encontradas, sendo que os iraquianos afirmam que eles não mais as têm. O entendimento internacional é que esse ataque americano abre um precedente muito perigoso para todo o mundo, uma vez que se isso for admitido, qualquer nação poderá desferir um ataque contra outra, sob a alegação de que aquela um dia poderia se voltar contra esta. O que vemos é realmente um caos, o qual nós, evangélicos, não podemos ignorar. Não podemos apoiar uma guerra tão desigual como essa, onde é incomparável o poder das forças em litígio e cujos objetivos não são os defendidos pelo nosso Rei Jesus.
Recordo-me daquela vez em que Jesus e seus discípulos se aproximavam de uma aldeia samaritana, onde solicitaram abrigo, o qual lhes foi recusado. Naquela oportunidade, alguns dos apóstolos queriam usar o grande poder celestial que estava em suas mãos para dizimar aquele povo. Mas então nós ouvimos de Jesus o brado contrário a essa intenção e a reafirmação dos objetivos de sua vinda ao mundo: “Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salva-las” (Lc 9:51-56).
A Inglaterra e os EUA são dois países onde a maioria professa ser seguidora de Cristo. “Pouco mais da metade da população é protestante (as principais denominações são a metodista, luterana, presbiteriana, pentecostal, batista e episcopal), enquanto cerca de um quarto da população professa o catolicismo. Esses dois ramos do cristianismo somam mais de 85% do total” (Barsa, 2001, p. 79). “A Inglaterra é majoritariamente anglicana” (Barsa, 2001, p. 268). Sendo seguidores de Cristo, essas nações tem realmente a obrigação de investir os seus bilhões de dólares e euros numa guerra não somente contra o Iraque, mas contra todo o mundo. Todavia, não para mata-los, não para destruí-los, senão que para salva-los. O que as chamadas “tropas de coalisão” estão fazendo hoje no Iraque é um ataque frontal aos propósitos de Jesus.
O povo iraquiano, juntamente com milhares de pessoas em todo o mundo aguarda ansiosamente pelo dia em que lhes for anunciada a mensagem do Evangelho de Jesus, que de certa forma lhes foi prometida, quando Ele determinou aos seus discípulos que fossem por todo o mundo e que fizessem discípulos de todas as nações (Mc 16:15; Mt 28:19). Essa é a guerra de Jesus, a guerra contra a incredulidade, a guerra contra o mal, a guerra contra as hostes espirituais do mal. A nossa luta não é contra e nem a favor da carne.
A nossa luta deve ser espiritual (Ef 6:12) e é uma luta em prol da paz; da paz dos homens para com o nosso Deus. Assim, em diversas partes da Bíblia, somos orientados a seguir a paz com todos (Mc 9:50, 1 Ts 5:13, Hb 12:14) e a buscar a paz com Deus (Sl 34:14; Rm 14:17, Gl 5:22), a qual é um dos frutos do Espírito.
Com toda certeza, esse é um momento de suma importância para todas as pessoas refletirem na sua situação pessoal com Deus. Quantos mulçumanos estão morrendo sem ouvir a mensagem de Deus que diz a respeito da possibilidade de salvação da morte eterna através da pessoa de Jesus. Há poucos dias os iraquianos estavam em paz e de repente veio sobre eles esse fogo cruzado e eles estão morrendo às tantas, sob as bombas e mísseis dos americanos e britânicos, sem antes terem a oportunidade de aceitarem a salvação de Deus. É lamentável que isso esteja ocorrendo. Todavia, mais lamentável ainda é que muitas pessoas que não estão sendo bombardeadas e que estão tranqüilas em suas casas também precisam de Jesus para salvá-las e não estão se dando conta de que a oportunidade de fazerem a decisão pela vida eterna oferecida por Jesus também está com os dias contados e que acabará no dia em que morrermos.
Hoje, com certeza, é tempo de nos preocuparmos com a nossa salvação. E se você pensa dessa maneira, eu quero te dizer que Jesus está somente aguardando que você abra a porta de seu coração e o convide para habitar ali (Ap 3:20). Hoje é dia de salvação (2 Co 6:2). Pense nisto! Que Deus nos abençoe!

Fazendo Discípulos para a Nova Terra

  Fazendo Discípulos para a Nova Terra Graça e paz aos meus irmãos e irmãs. Hoje, trago uma reflexão que nasceu não apenas da leit...