Quatro meses. O tempo na Terra tem essa régua insistente, que marca os dias com o compasso da ausência. Mas, enquanto o relógio de parede aqui na Casa do Lago dita o ritmo da minha missão, o coração se projeta para onde Maria Resplandes de Sousa agora habita. O apóstolo Paulo, em sua "contemplação visionária", já havia dado o veredito: aquele é o melhor lugar para se viver. E quem sou eu para discordar?
Imagino essa Cidade Santa não como um lugar de silêncio estático, mas como a plenitude de tudo o que experimentamos de mais belo por aqui. Se as águas de Poxoréu nos encantam, como não seriam os rios da eternidade?
Lembro-me, com uma melancolia mansa — nunca com tristeza, pois o amor não combina com o luto amargo —, de um dia em que o céu parecia ter descido um pouquinho até nós. Estávamos em um tour pela região, eu e a trupe dos Carrijos, os filhos de tia Marina e tio Itamario, que passavam férias conosco. No meio do caminho, uma cachoeira. Não era uma queda monumental, dessas que assustam pela altura, mas tinha a delicadeza necessária para o descanso da alma.
O que ficou gravado na retina, porém, não foi apenas o volume da água, mas a imagem da mamãe. Ver Esmeralda, meu neto David e toda aquela algazarra de primos reunidos já seria motivo de festa, mas ver mamãe ali, despojada, brincando na água e se permitindo o puro deleite do balneário, foi um presente do mestre.
As fotos daquele dia são relíquias. Olho para elas e entendo que a vida não é apenas o "trabalho, trabalho e trabalho" que tanto nos consome. O próprio Cristo, em sua missão terrena, sabia a hora de se retirar com os discípulos para o repouso. O descanso é parte da liturgia da vida; é o momento em que a alma se refaz para continuar a jornada.
Hoje, quatro meses após sua partida, a saudade aperta, mas a certeza consola. Sei que meus irmãos compartilham desse sentimento. Estamos aqui, cuidando do que nos foi confiado, enquanto ela já desfruta da cachoeira definitiva, aquela cujas águas nunca secam e onde o sol da justiça nunca se põe.
Desejamos o melhor para quem amamos, e o melhor, sem dúvida alguma, é o Paraíso. Por enquanto, guardo a foto, o sorriso dela molhado pelo frescor daquela tarde em Poxoréu e sigo a missão. Afinal, a caminhada continua, mas o destino já conhecemos.
Casa do Lago, 18 de fevereiro de 2026.

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