A Roça da Casa do Lago
Izaias Resplandes
Nossa roça é um exercício de fé e biodiversidade. Chamo de "superpopulação de plantas", pois aqui temos um pacto com a terra: tiramos uma mata para plantar outra, garantindo que o solo jamais fique descoberto, sentindo-se nu. É uma selva organizada pelo carinho.
O feijão de corda, valente e explorador, sobe pelo pé de alfavaca, conquista o limoeiro e continua sua escalada rumo ao sol. Lá de trás, o mamoeiro observa a cena, quase apreensivo, perguntando-se em silêncio: "Será que esse cipó de feijão vai me pegar também?". Um pouco mais à frente, o jambo, as amarílis e as bananeiras desfilam diante dos meus olhos como modelos em uma passarela verde. Se essa mistura dá resultado técnico, eu não sei; mas sei que é de uma beleza que acalma a alma. Planta-se de tudo um pouco, e colhe-se paz em cada folha.
E a chuva? Ah, ela joga conosco! Vai e volta, num bailado que durou a noite inteira. A grama verde, os hibiscos, o limãozinho, a gueroba e as inúmeras bananeiras... todos agradecem. A chuva lava e rega essa nossa fábrica de alimentos e de estética. Hoje cedo, o mamoeiro nos serviu o desjejum e, olhando bem, já vi outro no ponto de colheita. Vara na mão, mamão no cesto. Amanhã, a doçura na mesa está garantida.
Não custa lembrar nossa regra de ouro: aqui, o desperdício é uma palavra proibida no vocabulário "casalaguense". O ciclo é ativo, dinâmico e sagrado. O que não nos serve de alimento agora, serve aos animais ou vira adubo para as novas mudas. Devolvemos à Terra, com gratidão, o que dela recebemos.
O café da manhã de hoje foi um banquete da roça: mamão suculento, cuscuz com ovo, bolacha caseira, pão e bolo de mandioca. Lourdes (minha eterna Esmeralda) não deixa faltar as delícias que só ela sabe preparar com os frutos do nosso chão. Morar na roça e não desfrutar do que ela oferece seria um desperdício de oportunidade — e oportunidade é coisa que aproveitamos bem por aqui.
Agora, sentado na rede da varanda, recebo o "carinho úmido" de Shazam e Shakira. Eles se aproximam para me lamber e eu caio no riso; é a linguagem deles para dizer que me amam. Ao fundo, o "tererê" da água caindo no reservatório continua sua música original.
Que o nosso dia seja tão fértil e generoso quanto essa terra que nos abraça.
Casa do Lago, 11 de fevereiro de 2026.

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